O filme “A Única Saída”, dirigido pelo aclamado cineasta sul-coreano Park Chan-wook, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22), trazendo à tona um debate urgente sobre o desemprego e a desumanização no contexto capitalista. A produção, que já recebeu indicações a prêmios como o Globo de Ouro, mergulha na psique de um homem levado a extremos brutais pela busca desesperada por uma vaga no mercado de trabalho.
A narrativa ressoa com a obra “O Corte”, de Donald Westlake, que inspirou o filme de mesmo nome de Costa-Gavras em 2005. Naquela época, o diretor grego expressava alarme com as taxas globais de desemprego, percebendo o capitalismo como um sistema desumano. Duas décadas depois, a pertinência do tema é inegável, com Chan-wook revisitando essa fonte para explorar as profundas implicações da insegurança profissional.
Filme A Única Saída: Desespero, Violência e Crítica Social na Obra de Park Chan-wook
O enredo de “A Única Saída” foca em Man-su, interpretado por Lee Byung-hun (estrela de “Round 6” e indicado ao Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical). Após dedicar 25 anos de sua vida a uma empresa, garantindo estabilidade econômica e conforto para sua família, Man-su é demitido quando a companhia é adquirida por um grupo internacional. A perda do emprego o mergulha em um período de angústia e privações, levando-o a uma conclusão chocante: a única forma de retornar ao mercado de trabalho em uma posição digna é eliminando fisicamente seus concorrentes.
De um homem melancólico e desempregado, Man-su se transforma em um assassino em série. Park Chan-wook, conhecido por filmes como “Oldboy” (2003) e “A Criada” (2016), utiliza seu estilo característico – marcado por exageros formais, toques de absurdo e um humor ácido – para expor as tensões de um cenário global delicado. Embora o filme não endosse as ações do protagonista, ele convida o público a refletir sobre a origem de comportamentos extremos em um mundo cada vez mais competitivo e inseguro.
Em entrevista durante o Festival de Veneza, onde o filme estreou em setembro do ano passado, Chan-wook destacou a evolução sombria de Man-su. “De certa forma, Man-su se tornou um monstro. Com três assassinatos, ele evolui como homicida, o que é muito sinistro. E o pior é que, ao longo do processo, ele recupera a confiança em si”, comentou o diretor. Ele observa que o aumento da “masculinidade” de Man-su, tanto como marido quanto como pai, à medida que se torna mais hábil nos assassinatos, é um “sinal muito preocupante”.
O cineasta ressaltou que a impulsividade de Man-su o levou ao desespero. “Se o protagonista fosse mais esperto, agiria de forma diferente. Talvez formasse um sindicato, quem sabe processasse a empresa, ou participasse de um grupo revolucionário. Pelo menos fizesse algo fundamental e justo, apontando a arma para o sistema. Infelizmente, ele não é tão esperto nem corajoso. Ele tem alguma coragem, sim, mas a usa para as coisas erradas”, analisa Chan-wook, provocando uma reflexão sobre as escolhas em momentos de crise.
O projeto de adaptar o romance de Westlake surgiu para Chan-wook em 2006, logo após a versão de Costa-Gavras, e desde então o diretor vinha buscando as condições ideais para concretizá-lo. Ele confessa que, em diversos momentos de sua carreira, ao enfrentar períodos de incerteza financeira entre projetos, chegou a se identificar com a aflição do protagonista, ainda que sem ir tão longe em suas atitudes. “Existem alguns para os quais me preparei e me planejei, mas que, por diferentes circunstâncias, tive que adiar, e aí eles meio que perderam o fôlego e acabaram sendo escanteados. No entanto, A Única Saída é uma história e um filme que sobreviveram”, afirmou.
Apesar da longa jornada para sua realização, a demora acabou sendo benéfica, pois a realidade dos anos 2020 conferiu uma camada extra de complexidade à situação do trabalho mundial. A ascensão da inteligência artificial (IA) como substituta da mão de obra humana adiciona uma nova dimensão ao dilema de Man-su, questionando a eficácia e a longevidade de suas ações. “Estamos em uma era em que as pessoas estão sendo expulsas pela inteligência artificial. Então, existe um vácuo no final deste filme. Esses crimes todos, essa imoralidade, serviram para que? Ele conseguiu esse emprego temporariamente, mas por quanto tempo mais vai durar? Essa é a questão”, pondera o diretor.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Chan-wook expressa sua apreensão com a adaptação à IA, criticando a ideia de que apenas os “muito especiais” sobreviverão. “Hoje, alguns na indústria criativa dizem que terão sucesso mesmo com a incorporação dessas tecnologias, que não se preocupam. Mas é uma ideia perigosa, porque você está dividindo as pessoas pela meritocracia. Apenas os muito especiais serão capazes de sobreviver. E quem não é especial não deveria se lamentar, porque simplesmente não têm talento suficiente”, declarou o cineasta em outra entrevista por videoconferência. Para entender o contexto macroeconômico que impulsiona essas discussões, é importante analisar os dados sobre o desemprego no Brasil, que refletem a complexidade do cenário global.
Ainda que o enredo de “A Única Saída” pudesse se desenvolver em qualquer parte do mundo, Chan-wook enfatiza que o filme possui especificidades que o tornam intrinsecamente sul-coreano. A obsessão pela casa própria, por exemplo, é um elemento cultural profundo. “Os coreanos são muito obcecados por ter uma casa própria. Enquanto moram de aluguel, vivem em um estado de instabilidade. Só se sentem seguros quando possuem um lar verdadeiramente seu. Portanto, a casa é um personagem importante neste filme. A palavra coreana ‘jip’ pode significar tanto lar quanto família”, explica. Essa conexão com o lar é um tema recorrente no cinema sul-coreano, presente em obras como “Parasita”, de Bong Joon-ho, de 2019.
No entanto, o diretor afasta qualquer comparação direta com o sucesso de “Parasita”, lembrando que “A Única Saída” já existia como projeto desde 2006. Ele vê o êxito de “Parasita” como o ápice de décadas de história e tradição do cinema sul-coreano, um feito coletivo que orgulhou a todos. Infelizmente, a pandemia subsequente impactou severamente o público nos cinemas. “A tradição que o cinema coreano construiu ao longo de todos esses anos era algo de que todos nós nos orgulhávamos muito, e sentíamos que era um sucesso que havíamos conquistado juntos. Mesmo hoje, ainda é lamentável. E, sinceramente, todos nós estamos bastante perplexos neste momento”, lamentou Chan-wook, esperançoso de que a qualidade do cinema de seu país possa reverter a situação.
“A Única Saída”, uma produção da Coreia do Sul de 2025, tem classificação de 16 anos e conta com Lee Byung-hun, Son Ye-jin e Woo Seung Kim no elenco. A direção é de Park Chan-wook, e o filme tem estreia marcada para esta quinta-feira (22) nos cinemas.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
O filme “A Única Saída” de Park Chan-wook se estabelece como uma obra poderosa e atual, que utiliza o drama humano para tecer uma crítica incisiva sobre os impactos sociais e psicológicos do desemprego e da competição exacerbada. Sua chegada aos cinemas brasileiros promete discussões relevantes e aprofundadas sobre os desafios da sociedade contemporânea. Continue acompanhando nossa editoria de Análises para mais conteúdos e informações sobre cinema e cultura.
Crédito da imagem: Divulgação







