Durante o Carnaval RJ: Mães Ambulantes Cobram Apoio para Filhos, a realidade de milhares de trabalhadoras informais no Rio de Janeiro é exposta. Sob o sol intenso e em meio à euforia dos blocos, essas mulheres, muitas delas mães solo, enfrentam jornadas exaustivas e condições precárias, enquanto tentam garantir o sustento familiar. A ausência de suporte para a guarda de seus filhos durante o período festivo as força a levá-los para as ruas, gerando um clamor por pontos de apoio e reconhecimento de seus direitos.
A vida de quem vende bebidas e alimentos em meio à multidão é marcada por desafios constantes. Sem acesso a escolas ou creches abertas e sem a possibilidade de contar com outros cuidadores, muitas mães ambulantes veem como única saída ter seus filhos por perto enquanto trabalham. Essa situação coloca em evidência a urgência de políticas públicas que atendam às necessidades dessas famílias, especialmente durante eventos de grande porte como o carnaval, que representa a principal fonte de renda para muitos.
Carnaval RJ: Mães Ambulantes Cobram Apoio para Filhos
Taís Aparecida Epifânio Lopes, de 34 anos, é um exemplo vívido dessa realidade. Residente na favela do Arará, na Zona Norte, Taís percorre longas distâncias de ônibus, carregando bebidas e um carrinho de vendas, para trabalhar nos blocos da Zona Sul. Sua filha de quatro anos a acompanha diariamente. “Carnaval é quando a gente consegue ganhar mais dinheiro, é um evento grande, então, se eu não fizer isso, a gente não come, não bebe”, explica Taís, ressaltando a crucial importância do evento para sua sobrevivência e a da filha. Ela também expressa preocupação com seu filho mais velho, de 16 anos, que permanece em casa na comunidade, exposto aos riscos de conflitos armados e do tráfico de drogas.
No coração da cidade, Lílian Conceição Santos, também de 34 anos, compartilha uma experiência similar. Ela trabalha com a venda de biscoitos, balas e bebidas, mantendo seus três filhos e sobrinhos, com idades entre dois e quatorze anos, próximos à sua barraca. As crianças, por vezes, descansam em colchões no chão, com a ajuda de ventiladores e entretidas com celulares, enquanto Lílian se dedica às vendas. “O carnaval ajuda demais nas contas, não posso deixar de vir”, afirma. As condições em seu local de trabalho são rudimentares: o banheiro utilizado é um bueiro, o banho é tomado com água fornecida pela polícia em postos de segurança, e a alimentação é preparada em uma panela elétrica. À noite, a avó dos pequenos assume a responsabilidade por eles, auxiliando Lílian durante o dia.
A Importância Econômica e o Clamor por Suporte
O carnaval carioca, com sua movimentação econômica estimada em R$ 5,8 bilhões, é o período de maior faturamento para os ambulantes, sendo popularmente chamado de “décimo terceiro salário”. Essa injeção financeira é vital, mas vem acompanhada de um esforço sobre-humano por parte das trabalhadoras. O Movimento de Mulheres Ambulantes Elas por Elas Providência tem sido uma voz ativa na cobrança de melhores condições de trabalho e apoio do poder público.
A principal reivindicação é a instalação de espaços de convivência seguros para as crianças e locais de descanso para as mães, operando tanto de dia quanto de noite, em áreas estratégicas e próximas aos grandes blocos. Essa medida não apenas protegeria os menores, mas também ofereceria um alívio fundamental para as mães, permitindo-lhes focar em suas vendas com mais tranquilidade e segurança.
Iniciativas e Desafios Atuais
Neste carnaval, o Movimento Elas por Elas conseguiu, em parceria com o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), a 1ª Vara da Infância e da Juventude e a prefeitura, a criação de um espaço de acolhimento noturno para crianças. Localizado próximo à Sapucaí, o local funciona das 18h às 6h, recebendo cerca de 20 crianças por noite, com idades entre quatro e doze anos. Nesse ambiente, elas podem participar de atividades lúdicas, descansar, tomar banho, receber refeições e dormir confortavelmente, enquanto seus pais e mães trabalham nas ruas.
Taís Epifânio expressou grande alívio após deixar sua filha no centro no primeiro dia, sábado (14), e contou que foi um alívio grande. “Minha filha gostou, eu também entrei e achei um espaço super bacana, a minha filha, quando acordou, me contou que brincou, viu televisão, tinha cama, coisas que na rua, a gente não tem como dar”, relatou a ambulante. Ela e outras mães, no entanto, continuam lutando pela ampliação do horário de funcionamento para incluir o período da manhã, visando atender àquelas que trabalham em turnos diurnos.
Outra beneficiária da iniciativa foi Luna Cristina Vitória, de 26 anos, que atua na venda de churrasquinho perto do espaço infantil. Luna, que mora na Zona Oeste, deixou seus dois filhos, de cinco e nove anos, no local nos últimos dias, contando com o apoio de seus pais nas vendas. “Eles dão todo o suporte lá, as crianças jantam, tomam banho, dormem, saem umas 5h20, quando a gente já consegue pegar e levar para casa”, contou Luna. Seu filho, Eduardo Vitor Nunes Silva, de nove anos, aprovou a experiência, destacando que “gosta mais de ficar no espaço que dá para desenhar” e que “Lá a gente come, brinca, dorme, tem uma televisão, é mais confortável”. Ele retornou ao local para que sua família pudesse trabalhar na segunda-feira (16).
Apesar do sucesso do espaço da Sapucaí, Lílian Conceição, que trabalha no Largo da Carioca, expressou o desejo de que a prefeitura oferecesse um serviço similar mais próximo de sua área de atuação. “Lá na Sapucaí, é muito longe para mim. Mas se tivesse aqui, eu botava, porque senão, é só telefone [tela]”, lamentou, evidenciando a necessidade de descentralização desses pontos de apoio.

Imagem: Movimento Elas por Elas via agenciabrasil.ebc.com.br
Reivindicações e Invisibilidade
Para as mães ambulantes, que desempenham um papel fundamental na engrenagem econômica do carnaval carioca, o apoio recebido ainda é insuficiente. Caroline Alves da Silva, uma das lideranças do Movimento Elas por Elas, enfatiza que “estamos falando de direitos nossos, como trabalhadoras, e das crianças”. No entanto, elas se sentem “invisíveis”. A falta de políticas públicas abrangentes se estende à ausência de itens básicos de proteção, como guarda-sóis, blusas com proteção UV e chapéus, que poderiam minimizar o desgaste físico sob o sol escaldante. Caroline destaca que a grande maioria das ambulantes são mulheres negras e mães solo, muitas das quais chegam a pernoitar sob marquises.
“A gente faz parte [da economia do carnaval], a gente carrega cerveja, carrega carrinho pesado debaixo do Sol, nos blocos, na Sapucaí, mas somos invisíveis”, reitera Caroline. O movimento busca um diálogo mais construtivo com o poder público para discutir a organização do carnaval e a efetiva implementação de pontos de apoio para as trabalhadoras e seus filhos. O vereador Leniel Borel (PP) também utilizou suas redes sociais para expor a realidade de crianças e adolescentes trabalhando ou acompanhando os pais ambulantes durante a noite, alertando para os riscos de pedofilia e desaparecimentos, cobrando uma atuação mais efetiva da prefeitura.
Respostas do Poder Público e Outras Iniciativas
Em resposta às preocupações, a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) afirmou que realiza ações permanentes e focadas na prevenção do trabalho infantil durante o carnaval, sem detalhar as medidas. A secretária Martha Rocha destacou a existência do espaço de convivência próximo à Sapucaí, localizado no Espaço de Desenvolvimento Infantil Rachel de Queiroz, em frente ao Edifício Balança Mas Não Cai. Ela informou que as equipes da SMAS circulam nos arredores da Sapucaí, oferecendo o serviço sempre que identificam a necessidade, e que os próprios ambulantes podem procurar os profissionais, identificados com colete da SMAS, ou levar seus filhos diretamente ao centro.
Para atenuar o desgaste das mães ambulantes, o Movimento Elas por Elas também conseguiu a inclusão dessas trabalhadoras no Centro do Catador, situado a cerca de 15 minutos a pé do espaço infantil e também próximo à Sapucaí. Caroline Alves da Silva aponta a importância dessa medida, mencionando que “não adianta a gente deixar os filhos dentro de um espaço seguro e ir dormir embaixo de marquise”. Ela complementa que “Tem algumas mulheres que trabalham no entorno da Sapucaí, mas, outras, só em bloco e dormem na rua.” O Centro do Catador, localizado na Rua Viscondessa de Pirassununga, oferece um local onde as ambulantes podem descansar, hidratar-se, fazer refeições, tomar banho e pernoitar. Originalmente uma iniciativa inédita da Secretaria Municipal de Ambiente e Clima pensada para catadores de material reciclável, muitos vindos da Baixada Fluminense e atuando no sambódromo, o atendimento foi ampliado para as ambulantes com o suporte da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
A deputada Dani Monteiro (PSol), presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Alerj, reconhece as limitações do espaço, especialmente sua distância dos blocos. Contudo, ela ressalta que a iniciativa representa um reconhecimento do papel fundamental dessas trabalhadoras no carnaval. “Garantir água, cuidado e um espaço digno é reconhecer que direitos humanos também são renda, saúde e respeito para quem mantém a cidade de pé no dia a dia e nas grandes festas”, afirmou a deputada. Sobre as críticas em relação ao fornecimento de equipamentos de proteção e à necessidade de estender o horário do centro de convivência infantil, a prefeitura não se manifestou.
Para o carnaval de 2026, a prefeitura limitou o credenciamento de ambulantes a 15 mil, embora o Movimento Elas por Elas estime que cerca de 50 mil trabalhadores atuem nas ruas da cidade durante o período. A disparidade de números evidencia uma lacuna entre a oferta oficial de trabalho e a realidade da força informal, um tema que frequentemente emerge em debates sobre a economia popular e os direitos trabalhistas no Brasil. A situação dos trabalhadores informais, como as mães ambulantes, é um tema constante de debate sobre direitos e condições de trabalho dignas no Brasil, conforme amplamente discutido por entidades e órgãos como a Agência Brasil.
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Este panorama sobre as mães ambulantes no carnaval carioca revela não apenas a resiliência e a determinação dessas mulheres, mas também a necessidade premente de um olhar mais atento e de ações concretas por parte do poder público. A busca por espaços seguros para as crianças e condições de trabalho mais dignas é um reflexo da luta por direitos humanos e sociais que impacta diretamente a vida de milhares de famílias. Para se aprofundar em questões urbanas e sociais que afetam grandes metrópoles, continue acompanhando nossa editoria de Cidades.
Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil







