rss featured 16912 1770539712

Jogos de Inverno 2026: 85% da Neve Será Artificial

Esportes

A abertura das Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, nesta sexta-feira (6), ressalta de forma contundente as consequências do aquecimento global. Projeções divulgadas pelo Instituto Talanoa indicam que um expressivo percentual de 85% da neve a ser utilizada nas disputas de 2026 será gerada artificialmente, uma escalada observada desde os Jogos de Sochi, em 2014, evidenciando a crescente dependência da tecnologia para a manutenção das competições.

Para assegurar a realização das modalidades esportivas, a organização prevê a fabricação de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve por meios artificiais. Essa colossal empreitada demandará um volume de 946 milhões de litros de água, um recurso valioso e cada vez mais escasso. A título de ilustração, essa quantidade de água seria suficiente para preencher um terço do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, se o icônico palco esportivo fosse transformado em um gigantesco reservatório. Tal comparação sublinha a magnitude do esforço logístico e ambiental envolvido.

Para o próximo evento, os

Jogos de Inverno 2026: 85% da Neve Será Artificial

, a tecnologia será decisiva. Com o objetivo de manter a qualidade e a segurança das pistas de competição, foram implementados mais de 125 canhões de neve em localidades estratégicas, como Bormio e Livigno, conhecidas por suas infraestruturas de esportes de inverno. Esses equipamentos são abastecidos por grandes reservatórios de água posicionados em áreas de maior altitude, garantindo o suprimento necessário para a produção contínua de neve, mesmo em condições climáticas desfavoráveis.

A Ascensão da Neve Artificial nas Competições

A utilização de soluções tecnológicas para a produção de neve tornou-se um pilar central dos recentes Jogos de Inverno, marcando uma transição significativa na história do evento. Em Sochi, na Rússia, no ano de 2014, aproximadamente 80% da neve empregada foi fabricada. Em PyeongChang, Coreia do Sul, em 2018, esse patamar subiu drasticamente para 98%. O ponto culminante dessa tendência foi observado na edição de Pequim, na China, em 2022, onde a totalidade das provas foi realizada sobre neve artificialmente criada, evidenciando uma completa dependência dessa tecnologia para a realização das Olimpíadas.

Essa crescente dependência da neve artificial é um reflexo direto das mudanças climáticas globais. A quantidade de regiões que oferecem condições climáticas estáveis e confiáveis para hospedar os Jogos de Inverno tem diminuído drasticamente nas últimas décadas. Mesmo com o avanço tecnológico e a capacidade de produzir neve em larga escala, o fenômeno do aquecimento global tem provocado o encurtamento das estações de inverno, dificultando a preservação da neve natural e elevando o nível de incerteza para a realização de eventos esportivos ao ar livre, afetando diretamente o planejamento e a logística dos organizadores.

No período compreendido entre 1981 e 2010, um total de 87 locais globais eram categorizados como climaticamente confiáveis para sediar eventos invernais, baseando-se em padrões históricos de temperatura e precipitação de neve. As projeções atuais, no entanto, indicam uma queda acentuada para 52 localidades até a década de 2050. Em um cenário ainda mais preocupante, esse número poderá atingir somente 46 em 2080, mesmo considerando um cenário otimista de redução moderada das emissões de gases de efeito estufa. Esses dados sublinham a urgência de ações para mitigar os impactos do clima.

Impactos Além do Cenário Esportivo

A diminuição da neve natural é um sintoma claro de transformações mais abrangentes que afetam o sistema climático global. Os períodos de inverno estão se tornando progressivamente mais quentes e menos previsíveis, com oscilações térmicas que dificultam a formação e manutenção da neve. Dados provenientes de observações via satélite revelam que a área de gelo marinho no Ártico continua consistentemente abaixo de sua média histórica, um indicador preocupante da saúde do nosso planeta.

Jogos de Inverno 2026: 85% da Neve Será Artificial - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

Em setembro de 2012, por exemplo, foi documentada a menor extensão já registrada do gelo ártico, atingindo um mínimo histórico de 3,8 milhões de quilômetros quadrados. Embora em 31 de dezembro de 2025 a área tenha alcançado 12,45 milhões de quilômetros quadrados, esse valor ainda se mantém consideravelmente abaixo do padrão estabelecido para o período entre 1991 e 2020. Essa perda de gelo não afeta apenas o Ártico, mas tem repercussões em padrões climáticos globais.

De acordo com análises detalhadas do Instituto Talanoa, as repercussões dessa tendência extrapolam o domínio esportivo e impactam diretamente o meio ambiente e as sociedades. A neve desempenha um papel crucial como reservatório natural, armazenando água e liberando-a de forma gradual ao longo do ano, abastecendo rios e lençóis freáticos. A escassez de neve implica em menor volume de vazão dos rios, um aumento da pressão sobre os reservatórios hídricos, perdas significativas para o turismo de montanha – que depende diretamente das condições de neve – e a instauração de desequilíbrios em ecossistemas que dependem do frio, comprometendo assim economias regionais e a subsistência de comunidades inteiras que vivem dessas atividades.

Um Legado em Transformação

Iniciados em 1924, nos majestosos Alpes franceses, os Jogos Olímpicos de Inverno surgiram em um contexto de vasta disponibilidade de neve natural, um símbolo da pureza e do desafio das montanhas. Suas sedes históricas estão localizadas predominantemente em regiões montanhosas e de elevadas latitudes, áreas que, por tradição, são caracterizadas por invernos rigorosos e prolongados. Regiões como os Alpes europeus, o Canadá, os Estados Unidos e o norte do continente asiático sempre foram palcos naturais para essas competições.

Um século após sua concepção, os dados atuais demonstram uma realidade bem diferente: na ausência de maquinário especializado, canhões de neve e volumes substanciais de água, a realização do evento seria inviável. Esse cenário, para cientistas e ativistas ambientais, representa um vívido espelho de como as mudanças climáticas estão profundamente alterando e reconfigurando tradições globais há muito estabelecidas, transformando a essência de um dos maiores espetáculos esportivos do mundo.

Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos

A situação dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina em 2026 é um lembrete contundente dos desafios impostos pelas mudanças climáticas ao planeta. A dependência crescente da neve artificial destaca a necessidade urgente de repensar nossas abordagens ambientais e esportivas. Para continuar acompanhando notícias e análises sobre esporte e meio ambiente, visite nossa editoria de Esporte e mantenha-se informado.

Crédito da imagem: REUTERS/Gonzalo Fuentes/Proibida reprodução

Deixe um comentário