O aumento nos pedidos de repatriação em Portugal por parte de cidadãos brasileiros está sinalizando uma mudança significativa no fluxo migratório e expondo desafios enfrentados por essa comunidade. Dados recentes da Organização Internacional para as Migrações (OIM) apontam um crescimento acentuado nesses requerimentos, evidenciando uma realidade de vulnerabilidade, violência e discriminação que muitos brasileiros enfrentam no país europeu.
Entre janeiro e outubro de 2025, a OIM registrou 231 solicitações de retorno ao Brasil, um número substancialmente maior do que as 149 registradas durante todo o ano de 2024. Este incremento, mesmo antes da consolidação dos dados dos dois últimos meses de 2025, reflete uma complexa interação de fatores econômicos, sociais e emocionais que levam os migrantes a reconsiderar sua permanência no exterior.
Repatriação em Portugal: Alta revela vulnerabilidade brasileira
Portugal, que hospeda a maior comunidade brasileira fora do Brasil, com aproximadamente 800 mil indivíduos, é o epicentro dessa situação. Cerca de 400 mil desses brasileiros vivem apenas em Lisboa, fazendo do Consulado-Geral do Brasil na capital portuguesa a maior unidade consular da Europa em termos de volume de atendimentos. Segundo o cônsul-geral Alessandro Candeas, o consulado de Lisboa serve hoje mais de meio milhão de brasileiros, que vivem, trabalham e constroem suas vidas em Portugal, consolidando-se como a maior comunidade brasileira fora do continente americano.
Durante o ano de 2025, o consulado processou 85.677 requerimentos de serviços através do sistema e-consular. Desse total, um número considerável de 15.826 foram solicitações de passaporte e autorizações para retorno ao Brasil, um dado que corrobora diretamente com o aumento geral nos pedidos de repatriação identificados pela OIM. Adicionalmente, 13.642 atendimentos foram dedicados a atos notariais, como registros de nascimento, emissão de procurações e reconhecimento de assinaturas. O setor de Assistência a Brasileiros realizou 2.745 atendimentos específicos, abrangendo desde orientação jurídica e psicológica até milhares de respostas a e-mails e consultas presenciais, sublinhando a demanda crescente por suporte.
Consulado: um termômetro social da comunidade brasileira
Alessandro Candeas, cônsul-geral, descreve o consulado como um autêntico “termômetro social” da comunidade brasileira em terras portuguesas. Ele observou um aumento nítido no número de brasileiros que procuram a instituição manifestando o desejo de regressar ao Brasil. Candeas destaca que a imagem do brasileiro em Portugal, frequentemente apresentada de maneira negativa no debate público, não corresponde à sua real contribuição socioeconômica. Ele enfatiza que “o papel do imigrante brasileiro em Portugal é muito estereotipado e muito injusto”, e que os brasileiros são, na realidade, “imigrantes produtivos”.
O cônsul-geral reitera que os brasileiros desempenham papéis cruciais no mercado de trabalho português, contribuindo com o pagamento de impostos e para a previdência social do país. Ele esclarece que a mão de obra brasileira não compete com empregos ocupados por cidadãos portugueses, mas sim preenche posições que estariam vagas devido à emigração de trabalhadores portugueses para outros países, reforçando a importância da comunidade imigrante para a economia local.
Vulnerabilidade, violência e saúde mental: desafios crescentes
Um aspecto preocupante nos registros consulares é o crescimento dos atendimentos psicológicos, que frequentemente se correlacionam com situações de vulnerabilidade social e violência. Relatos de sofrimento emocional, conflitos familiares e casos de violência de gênero têm se tornado cada vez mais frequentes entre os brasileiros que buscam auxílio institucional. Para Candeas, essa tendência não reflete apenas dificuldades individuais, mas também o impacto de fatores como isolamento social, pressões econômicas e as recorrentes experiências de discriminação enfrentadas por parte da comunidade brasileira em Portugal.
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) acompanha de perto o fluxo de migração global, oferecendo dados e análises que contextualizam a situação dos brasileiros em Portugal. Para mais informações sobre padrões migratórios e os desafios enfrentados por comunidades migrantes, é possível consultar o site oficial da OIM em Portugal.

Imagem: noticias.uol.com.br
Combate ao racismo e à xenofobia: uma agenda diplomática
A questão do racismo e da xenofobia contra brasileiros ganhou destaque oficial na agenda diplomática entre Brasil e Portugal. Candeas explica que uma estratégia abrangente está sendo implementada, envolvendo diversas esferas do poder público e da sociedade civil. O objetivo é atuar em múltiplas frentes, desde a comparação de políticas públicas e legislação até o engajamento do judiciário e da sociedade civil. Ele ressalta que uma legislação robusta é insuficiente se não houver a devida aplicação por parte do sistema judiciário.
Entre as iniciativas planejadas está o programa “Amigos do Brasil”, direcionado às escolas portuguesas. Este programa visa principalmente crianças e adolescentes, com foco especial nos filhos de brasileiros que são vítimas de bullying. O cônsul-geral exemplifica a gravidade da situação com relatos de crianças que chegam em casa chorando, confrontadas com a pergunta “Você não fala português?”, mesmo sendo nativas da língua. O programa prevê a organização de concursos de redação, vídeos e músicas, além de parcerias entre os setores público e privado que podem viabilizar intercâmbios e viagens ao Brasil. A proposta central é “transformar o problema em algo positivo”, segundo Candeas, buscando integrar e valorizar a cultura brasileira.
A realidade dos brasileiros em Portugal é multifacetada, marcada tanto pela integração e contribuição produtiva quanto por desafios sociais significativos, como vulnerabilidade, discriminação e a crescente demanda por apoio psicológico. O aumento dos pedidos de repatriação e a sobrecarga dos serviços consulares sublinham a urgência de políticas de enfrentamento à discriminação e de suporte aos imigrantes, enquanto Lisboa se consolida como um importante centro da experiência migratória brasileira no mundo.
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Crédito: Lizzie Nassar (RFI)






