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Bar do Julinho: O Fenômeno da Noite Paulistana Se Expande

Economia

A fila que se forma nas madrugadas de terça a domingo em frente a um portão de ferro preto no número 585 da rua Mourato Coelho, estendendo-se em direção à Teodoro Sampaio, é há quatro anos um dos grandes mistérios da noite paulistana. Para muitos, a razão pela qual o Bar do Julinho, um estabelecimento de MPB ao vivo, se transformou em um fenômeno na efervescente Vila Madalena (que ali já se confunde com Pinheiros) permanece insondável. Clientes e observadores arriscam teorias sobre o que impulsiona o sucesso diário deste bar simples, conhecido tanto como Bar do Julinho quanto Julinho Clube.

O impacto do “código Julinho” é tão expressivo que inspirou o surgimento de pelo menos duas outras casas de música ao vivo na mesma calçada. O “Bar da Fila” nasceu da simples venda de cervejas para aqueles que aguardavam a entrada no Julinho. Já o “Bartopia”, menor e focado em voz e violão, diferentemente dos grupos musicais completos que se apresentam no vizinho, chegou a oferecer 30% de seus rendimentos apenas para associar seu nome ao empresário Julio Cesar de Oliveira, o próprio Julinho, uma proposta que ele recusou.

Bar do Julinho: O Fenômeno da Noite Paulistana Se Expande

Agora, o conceito do bar de MPB está prestes a evoluir. A casa se prepara para inaugurar a “Galeria Musical Julinho Clube”, mudando-se para um imponente prédio de três andares no número 1.946 da rua Teodoro Sampaio, a poucos passos do endereço atual. Julinho, com 66 anos de idade e três décadas de experiência na cena noturna, revela que o novo espaço foi cuidadosamente planejado para otimizar a experiência dos frequentadores. O térreo oferecerá voz e violão a partir das 18h, funcionando como uma acolhedora recepção para quem aguarda para subir. No segundo andar, haverá um bar com mesas e um telão, enquanto o terceiro andar será dedicado à “área onde a magia acontece”, conforme descrito pelo proprietário. A capacidade, que antes era de 140 pessoas, será ampliada para 400, prometendo acomodar ainda mais admiradores do estilo.

Observando Julio Cesar de Oliveira em meio à decoração de teto estonteante, cujo segredo é zelosamente guardado, percebe-se um homem pujante em um setor notoriamente vulnerável a crises – sejam elas econômicas, sanitárias (pandemia), de segurança (assaltos) ou climáticas (chuvas e ondas de frio). No entanto, o que muitos não sabem é que o caminho de Julinho foi pavimentado por quedas e recomeços. Sentado em uma cadeira escolar verde-água, ele narra sua trajetória, que mais parece o roteiro de um drama intenso, e são justamente essas “quedas” que podem desvendar os segredos de seu sucesso singular.

A Profunda História de Julinho: Ressurgindo Após Duas Falências

Julinho faliu não uma, mas duas vezes ao longo de sua carreira. A primeira grande adversidade ocorreu em 2007, quando seu bar, então localizado na rua dos Pinheiros, foi forçado a fechar as portas no dia em que o trecho da rua foi interditado para o início das obras da estação Fradique Coutinho do metrô. Após um ano e meio de inatividade e sem qualquer perspectiva, ele se viu obrigado a baixar as portas, deixando tudo dentro do estabelecimento. “Eu não tinha dinheiro nem para pagar um café”, relembra. Aos 38 anos, com a mulher em depressão devido às dificuldades, Julinho pegou seu violão e saiu em busca de qualquer canto de palco que lhe fosse oferecido, chegando a se apresentar quatro noites por semana.

Quando soube que as obras do metrô haviam sido concluídas e a rua seria reaberta, ele procurou o proprietário e conseguiu retornar ao antigo endereço. Parcelou a dívida dos aluguéis atrasados e se comprometeu a pagar os novos. Naquele período, o bar não era apenas seu local de trabalho, mas também sua casa. “Eu dormia no palco, onde ficava a bateria”, conta ele. No momento em que começava a se reerguer, e o público voltava a frequentar a casa, Julinho foi surpreendido por um oficial de justiça que o questionou sobre sua moradia e a funcionalidade do bar no local. A triste notícia veio em seguida: “Ah, meu amigo, lamento dizer, mas você está sendo despejado.”

O proprietário do imóvel havia acionado a Justiça alegando o não recebimento das parcelas atrasadas, embora Julinho afirmasse ter pago todas elas, mas sem guardar os comprovantes. O despejo durou um dia inteiro, das 10h às 19h. “Eu apenas sentei e chorei”, recorda. Sem o bar e já separado da mulher – a relação sucumbiu às turbulências financeiras e emocionais –, Julinho voltou a se dedicar exclusivamente ao violão. Ele buscou trabalho no antigo bar Bom Motivo, também em Pinheiros, onde o dono lhe ofereceu uma oportunidade única e transparente: “Tudo o que as pessoas pagarem na entrada é seu”. Diferente da prática comum, onde as casas repassam apenas uma porcentagem aos músicos, essa oferta foi um divisor de águas.

A Filosofia do Sucesso: Música Transparente e Valorização do Artista

Dois anos depois, ao passar pela rua Mourato Coelho, Julinho avistou uma casa abandonada com uma placa de “aluga-se”. O telhado estava em ruínas, o mato invadia os escombros e uma lâmpada de baixa voltagem iluminava precariamente o interior. Ele entrou, parou no meio do salão e conseguiu visualizar o futuro: “o palco seria aqui, o bar ao lado, os banheiros ao fundo”. O imóvel foi alugado mesmo sem dinheiro. Em troca das reformas necessárias, a proprietária cedeu um ano de moradia sem custos. Julinho, então, convocou amigos, que prontamente chegaram com ferramentas e, por 25 dias, derrubaram muros, refizeram o telhado, rejuntaram o piso e ajudaram a conseguir equipamentos.

Bar do Julinho: O Fenômeno da Noite Paulistana Se Expande - Imagem do artigo original

Imagem: valor.globo.com

Um pequeno encontro pré-inauguração reuniu 200 pessoas. Alguns levaram isopores com cerveja e gelo, outros compraram frios para servir em pratos de plástico. Duas caixas de som, um microfone e alguns instrumentos foram suficientes para animar a noite. Os próprios amigos pagavam para comer e beber o que eles mesmos haviam levado. Ao final, todo o dinheiro arrecadado foi entregue a Julinho. É neste gesto e nesta história que reside o verdadeiro segredo de seu sucesso: Julio de Oliveira não se vê apenas como um empresário.

Ele afirma que viver como um músico, dependente de cada ganho, o fez compreender que a transparência no pagamento atrai os melhores talentos. E são esses “bons” músicos que, por sua vez, criam as grandes noites. Aqueles que tocam mais dias em sua casa chegam a receber remunerações que podem alcançar até R$ 18 mil por mês. Julinho, que poderia alterar essa regra de repasse em busca de lucros maiores, escolhe não fazê-lo. É como se a parte financeira, como muitas vezes se canta em seu bar, pudesse erguer e destruir as coisas belas. Sua filosofia é clara e expressa em suas próprias palavras: “Faço pelos outros muitas coisas que eu não vivi.”

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A história de Julio Cesar de Oliveira e do Bar do Julinho transcende a simples gestão de um negócio. É um testemunho de resiliência, paixão pela música e uma filosofia de valorização humana que o transformou em um verdadeiro fenômeno da noite paulistana, agora prestes a alcançar novos patamares. Para mais análises sobre o cenário cultural e econômico de São Paulo, explore as últimas tendências e desafios do setor de bares e restaurantes.

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Crédito da imagem: Foto: Gabriel Reis/Valor

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