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Documentários Irã: Entenda a Origem da Guerra no Oriente Médio

Economia

A atualidade do conflito no Oriente Médio, com a exaustiva cobertura sobre as tensões entre Estados Unidos de Trump e a Israel de Netanyahu contra o Irã dos aiatolás, levanta a questão sobre como aprofundar a compreensão das raízes históricas. Nesse contexto, documentários Irã se apresentam como ferramentas cruciais para decifrar as complexidades que definem as relações diplomáticas e os conflitos na região. Uma perspectiva enriquecedora sobre essa necessidade foi abordada no podcast The Weekly Show with Jon Stewart, em 4 de fevereiro, contando com a participação da renomada jornalista Christiane Amanpour, âncora internacional da CNN, e da diplomata americana Wendy Sherman, que teve papel central nas negociações do acordo nuclear de 2015.

Christiane Amanpour trouxe à tona uma reflexão central: a crise dos reféns de 1979 ainda assombra os americanos, enquanto o golpe de 1953 ainda marca os iranianos. Essa percepção destaca um cenário de desconfiança mútua, que, somado à hostilidade entre Irã e Israel, forma um caldeirão para a persistente incapacidade de diálogo. As relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã estão rompidas desde a Revolução Islâmica, que em 1979 depôs o xá Mohammad Reza Pahlevi, um evento que mudou radicalmente o panorama geopolítico.

Documentários Irã: Entenda a Origem da Guerra no Oriente Médio

Para o cineasta e diretor-fundador do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, Amir Labaki, uma filmografia completa sobre o tema seria extensa, mas é possível focar em obras documentais específicas que ressoam com a análise de Amanpour. Tais produções oferecem um mergulho profundo nos eventos que moldaram o Irã moderno e suas relações internacionais, permitindo uma visão mais aprofundada do cenário atual.

Entre os lançamentos mais notáveis que abordam o golpe de Estado de 1953, o documentário “Golpe 1953” (2019) se destaca. Dirigido pelo iraniano Taghi Amirani e contando com a colaboração essencial do editor Walter Murch, conhecido por seu trabalho em “Apocalypse Now”, o filme é uma das análises mais robustas sobre a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh. Em agosto de 1953, serviços secretos britânicos e americanos orquestraram a Operação Ajax, pondo fim à administração de Mosaddegh, um advogado eleito em 1951 que defendia uma agenda liberal na política e socialmente engajada na economia. Mosaddegh buscou fortalecer o Parlamento, implementou uma reforma agrária moderada e, crucialmente, defendeu o controle nacional sobre a riqueza petrolífera, nacionalizando a Anglo-Iranian Oil Company, majoritariamente britânica.

A intervenção britânico-americana não apenas removeu Mosaddegh do poder, mas também interrompeu a experiência democrática mais significativa do Irã, cujas consequências ressoam até hoje. “Golpe 1953”, que competiu no É Tudo Verdade em 2020, explora esse episódio traumático por meio da descoberta de transcrições inéditas do depoimento de Norman Darbyshire (1924-1993), um dos principais agentes britânicos envolvidos na operação. Essas confissões, quase inteiramente eliminadas de uma série documental inglesa de 1985 e reencenadas no filme com a atuação de Ralph Fiennes, solidificam a reconstituição da complexa trama golpista, revelando o impacto duradouro dessa intervenção externa na trajetória iraniana.

Em contraponto ao trauma iraniano de 1953, a crise de 1979 é uma cicatriz para os Estados Unidos. O documentário “Reféns” (2022), disponível na HBO Max, aborda de forma brilhante a tomada da embaixada dos EUA em Teerã, em 4 de novembro daquele ano. Durante 444 dias, 52 pessoas foram mantidas em cativeiro, um evento que se tornou um marco histórico. A série documental, dirigida por Abbas Motlagh, Maro Chermayeff, Sam Pollard, Jeff Dupre e Joshua Bennett, e vencedora de um Emmy de série documental histórica, disseca os antecedentes e o desenrolar dessa chaga em quatro episódios de uma hora.

O primeiro episódio, intitulado “O Trono do Pavão”, faz uma síntese didática do período de 25 anos (1953-1979) da tirania monárquica de Reza Pahlevi, que recebia apoio inabalável dos Estados Unidos. A modernização ocidentalizante do xá era sustentada por um sistema econômico de alta concentração de renda e um aparelho repressivo brutal, a Savak. Arquivos da época revelam o apoio constante de sucessivos presidentes americanos ao xá. Um momento crucial é uma entrevista coletiva de 1972, onde Henry Kissinger, então secretário de Estado de Nixon, justificou um acordo para instalar oito usinas nucleares pioneiras no Irã, evidenciando que o desenvolvimento nuclear iraniano teve nos EUA seu parceiro inicial e fundamental.

Outro trecho notável mostra a cegueira do presidente Jimmy Carter (1924-2024), mesmo em sua política de defesa dos direitos humanos, diante da natureza despótica de Reza Pahlevi. Durante uma visita a Teerã entre 1977 e 1978, Carter proferiu um discurso afirmando que “o Irã, por causa da excepcional liderança do xá, é uma ilha de estabilidade em uma das mais problemáticas regiões do mundo”. Mal sabia ele que suas palavras catalisavam uma indignação crescente que contribuía para encurtar sua própria carreira política. Enquanto isso, o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989), exilado em uma vila francesa, consolidava-se como o líder de uma revolta popular em ascensão, que naquele ano lotava as ruas iranianas, unindo laicos e devotos.

Documentários Irã: Entenda a Origem da Guerra no Oriente Médio - Imagem do artigo original

Imagem: Reza/Webistan via valor.globo.com

Em janeiro de 1979, o xá partiu com sua família para o que seria um exílio permanente. Menos de duas semanas depois, Khomeini retornava, e em dez dias, a Revolução Islâmica tomava o poder. Quatro dias após a revolução, uma primeira tentativa de tomada da embaixada dos EUA foi rechaçada pelas forças do aiatolá vitorioso. Contudo, em 4 de novembro de 1979, a ocupação definitiva aconteceu, liderada por estudantes independentes do regime, detalhada no segundo capítulo, “Toca dos Espiões”. Conforme lembra Ebrahim Asgharzadeh, um dos líderes estudantis, a intenção era que durasse 48 horas, mas a ocupação se estendeu por mais de um ano, sendo explorada pela máquina publicitária para consolidar o novo regime islâmico radical. A autorização humanitária de Carter para a entrada de Pahlevi nos EUA para tratamento de câncer avançado certamente contribuiu para a demonização dos EUA e a prolongação do sequestro.

O terceiro episódio, “A Tempestade de Areia”, narra a desastrada tentativa de resgate militar dos reféns em abril de 1980, que apenas acirrou os ânimos e aprofundou a humilhação interna do governo Carter. Para uma análise ainda mais detalhada dessa ação fracassada, o documentário “Desert One” (2019), dirigido por Barbara Kopple, oferece uma autópsia fílmica minuciosa. O último episódio, “A Transação”, reconstrói as complexas negociações mediadas pela Argélia, que envolveram divisas iranianas congeladas nos EUA e culminaram na libertação de todos os reféns. Carter negociou o acordo, e, derrotado na eleição presidencial por Ronald Reagan, acompanhou sua concretização até mesmo durante a cerimônia de transmissão do cargo, em 20 de janeiro de 1981. O avião que transportava os reféns só foi autorizado a decolar após o juramento presidencial de Reagan.

Em uma autocrítica final, o ex-estudante Asgharzadeh, agora um militante reformista, expressa arrependimento pelo sequestro, sustentando que “um antiamericanismo constante se tornou a identidade da revolução e isso continua”. A compreensão desses eventos históricos, conforme destacado por Amir Labaki, é indispensável para contextualizar a atual dinâmica de tensões e confrontos no Oriente Médio. Para mais informações sobre a Revolução Iraniana e seus impactos, você pode consultar fontes históricas confiáveis como a Enciclopédia Britannica sobre a Revolução Iraniana.

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Os documentários abordados por Amir Labaki oferecem uma perspectiva jornalística aprofundada, permitindo que o público vá além das manchetes e entenda as complexas camadas de desconfiança e eventos históricos que moldaram as relações entre Irã, Estados Unidos e Israel. Para continuar explorando análises sobre política internacional e seus impactos globais, convidamos você a navegar pela nossa seção de Política.

Foto: Divulgação

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