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Estudo revela correlação do Bitcoin com bolsa e ativos de risco

Economia

Uma pesquisa conjunta da Universidade de São Paulo (USP), através da FEA-USP, e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) trouxe novas perspectivas sobre a **correlação do Bitcoin com a bolsa** de valores e outros ativos financeiros de risco. O estudo concluiu que o desempenho da principal criptomoeda está intrinsecamente ligado ao mercado de ações e a outros investimentos considerados voláteis, questionando a longeva tese de que o Bitcoin funcionaria como um “ouro digital”, um porto seguro em momentos de turbulência econômica.

A análise aprofundada, que abrangeu um período significativo de 2014 a 2025, indicou que a conexão do Bitcoin com a economia global tem se fortalecido substancialmente, especialmente a partir de 2022. Os pesquisadores observaram que, em fases de crise ou aversão ao risco, a criptomoeda tende a performar de maneira menos favorável em comparação com os investimentos tradicionais. Tais evidências refutam a premissa de que o Bitcoin seria um ativo estável, capaz de proteger carteiras em cenários de desvalorização cambial ou incerteza financeira.

Estudo revela correlação do Bitcoin com bolsa e ativos de risco

Os resultados da análise sugerem que as provas disponíveis não sustentam a visão de que o Bitcoin opera como um refúgio seguro para investidores. A pesquisa minuciosamente mapeou a evolução da criptomoeda ao longo de cinco fases distintas, demonstrando um vínculo crescente com o sistema financeiro convencional na última década. Esse laço se tornou notavelmente mais evidente nos ciclos de mercado mais recentes, marcando um ponto de inflexão na percepção de sua independência.

Metodologia e Variáveis Analisadas

Para fundamentar suas conclusões, os acadêmicos empregaram uma metodologia robusta, cruzando uma ampla gama de variáveis. De um lado, foram consideradas métricas financeiras tradicionais e amplamente reconhecidas, incluindo o desempenho da bolsa de valores Nasdaq, um epicentro para ações de empresas de tecnologia, o índice de volatilidade VIX, o valor do dólar, as cotações do ouro e do petróleo, bem como as taxas de juros praticadas nos Estados Unidos. De outro, esses indicadores foram comparados com dados nativos da blockchain do Bitcoin, as chamadas variáveis on-chain. Entre elas, destacam-se o volume de Bitcoins mantidos nas reservas das corretoras de criptomoedas e o famoso MVRV (Market Value to Realized Value), que oferece uma perspectiva sobre a valorização das moedas em relação ao seu preço de compra.

As Cinco Fases da Conexão Bitcoin-Mercado

O estudo segmentou a trajetória do Bitcoin em fases distintas, cada uma revelando nuances na sua relação com os mercados tradicionais. Essa periodização é crucial para compreender a transformação do ativo ao longo do tempo.

Fase 1 (2014-2016): O Início da Descorrelação

Na primeira fase analisada, que compreende os anos de 2014 a 2016, o mercado de Bitcoin apresentava pouca correlação com os ativos financeiros tradicionais. A cotação da criptomoeda respondia majoritariamente às dinâmicas internas de sua rede e ao avanço tecnológico subjacente. Variáveis on-chain, como o número de Bitcoins armazenados em reservas de corretoras e o MVRV, demonstravam-se ferramentas preditivas mais eficazes para antecipar os movimentos de preço do que os fatores macroeconômicos.

Fase 2 (2017-2018): O Bull Market e o Início da Institucionalização

Mesmo durante o vigoroso bull market de 2017 e 2018, que culminou no pico de preço daquele ciclo, a correlação do Bitcoin com o mercado tradicional permaneceu baixa. Esse período, no entanto, foi marcado pelo lançamento dos contratos futuros de Bitcoin na Chicago Mercantile Exchange (CME) e na Chicago Board Options Exchange (Cboe), um marco que sinalizou o crescente interesse institucional e o início de uma maior integração, ainda que os efeitos imediatos na correlação não fossem evidentes.

Fase 3 (2019-2021): O Crescimento da Interdependência

A partir do ciclo que se estendeu de 2019 a 2021, a conexão do Bitcoin com o sistema financeiro global começou a se intensificar. Os pesquisadores salientam que este período foi singular, coincidindo com a eclosão da pandemia de COVID-19, um contexto de expansão monetária sem precedentes por parte de bancos centrais globais e um aumento notável na participação de investidores institucionais nos mercados de criptomoedas. Esses fatores atuaram como catalisadores para uma maior interdependência.

Estudo revela correlação do Bitcoin com bolsa e ativos de risco - Imagem do artigo original

Imagem: Kanchanara via valor.globo.com

Fase 4 e 5 (2022-2025): A Ascensão da Previsibilidade Macro

Os dois ciclos seguintes, o bear market de 2022-2023 e a fase de recuperação de 2024-2025, registraram o ponto mais elevado da conexão do Bitcoin com os mercados tradicionais. Em particular, o período de queda entre 2022 e 2023 exibiu a maior previsibilidade macrofinanceira de todo o estudo. Isso significa que o cenário macroeconômico exerceu um impacto mais direto e decisivo sobre as criptomoedas nessa conjuntura, com a volatilidade, o desempenho da Nasdaq, os preços do ouro e as taxas de juros americanas influenciando o Bitcoin por canais que os modelos convencionais não captavam antes. Em 2022-2023, essa influência explodiu, tornando-se um fator dominante.

O Poder Persistente dos Dados On-Chain e a Visão de Futuro

Apesar da crescente influência macroeconômica, os pesquisadores ressaltam um ponto crucial: o MVRV e outras variáveis on-chain mantiveram seu poder preditivo. Isso sugere que, embora o Bitcoin esteja mais integrado, seus fundamentos internos continuam a oferecer sinais valiosos para a compreensão do mercado. Gerson de Souza, pesquisador do IAG/PUC-Rio e um dos coautores do estudo, reforça essa ideia, afirmando que a pesquisa confirma que os fundamentos da blockchain seguem funcionando como indicadores essenciais para o mercado.

Contudo, Souza adverte que, desde 2019, tornou-se inviável ignorar o peso de fatores como juros, dólar e bolsas de valores. “O bitcoin já está dentro do sistema financeiro global”, argumenta, consolidando a percepção de sua maturidade e inserção no ecossistema financeiro. A volatilidade observada em ativos de risco, como tem sido frequentemente abordado em análises financeiras publicadas por veículos especializados como o Valor Econômico, destaca a importância de considerar o cenário macro para investimentos em criptomoedas.

Conclusão e Novas Perspectivas

Embora a conclusão possa sugerir que o Bitcoin se tornou “apenas mais um ativo de risco”, o estudo oferece um contraponto otimista. A persistência da capacidade preditiva dos dados on-chain confere à moeda digital uma transparência e uma singularidade que a distinguem. A natureza do Bitcoin está em constante transformação, com novos padrões emergindo a cada ciclo de mercado. Gerson de Souza defende que a tese do “ouro digital” pode, de fato, se fortalecer com o tempo, à medida que a base de investidores de longo prazo se expande e a infraestrutura do mercado amadurece. “O bitcoin de 2030 pode ser muito diferente do de 2022”, projeta Souza, abrindo caminho para a possibilidade de uma evolução que reforce suas características de reserva de valor. Além de Gerson de Souza, o estudo contou com a contribuição de Rafael Palazzi e Marcelo Klotzle.

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Em suma, a pesquisa da USP e PUC-Rio oferece uma análise aprofundada sobre a **correlação do Bitcoin com a bolsa** e o mercado financeiro global, desafiando concepções antigas e apontando para uma crescente integração. Para mais análises econômicas e cobertura do mercado financeiro, continue acompanhando nossa editoria de Economia.

Crédito da imagem: Valor Econômico

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