A cautela do Brasil é a postura recomendada diante dos recentes ataques militares perpetrados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, ocorridos no último sábado (28). Essa orientação diplomática brasileira se justifica pelo delicado equilíbrio entre a condução de importantes negociações tarifárias com Washington e o estreitamento de laços com Teerã, que agora integra o Brics, o influente bloco de nações do Sul Global.
Essa análise provém de especialistas em relações internacionais, que foram consultados pela Agência Brasil para contextualizar a complexa situação. No mesmo sábado pela manhã, o governo brasileiro havia divulgado um comunicado oficial, no qual expressou sua condenação à ofensiva e reforçou a imprescindibilidade do diálogo e da negociação como o único caminho viável para alcançar a paz duradoura na região.
Cautela do Brasil: EUA e Irã no cenário do Brics e negociações
A posição de defender intensas negociações representa a linha tradicionalmente adotada pelo Brasil em conflitos regionais, conforme reiterado pela nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores. O Brasil instou todas as partes envolvidas a respeitar rigorosamente o direito internacional e a exercitar o máximo de contenção, visando evitar uma escalada das hostilidades e, principalmente, assegurar a proteção irrestrita de civis e da infraestrutura não militar.
Apesar das discussões em curso sobre o futuro do programa nuclear iraniano, os Estados Unidos levaram a cabo uma ofensiva militar direcionada a alvos em território iraniano. Paralelamente, Israel também executou ataques semelhantes. Como resposta, o Irã retaliou com o lançamento de mísseis contra nações vizinhas que abrigam bases militares americanas. O governo iraniano mantém a firme posição de que seu desenvolvimento de tecnologia nuclear possui exclusivamente propósitos pacíficos.
Equilíbrio Diplomático em Meio à Tensão Geopolítica
O professor Feliciano de Sá Guimarães, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza a necessidade de o Ministério das Relações Exteriores brasileiro estabelecer uma posição mediadora entre o Irã e os Estados Unidos. A recente inclusão do Irã como membro do Brics posiciona o Brasil em uma encruzilhada diplomática, dificultando a adoção de um alinhamento aberto contra qualquer uma das partes.
Guimarães aponta que a proximidade com o Irã no contexto do Brics, somada às negociações pendentes com os Estados Unidos, exige uma postura de extremo cuidado. “O Brasil se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos, dado que o Brasil tem essa negociação com os Estados Unidos”, avalia o professor. Há ainda a expectativa de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos, agendado para o fim de março.
As negociações mencionadas por Feliciano Guimarães referem-se às tarifas de importação que foram impostas em agosto do ano passado pelo governo Trump. Na ocasião, produtos brasileiros chegaram a ser sobretaxados em até 50%. A justificativa para a elevação dessas taxas sobre produtos importados, segundo o governo norte-americano, era a proteção da economia interna, incentivando a fabricação local em detrimento da aquisição de produtos estrangeiros. Desde então, as administrações brasileira e americana têm buscado ativamente acordos para fortalecer a parceria comercial, o que já resultou na retirada de alguns produtos da lista de tarifas.
Em 20 de fevereiro, uma decisão da Suprema Corte dos EUA reverteu uma medida anterior de Trump, que, em resposta, aplicou uma tarifa de 10% a diversos países, impactando novamente o cenário comercial internacional.
O Brics e a Posição Brasileira de Cautela
Williams Gonçalves, professor titular aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sublinha que a prudência brasileira é intrinsecamente ligada ao seu status de nação fundadora do Brics. Este grupo congrega atualmente 11 países-membros e 10 países-parceiros, que se autodenominam como o “Sul Global”.
Rússia e China, ambos importantes aliados do Irã, também foram nações fundadoras do Brics em 2006. O Irã, por sua vez, ascendeu à categoria de país-membro em 2024. “O Brasil tem uma relação com a Rússia e com a China forte e tem uma relação não tão forte, mas tem uma relação com Irã”, observa o professor. Ele complementa que todos esses países estão “dentro do mesmo barco do Brics, todos engajados, pelo menos teoricamente, na ideia de mudança da ordem internacional”. Essa sinergia exige do Brasil uma consideração cuidadosa de suas posições diplomáticas.
Gonçalves recorda que a política externa brasileira tem mantido uma postura de cautela também em virtude de ações anteriores da administração Trump, notadamente em relação à Venezuela. Ele citou a referência à captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro, descrevendo que “O regime de Trump foi lá e sequestrou um presidente da República na América do Sul, nosso vizinho”. A posição do Brasil, nesse sentido, tem sido de grande prudência, “procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Contudo, o professor Gonçalves pondera que o desenrolar dos eventos pode, eventualmente, demandar posicionamentos mais enérgicos do Brasil. Ele alerta para a pretensão declarada dos Estados Unidos de promover uma mudança de regime no Irã, algo que conflita com os princípios fundamentais da política externa brasileira. “O Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, que sempre defendeu o princípio da não ingerência, não pode agora apoiar governos que intervenham em outros estados com a finalidade de mudar o sistema político escolhido pelo seu povo”, avalia.
Impactos Econômicos e Diplomáticos
Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), analisa que o Brasil tende a ser afetado de maneira limitada pelo conflito no Oriente Médio. Ele observa que o posicionamento inicial do governo brasileiro foi estritamente protocolar, com uma crítica clara ao ataque. “Não acho que o presidente Lula e o Brasil vão se engajar muito nesse conflito. Está muito longe do Brasil, não tem grandes interesses específicos do Brasil nesse processo”, afirma Paz Neves, ressaltando o foco nas negociações com os Estados Unidos, que são “uma tentativa muito prolongada”.
Ao abordar a potencial viagem do presidente Lula aos EUA em março, o pesquisador prevê que o Brasil manterá uma linha crítica institucional, convocando tanto Irã quanto Estados Unidos para retomar a mesa de negociação. No entanto, o envolvimento brasileiro não deve ser profundo, pois há “muito a perder”. “Ele [Lula] sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o Brasil muito grande”, justifica Paz Neves, destacando a complexidade da diplomacia no cenário atual.
Para Leonardo Paz Neves, os potenciais efeitos econômicos que o Brasil poderia enfrentar com uma escalada do conflito no Oriente Médio estão diretamente relacionados ao preço do petróleo, que poderia sofrer um aumento significativo. O encarecimento do petróleo tem um efeito cascata, gerando inflação e impactando diversos setores da economia, uma vez que o petróleo é a base de várias cadeias produtivas. “Toda vez que o petróleo sobe – o petróleo é base de cadeia – então impacta em diversos setores”, explica.
Comércio Bilateral Brasil-Irã e Riscos
Outro reflexo importante, conforme acrescenta o pesquisador, seria no comércio internacional com o Irã. O país persa é um importador relevante de produtos brasileiros, especialmente commodities agrícolas. “O Irã é um importador importante dos produtos brasileiros, especialmente a soja, o milho e alguma coisa de proteína”, detalha Paz Neves.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços revelam que, em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e Irã atingiu a marca de US$ 3 bilhões, o que corresponde a mais de R$ 15 bilhões. O Brasil desfruta de um superávit nessa relação comercial, com exportações de US$ 2,9 bilhões e importações de US$ 85 milhões. No ano passado, o Irã foi o 31º principal destino das exportações brasileiras. O milho não moído lidera a pauta de exportação, representando 67,9% do valor total dos embarques, seguido pela soja, com 19,3%.
A preocupação se intensifica caso o conflito escale e leve a um possível cerco naval americano ao Irã. Tal cenário poderia dificultar ou até inviabilizar o envio de exportações brasileiras para a região. “Se o conflito escalar muito e tiver o Irã cercado pela marinha americana, vai ser um problema mandar a exportação brasileira para lá. Vai ter alguns setores aqui no Brasil que vão sofrer um pouco, perder um importante comprador”, alerta o pesquisador, evidenciando os riscos econômicos diretos para o agronegócio brasileiro.
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Em síntese, a postura de cautela do Brasil frente ao conflito entre EUA e Irã é multifacetada, considerando suas relações diplomáticas e comerciais com ambas as nações, além de seu papel estratégico no Brics. A complexidade do cenário exige uma diplomacia equilibrada para proteger interesses nacionais e promover a paz. Para aprofundar-se em análises sobre política internacional e seus desdobramentos, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Crédito da Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil







