Comunicação Interna e IA: Transparência e Confiança Essenciais

DP E RH

A ascensão da inteligência artificial na comunicação interna das empresas redefine prioridades, tornando a transparência e a construção de confiança elementos cruciais. Com algoritmos que já moldam fluxos de trabalho, propõem respostas e influenciam decisões corporativas, a circulação das informações passa a ser mediada por sistemas. Nesse cenário de transformação digital, a função da comunicação interna transcende a mera eficiência ou o estímulo à inovação; ela se torna vital para assegurar que, mesmo quando a máquina fala, os colaboradores se sintam verdadeiramente ouvidos e compreendam os processos.

À medida que os sistemas algorítmicos passam a representar a voz da organização, emerge a imperativa necessidade de explicitar critérios, dar visibilidade aos processos e estabelecer canais para dúvidas que nem sempre surgem em relatórios formais. Em um ambiente onde a tecnologia pode parecer abstrata, a comunicação interna assume o papel de dar sentido a essas novas engrenagens, garantindo que cada interação mediada pela IA seja clara e compreensível do início ao fim. Observa-se que toda revolução tecnológica acarreta uma reconfiguração da linguagem, e a inteligência artificial, embora focada em processos, está inerentemente reorganizando a maneira como o trabalho é percebido, executado e divulgado, ecoando as mudanças trazidas pela internet.

É nesse contexto dinâmico que a função da comunicação interna se solidifica como uma mediadora cultural indispensável. A capacidade de traduzir diretrizes técnicas complexas em diálogos conectados ao dia a dia dos colaboradores é o que confere significado à tecnologia para as pessoas. Como bem pontua Weider Campos, diretor de RH do Azzas 2154, um dos maiores grupos de moda da América Latina, a nossa linguagem precisa evoluir em paralelo com as transformações para que a inovação se estabeleça como uma aliada no cotidiano. O foco deve recair sobre o impacto tangível das ferramentas.

Comunicação Interna e IA: Transparência e Confiança Essenciais

Desvendando o Impacto da IA e Reduzindo a Ansiedade

Weider Campos destaca a importância de focar no impacto prático das ferramentas de inteligência artificial: o que realmente muda na loja, no atendimento ao cliente, na criação de produtos ou nas rotinas administrativas. Quando a comunicação interna demonstra, por exemplo, como um agente de IA pode otimizar respostas no WhatsApp ou conferir maior fluidez a um serviço, a tecnologia transcende o discurso teórico e se materializa na prática. Essa abordagem tem o poder de mitigar a ansiedade que o novo frequentemente provoca, pois os colaboradores passam a discernir as razões por trás de cada alteração e, crucialmente, como ela se alinha ao seu próprio trabalho. Nomear receios e esclarecer incertezas é uma etapa essencial que a comunicação interna pode conduzir com maestria, transformando a inovação de um motivo de temor em uma oportunidade de empoderamento, permitindo que as equipes troquem a apreensão pela autonomia e visualizem na tecnologia um meio para potencializar suas capacidades.

A Chave da Compreensão: Estruturando o Conhecimento sobre IA

A compreensão emerge como o pilar central de qualquer processo, incluindo a comunicação interna sobre inteligência artificial. Em vez de simplesmente disseminar conceitos técnicos, o caminho mais eficaz reside em organizar as informações de modo que cada indivíduo possa assimilar o tema no seu próprio ritmo. Caso contrário, a IA corre o risco de permanecer um assunto exclusivo para especialistas, distante da realidade cotidiana dos colaboradores. Na B3, essa lógica se manifesta na estruturação dos conteúdos sobre IA em sua intranet, com materiais didaticamente organizados do nível básico ao avançado. A meta é permitir que cada profissional encontre dados compatíveis com sua familiaridade, eliminando constrangimentos ou sobrecarga informacional. Renata Caffaro, diretora de Pessoas e Comunicação Interna da B3, enfatiza que a busca é por mensagens simples, diretas e alinhadas à rotina das equipes, o que facilita o acesso ao conhecimento e fomenta discussões mais aprofundadas e direcionadas. Ao apoiar esse aprendizado progressivo, a comunicação interna não apenas informa, mas também gera segurança para que a tecnologia seja empregada de maneira responsável e consciente.

Empatia e Inclusão na Mensagem Tecnológica

O desenvolvimento de uma comunicação eficaz sobre IA exige um profundo senso de empatia. É um desafio considerável introduzir a inteligência artificial em ambientes corporativos marcados pela diversidade, onde coexistem indivíduos de diferentes faixas etárias, origens e formações técnicas ou não técnicas. Nesse cenário complexo, a tarefa de traduzir tecnicidades para uma linguagem acessível vai além do didatismo, tornando-se uma questão ética fundamental. Falar sobre inteligência artificial exige não apenas clareza, mas um compromisso genuíno com a inclusão, garantindo que nenhum colaborador seja deixado para trás. Este é o verdadeiro cerne da missão da comunicação interna: conectar pessoas.

Essa atenção deve permear todo o diálogo com os colaboradores, desde a apresentação inicial do tema até as estruturas estabelecidas para sustentá-lo no dia a dia. Na Logicalis, empresa global de soluções e serviços de TI, isso se traduz no entendimento de que, para democratizar o uso da tecnologia, o conteúdo técnico deve ser adaptado para uma linguagem compreensível por todos. Ana Konichi, gerente de Comunicação Interna da Logicalis para a América Latina, reforça que o objetivo é sempre traduzir o conteúdo de forma compreensível para um público colaborativo muito diverso.

A Logicalis, por exemplo, instituiu um comitê multidisciplinar focado em inteligência artificial, englobando áreas como Comunicação Interna, RH, Jurídico e Segurança da Informação. Essa iniciativa visa a estabelecer diretrizes claras para o uso responsável da tecnologia. No âmbito da comunicação interna, esse esforço resultou na criação de uma cartilha de uso seguro da IA, desenvolvida para dialogar com públicos variados em toda a América Latina. A inclusão de recursos de acessibilidade, como Libras, autodescrição e materiais visuais adaptados, sublinha a ideia de que comunicar tecnologia é também assegurar o sentimento de pertencimento. A política foi traduzida para uma linguagem mais coloquial e acessível, exemplificando como todos os colaboradores podem utilizar a IA de forma responsável e consciente para otimizar o trabalho e as entregas aos clientes.

Navegando entre Ganhos e Inquietações da IA

Os avanços da inteligência artificial trouxeram ganhos inegáveis à comunicação interna, desde o aumento da escala e velocidade das mensagens até a personalização. Contudo, inquietações latentes não podem ser desconsideradas, como a linha tênue entre ser auxiliado e a sensação de vigilância excessiva. Em ambientes onde o volume de dados circulantes é cada vez maior, a percepção de monitoramento pode surgir, mesmo quando a intenção primordial é a eficiência. O desconhecimento é, muitas vezes, um obstáculo inicial, mas o incômodo mais profundo reside na falta de clareza sobre como os dados são utilizados, quem define os critérios e onde estão os limites.

Para Weider Campos, CHRO do Azzas 2154, esse paradoxo entre a curiosidade e a insegurança deve ser encarado como um elemento natural do processo de adaptação. No grupo, a introdução da inteligência artificial foi apresentada não como uma ruptura abrupta, mas como uma jornada de aprendizado contínuo. Ao normalizar a curva de adaptação, incluindo o direito de não ter todas as respostas de imediato, a comunicação superou a desconfiança inicial, cultivando um ambiente mais propenso à experimentação. Ele aponta que narrativas que humanizam a tecnologia, com exemplos e histórias reais, contribuem para desmistificar a IA, retirando-a de um pedestal inatingível. “Nossa comunicação interna atua, justamente para acolher esse momento”, observa.

Construindo Confiança com Transparência e Limites Claros

A confiança, porém, não se edifica apenas no discurso; ela floresce a partir da clareza, impulsionando o engajamento dos colaboradores. No contexto da inteligência artificial, quando a comunicação interna explicita o que a tecnologia pode e, crucialmente, o que ela não pode fazer, o risco percebido diminui significativamente. “A automação nos dá escala, mas a curadoria e a estratégia são sempre humanas. Não delegamos nossa cultura a algoritmos”, complementa o porta-voz do Azzas 2154.

Um exemplo elucidativo é a implementação de agentes de IA como a Jaque, a personal shopper digital da Off Premium, uma das marcas do grupo. A ferramenta agiliza o esclarecimento de dúvidas, organiza informações e apoia o atendimento, mas a finalização da venda permanece sob a responsabilidade da equipe humana. Esse limite explicitado, conforme observa Weider Campos, é fundamental para reforçar o papel de suporte da inteligência artificial e atenuar a percepção de substituição. Desta forma, a curiosidade se converte em adesão produtiva, com as equipes enxergando na tecnologia uma valiosa oportunidade para potencializar suas capacidades.

Governança e Cultura: Pilares da Autonomia Responsável

Dada a natureza frequentemente abstrata da tecnologia, ela pode gerar ruídos que somente uma governança bem estruturada consegue mitigar. No grupo Azzas 2154, isso não é encarado como um mero detalhe operacional, mas como uma extensão direta da cultura organizacional, quase um princípio estruturante. Nesse ponto, a comunicação interna vai além de comunicar regras, passando a sustentar significados: ela esclarece critérios, visibiliza as escolhas éticas e pontua a responsabilidade das lideranças em cada etapa da implementação tecnológica. A clareza nas informações, explicam, é o que possibilita a autonomia com responsabilidade. Quando os colaboradores confiam nos processos e na origem dos dados, a tomada de decisão ganha celeridade, precisão e alinhamento com o propósito do grupo.

Manuais técnicos, por si só, são insuficientes para lidar com esse desafio. A confiança é edificada como um pacto coletivo sobre como a tecnologia deve servir aos objetivos organizacionais e à trajetória de cada colaborador. Isso implica abrir espaço para debater o que funcionou, o que falhou e o que precisa ser ajustado, removendo a IA do conceito de “caixa-preta”. Quando a comunicação interna adota essa postura aberta, líderes e equipes convergem em torno de um horizonte comum, e a inovação se torna uma construção compartilhada.

A Transparência como Experiência e o Equilíbrio na B3

A transparência transcende o plano conceitual e se materializa em uma experiência compartilhada. Em vez de apresentar a inteligência artificial como uma solução pronta e acabada, algumas empresas optam por construir esse caminho em colaboração com seus colaboradores, oferecendo ambientes de teste, diálogo e escuta. Nessas condições, o receio diminui, cedendo lugar ao protagonismo. O desafio não é apenas aprender a usar uma ferramenta, mas compreender seus limites: onde ela é útil, onde não deve avançar e quais decisões devem permanecer essencialmente humanas.

Na B3, esse cuidado se reflete na forma como a comunicação interna organiza a interação das equipes com a IA, promovendo dinâmicas que incentivam a experimentação e a troca entre diferentes áreas, desde oficinas e espaços de escuta até hackathons. Para Renata Caffaro, esse equilíbrio é fundamental para que a tecnologia não gere ruídos ou a sensação de perda de controle. “O equilíbrio está em respeitar limites éticos e legais, sempre priorizando a transparência e a responsabilidade. Na B3, a automação é usada para potencializar resultados”, afirma. Para mais detalhes sobre o futuro da inteligência artificial no ambiente de trabalho, consulte tendências e o futuro da inteligência artificial no trabalho, segundo análises da McKinsey.

Essa lógica se estende também à forma como a própria tecnologia é comunicada. Sempre que a inteligência artificial colabora na criação ou suporte de conteúdos, essa participação é explicitada pela comunicação interna. Ao deixar claro o envolvimento da IA, preserva-se o valor das interações e evitam-se ambiguidades. Essa distinção fortalece a confiança e permite que todos compreendam o papel da tecnologia no processo, sem desvalorizar as interações humanas. Um exemplo foi a reformulação do boletim diário de redes sociais da empresa, que passou a contar com o apoio da IA. Desde o início, a iniciativa foi compartilhada com as equipes, e nos conteúdos externos, a origem tecnológica foi sinalizada de forma inequívoca.

Curadoria de Sentido: Conectando Tecnologia a Valores Humanos

Mais do que uma curadoria de conteúdo, o termo mais preciso seria “curadoria de sentido”. Em um cenário cada vez mais guiado por dados e algoritmos, comunicar envolve menos informar e mais auxiliar as pessoas a compreenderem o “porquê” das decisões. Renata Caffaro aponta isso como central para a comunicação interna diante do avanço da inteligência artificial. Conectar a lógica técnica aos valores humanos que sustentam a cultura, como responsabilidade e colaboração, é parte intrínseca dessa missão. “Nosso papel é traduzir complexidade em clareza. Tornar visível que, por trás da tecnologia, existem pessoas fazendo o certo todos os dias. Assim garantimos que os valores da B3 sejam vividos na prática”, conclui.

Em consonância com essa visão, toda inovação deve ser regida por princípios éticos explícitos. Ana Konichi, da Logicalis, destaca que políticas de uso seguro da inteligência artificial, segurança da informação e proteção de dados são indispensáveis para prevenir um avanço desordenado da automação. Embora a adoção de IA generativa amplie a produtividade, a curadoria humana é inegociável para qualquer empresa. Todas essas ferramentas, somadas à criatividade e sensibilidade da equipe de comunicação interna, asseguram que a personalização respeite a privacidade dos colaboradores. A autenticidade da comunicação interna reside não na sofisticação da ferramenta, mas na preservação das relações. Personalizar só faz sentido com respeito à privacidade, e automatizar processos funciona apenas quando não silencia a escuta. A autenticidade está nas pessoas e nas relações construídas, reflexo de uma cultura de pertencimento que nenhuma máquina pode oferecer. Ao diferenciar o que é humano, automatizado e híbrido, a comunicação interna minimiza ruídos, combate boatos e cria um ambiente mais seguro para as transformações.

A comunicação interna atua como um elo, traduzindo a lógica dos algoritmos sem jamais perder o foco no elemento humano.

Diálogo Aberto e Lideranças Alinhadas na Adaptação à IA

É natural que o universo da inteligência artificial suscite questionamentos. Na Logicalis, essas dúvidas são trazidas para o centro do debate por meio de webinars internos, com a participação de lideranças, sessões de perguntas e respostas com especialistas e a apresentação de casos reais de uso da IA. É precisamente quando as perguntas ganham espaço que a inteligência artificial deixa de ser um tema distante e passa a ser percebida como algo concreto, possível e passível de aprendizado.

Esse movimento, de forma estratégica, inicia-se pelas lideranças. Antes da ampla circulação de materiais, a empresa prioriza o alinhamento das posições estratégicas, discutindo limites, responsabilidades e, sobretudo, o papel de cada gestor na mediação desse processo com as equipes. O objetivo não é gerar um entusiasmo artificial, mas oferecer segurança. Ana Konichi explica que ter as lideranças alinhadas com as mensagens transmitidas pela comunicação interna tem sido uma excelente ferramenta para a adoção consciente e responsável da IA. A partir desse ponto, o diálogo se expande. Sessões com todos os colaboradores são valiosas para incorporar dúvidas reais trazidas pelas equipes, aprimorando a discussão em torno do tema. Adicionalmente, casos concretos desempenham um papel decisivo nessa transição, como a solução desenvolvida pela equipe jurídica com o apoio da IA, comunicada de forma simples e inclusiva. A divulgação desse caso em linguagem clara e acessível tem inspirado diversas outras áreas a buscarem soluções de IA para seus times, criando a imagem da IA como uma aliada acessível, não restrita a especialistas.

A Comunicação Interna como Orquestradora de Diálogos

À medida que a inteligência artificial remodela a maneira como as pessoas aprendem, colaboram e interagem com a informação, a comunicação interna transcende sua posição operacional. Seu novo papel é filtrar excessos, contextualizar mudanças e traduzir impactos. Para Weider Campos, essa função adquire densidade estratégica quando a comunicação consegue orquestrar diálogos entre realidades diversas.

Não basta simplesmente anunciar o lançamento de uma nova ferramenta. É imperativo responder às questões que surgem em paralelo: o que essa tecnologia simplifica? Quais burocracias ela elimina? Onde a inteligência artificial libera tempo para as pessoas? A comunicação interna deve garantir um ambiente seguro para o debate e para a escuta ativa, enfatiza Weider, destacando que esse cuidado é o que transforma a adoção da IA em um processo contínuo de amadurecimento digital.

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Em última análise, quando a inteligência artificial se faz presente na comunicação, a capacidade de escuta e o discernimento humano são os pilares que sustentam a confiança. São os colaboradores que atribuem sentido às decisões, que testam os limites da tecnologia e que escolhem confiar, ou não, nos processos. Na era dos algoritmos, o papel mais estratégico que a comunicação interna pode assumir é o da mediação. O protagonismo, fundamentalmente, continua sendo humano, guiando as empresas por este novo cenário. Para mais insights sobre o impacto da tecnologia no ambiente corporativo, explore nossa editoria de Economia.

Crédito da imagem: Portal Melhor RH