O Brasil e o mundo do candomblé receberam com tristeza a notícia do falecimento de Mãe Carmen Oxaguian, uma das mais respeitadas ialorixás do país. Na noite desta sexta-feira, 26 de dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou as redes sociais para expressar seu profundo pesar pela partida da líder religiosa, que tinha 98 anos e era a matriarca do renomado Terreiro de Gantois, localizado em Salvador, Bahia. A primeira-dama, Janja, também se uniu ao sentimento de luto, ressaltando o impacto da perda para a cultura e a espiritualidade brasileira.
Em uma carta de condolências, o chefe do executivo brasileiro e sua esposa manifestaram-se “profundamente tristes com a partida da querida Mãe Carmen de Oxaguian”. Lula destacou a dedicação da ialorixá que, por mais de duas décadas, conduziu “com muito amor” as atividades de um dos templos de candomblé de maior importância no Brasil, o Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, amplamente conhecido como o Terreiro do Gantois. A gestão de Mãe Carmen foi marcada por sua firmeza e pela preservação das tradições ancestrais que o local representa, sendo um farol de fé e cultura para a comunidade afro-brasileira e para o país como um todo.
Lula lamenta morte de Mãe Carmen Oxaguian, ialorixá do Gantois
O presidente Lula salientou ainda que a liderança religiosa da matriarca não apenas cultivou, mas também perpetuou a rica tradição ancestral que lhe foi legada por figuras históricas como Mãe Menininha e outras matriarcas que a precederam. Essa herança, descrita como um “compromisso sagrado”, foi mantida viva sob o comando de Mãe Carmen Oxaguian. Em sua nota, o presidente fez questão de frisar que a ialorixá “manteve acesa a chama da espiritualidade africana que fez uma nova casa no Brasil e permeou a cultura e o coração dos brasileiros”, evidenciando o papel fundamental do candomblé na formação identitária nacional. A importância do Terreiro de Gantois como patrimônio cultural e religioso é inegável, sendo reconhecido por sua contribuição à história e à memória afro-brasileira. Para saber mais sobre o reconhecimento de templos como este, confira a página oficial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O legado de uma liderança que “cultivou amor”
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, também se manifestou sobre a perda, utilizando suas plataformas digitais para sublinhar os valores e a influência da matriarca. Em suas palavras, Menezes relembrou a oportunidade que teve de conhecer a ialorixá, não apenas como uma autoridade espiritual de grande magnitude, mas também como “uma grande mulher de fé”. A ministra enfatizou que Mãe Carmen “cultivou amor, acolhimento e a força de quem lidera pelo exemplo”, atributos que marcaram sua trajetória e deixaram um legado indelével para as futuras gerações.
A repercussão do falecimento se estendeu a outras esferas governamentais e sociais. O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, por meio de uma nota de pesar oficial, solidarizou-se com a comunidade do Terreiro do Gantois, expressando profundo lamento pela partida da estimada ialorixá. O comunicado do Ministério reforçou a dimensão da perda, afirmando que “sua partida representa uma grande perda para o povo de santo, para a Bahia e para o país”, e que “sua vida permanece como legado de sabedoria, firmeza espiritual e compromisso com a ancestralidade”, reconhecendo a magnitude de sua contribuição para a diversidade cultural e religiosa brasileira.
Personalidades do meio artístico também se uniram às homenagens. O renomado músico Gilberto Gil, uma das vozes mais emblemáticas da cultura brasileira e um profundo conhecedor das raízes afro-brasileiras, foi um dos artistas a manifestar seu pesar pela morte de Mãe Carmen. Filha mais nova de Mãe Menininha, outra figura icônica do candomblé e do Terreiro do Gantois, Mãe Carmen deixará saudades entre aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la e admirar sua obra espiritual e cultural.
Gilberto Gil, em sua mensagem, expressou o sentimento de perda com as palavras: “Partiu hoje deixando muitas saudades. Descanse em paz! Que Obatalá nos proteja”. A referência a Obatalá, orixá ligado à criação e à paz, ressalta a profundidade da fé e o respeito de Gil pela espiritualidade que Mãe Carmen representava, e a crença na proteção e no amparo divino em momentos de luto e transição.
A trajetória de uma vida dedicada à ancestralidade
Mãe Carmen, cujo nome religioso era Carmen Oxaguian, era civilmente conhecida como Carmen Oliveira da Silva, uma contadora aposentada que dedicou sua vida ao candomblé. Ela assumiu a liderança do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase em 2002, dando continuidade a uma linhagem matriarcal de grande prestígio. Sua ligação com o terreiro era intrínseca desde o nascimento, ocorrido em 29 de dezembro de 1926, dentro da própria casa de candomblé, fato que por si só já demonstrava seu destino e a profundidade de sua conexão com a fé. Aos sete anos de idade, ela foi iniciada nos rituais da religião, marcando o início de uma jornada de devoção e sabedoria que duraria quase um século.
A ialorixá deixou um legado familiar que inclui duas filhas, três netos e quatro bisnetos, perpetuando não apenas sua linhagem sanguínea, mas também os ensinamentos e a espiritualidade que tanto defendeu. O velório da líder religiosa estava previsto para se estender até este sábado, 27 de dezembro, culminando com seu sepultamento na cidade de Salvador, o berço de sua fé e o local onde dedicou sua vida a preservar a chama da ancestralidade africana no Brasil. A comunidade do Terreiro do Gantois e seus seguidores se reúnem para prestar as últimas homenagens a uma figura que marcou profundamente a história do candomblé.
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A partida de Mãe Carmen Oxaguian representa não apenas a perda de uma líder espiritual, mas o fechamento de um ciclo para o Terreiro de Gantois e para a cultura afro-brasileira. Seu legado de amor, acolhimento e compromisso com a ancestralidade continuará a inspirar gerações. Para ficar por dentro de outras notícias importantes sobre política, cultura e sociedade, continue explorando nossa editoria e aprofundando-se nos temas que impactam o Brasil e o mundo.
Crédito da imagem: marienedecastro/Instagram






