As Eleições Tailândia, realizadas neste domingo (8), marcaram um novo capítulo na complexa cena política do país asiático. O pleito geral foi caracterizado por uma intensa disputa tripartite que envolveu os campos conservador, progressista e populista. A expectativa de que nenhum partido consiga garantir uma maioria parlamentar clara levanta o temor de prolongar um cenário de instabilidade política persistente na nação.
O palco para estas eleições antecipadas foi montado em meados de dezembro, por iniciativa do então primeiro-ministro Anutin Charnvirakul. A decisão de convocar o pleito ocorreu em um período de acirrado conflito fronteiriço entre a Tailândia e o Camboja. Analistas políticos sugerem que a manobra de Charnvirakul foi estrategicamente planejada para capitalizar um crescente sentimento nacionalista, buscando fortalecer sua posição e a do campo conservador.
Eleições Tailândia: Disputa Acirrada e Instabilidade Política
Anutin Charnvirakul havia assumido o cargo há menos de 100 dias, após a destituição da primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra, representante do partido populista Pheu Thai. A queda de Shinawatra foi diretamente ligada à crise cambojana. O Pheu Thai, historicamente apoiado pelo bilionário ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra – que foi preso dias após a saída de sua filha do país – tem enfrentado um período de baixa, conforme indicam as pesquisas. Contudo, o partido mantém sua relevância no cenário eleitoral e ainda pode desempenhar um papel crucial.
Em contraste, o Partido Popular, de linha progressista, emergiu como um forte candidato, liderando consistentemente as pesquisas de opinião ao longo da campanha. Sua plataforma foca em uma mensagem de mudança estrutural e reformas econômicas cruciais para a Tailândia, que é a segunda maior economia do Sudeste Asiático. A proposta do partido ressoa com parcelas da população que anseiam por transformações profundas na governança e na economia, buscando superar o ciclo de estagnação.
O Fantasma da Instabilidade Política Persistente
A eleição tailandesa não é apenas sobre a escolha de novos representantes, mas sim sobre o futuro da estabilidade do país. Thitinan Pongsudhirak, renomado cientista político da Universidade Chulalongkorn, em Bangkok, destacou a importância do momento. “Esta eleição é sobre se a Tailândia vai sair do atoleiro, se vai romper com a instabilidade política e a estagnação econômica que persistem”, afirmou. Pongsudhirak expressou ceticismo em sua conclusão preliminar, indicando que a ruptura com essa situação é improvável no curto prazo, dada a complexidade do cenário político.
Apesar de seu ímpeto nas pesquisas, o Partido Popular pode não conseguir o apoio necessário para conquistar uma maioria parlamentar sozinho. Esta possibilidade levanta preocupações de que o partido possa repetir o destino de seu antecessor. O Move Forward, que serviu como precursor do Partido Popular, venceu as últimas eleições em 2023. No entanto, foi impedido de formar governo por um Senado nomeado pelos militares e por uma coalizão de parlamentares conservadores. Esse bloqueio abriu caminho para a ascensão do Pheu Thai ao poder, ilustrando as complexidades e os obstáculos enfrentados pelos movimentos progressistas na Tailândia.
A história política da Tailândia é marcada por uma longa e tumultuada disputa entre o poderoso establishment monarquista-conservador e os movimentos democráticos populares. Este embate histórico tem gerado períodos prolongados de incerteza, frequentemente pontuados por protestos de rua, surtos de violência e golpes militares. Tal cenário reforça a percepção de que as eleições recentes são mais um capítulo em uma saga de busca por estabilidade e representatividade em um sistema político complexo. Para uma compreensão mais aprofundada da evolução política da Tailândia, pode-se consultar publicações sobre a história política e os golpes militares tailandeses, que fornecem contexto valioso para a situação atual.
Referendo Constitucional em Jogo no Pleito Tailandês
Além da escolha dos parlamentares, os eleitores tailandeses também foram convocados a se manifestar sobre a substituição da constituição vigente. Durante a votação, foi apresentado um referendo para decidir se uma nova constituição deveria substituir a carta de 2017. Este documento, que foi apoiado pelos militares, é amplamente criticado por concentrar o poder em instituições consideradas antidemocráticas, limitando a participação popular.
Entre as principais críticas à Constituição de 2017 está o processo de seleção indireto para o senado, que conta com uma participação pública limitada, minando princípios democráticos e a representatividade. A Tailândia possui um histórico de profundas mudanças constitucionais; desde o fim da monarquia absoluta em 1932, o país já teve 20 constituições diferentes, com a maioria das alterações ocorrendo após golpes militares. Este dado sublinha a fragilidade e a constante reconfiguração do arcabouço legal supremo da nação ao longo de sua história.
Se os eleitores aprovarem a elaboração de uma nova carta nacional, o caminho para sua implementação será complexo e demorado. O novo governo e os legisladores teriam a tarefa de iniciar o processo de emenda no parlamento. Contudo, a adoção final de uma nova constituição exigiria a realização de mais dois referendos. Este processo multipartidário demonstra a intrincada burocracia e a necessidade de consenso para promover mudanças fundamentais na estrutura de poder da Tailândia.

Imagem: Chalinee Thirasupa via valor.globo.com
Napon Jatusripitak, pesquisador do think tank Thailand Future, sediado em Bangkok, enfatizou a importância do resultado das urnas para este processo. “Acredito que o partido que vencer as próximas eleições terá uma influência desproporcional na direção da reforma constitucional, independentemente de nos afastarmos ou não da constituição elaborada pela junta militar”, afirmou Jatusripitak, ressaltando o peso do próximo governo na definição do futuro constitucional do país e de sua governança democrática.
Estratégias Partidárias e o Novo Cenário Político
A recente ascensão do partido Bhumjaithai, de Anutin, alimentada pelo nacionalismo crescente em função do conflito entre Tailândia e Camboja, juntamente com o declínio do Pheu Thai após as dificuldades do ano passado, provocou uma reconfiguração significativa no cenário político. Essa dinâmica resultou em uma onda de deserções e remodelou os tradicionais campos de batalha eleitorais, especialmente nas regiões agrícolas, onde reside um grande número de eleitores e as lealdades são fundamentais.
Diante desse panorama, diversos partidos políticos adotaram estratégias diversificadas para conquistar o eleitorado. Muitos buscaram atrair figuras locais conhecidas para seus campos, incluindo lideranças de grupos rivais. O objetivo é conquistar as redes de lealdade pessoal, que são cruciais para o sucesso eleitoral nas áreas mais rurais do país. Essa abordagem reflete a importância das conexões pessoais e comunitárias na política tailandesa.
O Partido Popular, com sua plataforma reformista, também ajustou sua estratégia de campanha. O movimento diluiu parte de sua postura anti-establishment e incorporou talentos externos para convencer os eleitores de sua capacidade de governar. Esta flexibilização visa ampliar sua base de apoio e demonstrar maturidade política, afastando a imagem de um partido meramente contestador e buscando ser visto como uma alternativa viável para a governança.
Um desenvolvimento notável foi a entrada do ex-primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva na disputa. Aproveitando seu apelo pessoal, Vejjajiva conseguiu revitalizar seu Partido Democrata, que antes se mostrava moribundo. A presença do Partido Democrata, agora reenergizado, poderá ser uma força-chave nas negociações de coalizão pós-eleitorais, adicionando uma camada de complexidade ao processo de formação do governo e às futuras alianças.
A esperança de mudança foi palpável entre os eleitores, como exemplificado por Wish Witchudakornkul, uma jovem de 20 anos que votou pela primeira vez. Ela estava presente no comício final da campanha do Partido Popular em Bangkok, na sexta-feira, em meio a uma multidão de apoiadores vestindo laranja, a cor que simboliza o movimento progressista. “Espero que a Tailândia se torne mais justa”, disse Witchudakornkul. “Quero sentir que há mais democracia e que as pessoas têm mais liberdade e melhores oportunidades para viver suas vidas”, manifestando o desejo por um futuro mais democrático e com mais oportunidades para os cidadãos tailandeses.
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Em suma, as Eleições Tailândia representam um momento crítico para a nação, com uma disputa eleitoral que reflete profundas divisões políticas e sociais. O resultado definirá não apenas os próximos líderes, mas também o caminho para a reforma constitucional e a estabilidade democrática do país. Para ficar por dentro de outros desenvolvimentos políticos e notícias importantes, continue acompanhando nossa editoria de Política.
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