O futuro político Venezuela se encontra sob um manto de incertezas após a detenção de Nicolás Maduro em Nova York, evento que desencadeou uma reconfiguração do poder chavista. Na capital, Caracas, e em todo o território venezuelano, pairam questionamentos cruciais sobre a coesão do partido governista, os termos constitucionais que regem a presidência interina de Delcy Rodríguez e as aspirações da oposição por uma via eleitoral. A nação sul-americana enfrenta um período de profunda reflexão sobre seus próximos passos.
A cientista política Carmen Beatriz Fernández, diretora da DataStrategia, ressalta que “estamos vivendo uma transição; ela já começou”. Embora otimista quanto à possibilidade de o processo culminar em democracia, Fernández mantém apreensão diante dos recentes anúncios. A percepção geral é de uma mudança de status, com o receio de que seja apenas uma alteração superficial na imagem, substituindo o presidente sem de fato modificar o regime. Contudo, há sinais de que esta transição pode contar com o apoio dos Estados Unidos, o que sugere a realização de eleições em um horizonte próximo.
Futuro Político Venezuela: Delcy Rodríguez e Cenários Pós-Maduro
Período de Transição e Presidência Interina
A questão central que domina o debate é a duração do mandato de Delcy Rodríguez como presidente interina. Em 3 de fevereiro, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) da Venezuela determinou que Rodríguez assumisse a presidência em decorrência da “ausência forçada” de Maduro. O decano da Faculdade de Direito da Universidade Central da Venezuela, Juan Carlos Apitz, elogiou a ação do STJ por reconhecer a situação, mas expressou surpresa pela omissão do tribunal quanto à duração do cargo.
A Constituição venezuelana prevê que a Assembleia Nacional, atualmente controlada pelo partido no poder, tem a prerrogativa de declarar uma “ausência absoluta” do presidente. Caso essa ausência ocorra nos primeiros quatro anos do mandato, a carta magna estabelece a convocação de novas eleições em um prazo de trinta dias consecutivos. Mais do que uma simples discussão jurídica, essa situação configura uma manobra política para avaliar se o chavismo no Congresso permitirá, eventualmente, a declaração de vacância absoluta. Apitz argumenta que a situação não pode ser mantida indefinidamente, descrevendo-a como um processo contínuo com muitos desdobramentos futuros. Ele acredita que o chavismo, após um período de negação, terá que aceitar que o presidente não retornará ao solo nacional nos próximos anos. No entanto, o especialista também pondera que as condições políticas atuais não favorecem a realização de eleições em trinta dias.
Enquanto isso, a presidente interina Delcy Rodríguez tem consolidado seu poder, realizando novas nomeações nas áreas de segurança e economia. O analista Eduardo Valero Castro, ex-diretor da Escola de Estudos Políticos da UCV, observa uma dinâmica de “afastamento de pessoas próximas a Maduro” em curso.
Caminho para Eleições e Recomposição Política
A possibilidade de um processo de transição rumo a eleições é outro ponto de intensa especulação. Valero Castro traça um paralelo com a transição ocorrida na Venezuela no século XX, após a saída do poder do militar Juan Vicente Gómez (que governou de 1908 a 1935). Seu sucessor, Eleazar López Contreras, utilizou elementos do regime anterior para promover uma abertura política gradual. O analista sugere que a transição atual pode vir de dentro do próprio governo, e não uma abertura direta para a democracia nos próximos seis meses, mas sim um processo gradual.
Nesse cenário, Carmen Fernández enfatiza a responsabilidade da sociedade venezuelana em mobilizar sua força e inteligência para exigir uma transição democrática o mais breve possível. Para ela, esse processo deve incluir a libertação de presos políticos, o retorno de líderes exilados e a garantia de que a supervisão dos Estados Unidos não se limite apenas a questões econômicas e petrolíferas.
Na quarta-feira, 7 de fevereiro, Delcy Rodríguez afirmou que a Venezuela vivencia um novo momento político e fez um apelo à oposição para que, “juntos e unidos”, possam avançar na recuperação das consequências do extremismo e do fascismo. Posteriormente, o governo anunciou a libertação de um número significativo de detidos. As primeiras libertações, após a prisão de Maduro, tiveram início em 8 de fevereiro, embora informações detalhadas sobre o número de presos e a duração do processo ainda sejam escassas. Analistas consultados pela CNN acreditam que Washington busca a estabilização da Venezuela sob a presidência interina antes de qualquer nova eleição.
Valero Castro também não vislumbra um horizonte eleitoral a curto prazo, apontando para o desmantelamento dos partidos políticos, a emigração de muitos cidadãos e líderes, e a prisão de outros. Ele sugere que a perda de motivação na população e na oposição requer um “processo de cura interior” para que uma oposição eficaz possa se formar. Contudo, Valero Castro destaca que o governo interino sinalizou uma inclinação para uma economia de mercado, indicando um retorno à normalidade.
Dinâmica Interna do Chavismo e Ações dos EUA
A atenção também se volta para o destino de figuras proeminentes do chavismo, como Diosdado Cabello e outros que estão sob a mira dos Estados Unidos. Além da recompensa pela captura de Maduro, os EUA oferecem milhões de dólares por informações que levem à prisão de Cabello, Ministro do Interior, Justiça e Paz, e Vladimir Padrino, Ministro da Defesa, sob acusações de narcotráfico e corrupção – alegações que o chavismo refuta veementemente.
Desde a morte de Hugo Chávez em 2013, o poder na Venezuela tem sido fragmentado em diversas facções, principalmente entre esferas civis e militares. Carmen Fernández descreve essa estrutura como um “arquipélago de poderes”, onde dos seis núcleos originais, restam apenas três: os irmãos Delcy e Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional), Padrino e Diosdado Cabello. Segundo Fernández, esses “ilhéus” operam sem uma hierarquia clara, com cada um se sentindo tão relevante quanto os outros.
Apesar das tensões latentes entre esses líderes há anos, a coesão do chavismo em meio à crise desencadeada pelo ataque militar dos EUA tem sido observada. Até o momento, não há indícios de desentendimento, conforme aponta Fernández. A aparição solitária de Padrino logo após o ataque gerou rumores, mas ele subsequentemente surgiu ao lado do alto comando militar, reafirmando seu apoio a Delcy Rodríguez. Diosdado Cabello, em seu programa de televisão “Con el mazo dando”, também reiterou seu apoio à presidente interina, declarando que o partido está “apoiando absoluta e totalmente nossa camarada Delcy Rodríguez, a presidente interina do país, diante do sequestro de nosso irmão, o presidente constitucional, Nicolás Maduro”.

Imagem: Getty via cnnbrasil.com.br
Valero Castro levanta dúvidas sobre a facilidade da operação dos EUA, que não registrou baixas em contraste com as dezenas de mortes reconhecidas pela Venezuela. Ele especula sobre uma possível conexão entre militares venezuelanos e americanos, ou se a ação foi tão precisamente calculada a ponto de levar a um cenário de “rendição”. A pressão norte-americana, com destacamento militar no Caribe e bloqueio naval, era, em sua análise, insustentável.
Carmen Fernández destaca a lista de venezuelanos acusados pelo Departamento de Justiça dos EUA, que inclui Maduro, sua esposa Cilia Flores, seu filho Nicolás Maduro Guerra, Cabello, o ex-ministro Ramón Rodríguez Chacín e Héctor Rusthenford Guerrero, conhecido como El Niño Guerrero, suposto líder da gangue Tren de Aragua. Curiosamente, a lista omite os irmãos Rodríguez e Padrino, o que Fernández interpreta como um convite do Departamento de Estado para que esses líderes participem do processo de transição.
O Papel dos Coletivos e a Segurança Interna
O aparelho de segurança e controle social do chavismo também se manifesta através de canais não oficiais, como os grupos paramilitares conhecidos como coletivos. Estes grupos, que emergiram após a tentativa de golpe de 2002, atuam como uma força informal de controle civil e respondem ao Ministério do Interior.
Juan Carlos Apitz sugere que a estratégia de Diosdado Cabello visa o fortalecimento para negociação e autopreservação, aumentando a capacidade ofensiva de suas “tropas”, que incluem militares, polícia, coletivos e outros grupos armados.
Fernández aponta para evidências de que os coletivos têm se armado, mas observa uma mudança em sua motivação nos últimos anos. Anteriormente impulsionados por uma defesa ética e moral da revolução, hoje, essa ética está desvinculada, e o chavismo se encontra mais fragilizado. A parcela da população que ainda apoia o chavismo, estimada entre 15% e 20%, absorve um “duro golpe”, permeado pela suspeita de traição.
Para Valero Castro, o processo de libertação de presos políticos da oposição acarreta o risco de provocar a fúria de grupos aliados. Ele expressa receio quanto à reação de gangues, coletivos e outros grupos armados que controlam muitas áreas da cidade, especialmente na zona oeste. Caso a narrativa de Delcy Rodríguez se mostre inconsistente, a situação pode “sair do controle”. Valero prevê que, em algum momento, uma “ruptura acontecerá”, embora não possa precisar quando, e questiona a capacidade das Forças Armadas venezuelanas de responderem a um cenário de instabilidade civil.
A dissonância entre as declarações de Washington sobre seu controle da Venezuela e a soberania que Caracas insiste em defender evidencia a complexidade do cenário político internacional. Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, dirige-se aos americanos, enquanto Delcy Rodríguez fala ao seu próprio povo, conforme observa Apitz. Para entender mais sobre a evolução desse e de outros complexos cenários políticos, consulte fontes como a BBC News. A gestão do Palácio de Miraflores, a necessidade de conciliar interesses internos e a pressão de Washington colocam Rodríguez em uma posição delicada. Fernández alerta que o “pior cenário seria ficar claro que ela está sob a tutela de Trump”, ressaltando que a presidente interina se encontra em uma posição mais frágil que Maduro e deve evitar antagonizar excessivamente a base do governo – um “jogo perigoso”.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
A situação política na Venezuela permanece em fluxo, com a presidência interina de Delcy Rodríguez navegando entre desafios constitucionais, pressões externas e a complexa dinâmica interna do chavismo e seus grupos de apoio. As perspectivas para eleições e a estabilização do país dependem de uma série de fatores interligados, moldando um futuro ainda incerto para a nação. Continue acompanhando nossas análises aprofundadas sobre política internacional em nossa editoria de Política para se manter atualizado sobre os próximos capítulos dessa transição. Para mais conteúdo relevante, acesse nosso site em horadecomecar.com.br/politica/.
Crédito da Imagem: CNN Brasil







