A relação de Donald Trump com a imprensa, historicamente marcada por confrontos, atingiu um novo patamar de complexidade e intensidade durante o conflito no Irã. O ex-presidente dos Estados Unidos, conhecido por sua postura hostil em relação aos veículos de comunicação, paradoxalmente utilizou a mídia como um canal frequente para suas comunicações em momentos de elevada tensão política, ao mesmo tempo em que a submetia a ataques persistentes. Este cenário de aparente contradição se acentuou com a escalada da guerra, levando a uma proliferação de declarações controversas e um ritmo acelerado de entrevistas concedidas pelo republicano.
De um lado, a administração Trump manifestou ameaças de não renovar licenças públicas de emissoras que considerava críticas e direcionava ofensas pessoais a jornalistas. Do outro, o então presidente demonstrou uma surpreendente disponibilidade para a imprensa, concedendo pelo menos 25 entrevistas a veículos americanos e de países aliados nos primeiros 20 dias do conflito. Este número exclui coletivas de imprensa e interações informais com repórteres a bordo do Air Force One, evidenciando uma estratégia dupla de comunicação e confronto.
Trump Intensifica Ataques à Imprensa em Meio à Guerra do Irã
Grande parte dessas interações se resumia a telefonemas breves, com poucos minutos de duração, nos quais os jornalistas tinham escasso tempo para questionar as afirmações presidenciais ou apontar eventuais inconsistências na comunicação da Casa Branca sobre a guerra. Jonathan Karl, correspondente da rede ABC em Washington, chegou a relatar em suas redes sociais que Trump o havia contatado três vezes desde o início do conflito. A intensidade dessa comunicação ficou evidente no dia 1º de março, o dia seguinte ao começo do conflito, quando Trump conversou por telefone com profissionais de veículos como a revista The Atlantic, o jornal The New York Times, a rede MSNBC e a publicação britânica Daily Mail – notavelmente, os três primeiros reconhecidos por suas reportagens críticas ao governo republicano.
Em todas as entrevistas concedidas, Trump expressou uma expectativa de que a guerra se encerraria em cerca de quatro semanas e discutiu a ascensão de novas lideranças no Irã, sugerindo que o país persa estaria disposto a negociar um acordo. Contudo, o conflito se estendeu por mais de duas semanas além da previsão inicial, sem sinais de um desfecho, e com Mojtaba Khamenei, filho do ex-líder supremo, consolidado na liderança do país. Apesar de suas próprias declarações e previsões, o então presidente continuava a criticar a imprensa, acusando os jornais de disseminar “notícias falsas” sobre a guerra. Em 14 de março, a bordo do Air Force One, ele afirmou que “Nossas empresas de comunicação, que não têm credibilidade, estão publicando informações que sabem que são falsas.”
A retórica presidencial de Trump contra a imprensa também se manifestou em plataformas digitais. Em uma publicação na rede Truth Social, ele descreveu as reportagens críticas de jornais americanos como o “oposto da realidade”, chamando os responsáveis de “pessoas doentes e com demência, que não têm a menor noção do dano que causam para os EUA”. Essas declarações levantaram preocupações sobre a consistência da mensagem governamental em tempos de crise. Allison Prasch, professora da Universidade de Wisconsin-Madison e especialista em retórica presidencial, observou que, em meio a todo o ruído, “não vi um momento em que Trump forneceu uma justificativa ponderada ou convincente para o porquê ele está fazendo o que está fazendo. Não há uma mensagem consistente.”
Pentágono e a Liberdade de Imprensa Durante o Conflito
A falta de uma comunicação coesa e o aumento dos ataques à imprensa não se restringiram à figura presidencial, estendendo-se a outras autoridades diretamente envolvidas no conflito. Pete Hegseth, que ocupava o cargo de chefe do Pentágono na ocasião, declarou em 19 de março que não havia um cronograma definido para o conflito e também teceu críticas à mídia. “A imprensa precisa falar a verdade. Nós estamos vencendo”, afirmou Hegseth, pedindo que os americanos “orem de joelhos” pelas tropas, em um contexto onde pelo menos 13 militares já haviam perdido a vida desde o início da guerra. Ele também criticou a cobertura da CNN, descrevendo-a como “ridícula” e expressando o desejo de que a emissora fosse controlada por David Ellison, aliado de Trump e CEO da Paramount, empresa que havia adquirido a Warner, controladora da CNN.
Durante o conflito no Oriente Médio, o Pentágono intensificou sua retórica e ações contra a imprensa. Em ao menos duas ocasiões, a entrada de fotojornalistas em entrevistas foi barrada sob o argumento de que eles haviam divulgado imagens consideradas desfavoráveis do secretário Hegseth. Ann Burnette, professora de comunicação da Universidade do Estado do Texas, destacou a peculiaridade da retórica de Trump. “Um dos aspectos mais marcantes da retórica de Trump sobre a guerra, em comparação com outros presidentes, é o seu desrespeito pelos sacrifícios daqueles que estão em perigo e daqueles em casa afetados pela guerra”, disse Burnette, ressaltando que, ao contrário de outros líderes americanos que cuidadosamente argumentam que tais sacrifícios são trágicos, mas necessários, Trump não tratava a questão com a mesma seriedade.
Antes mesmo do início da guerra, o Pentágono já havia tentado impor restrições à cobertura jornalística, exigindo que repórteres que cobrissem a pasta assinassem um termo se comprometendo a pedir autorização ao governo para publicar reportagens. Essa exigência foi veementemente rejeitada por grandes veículos de comunicação, que a consideraram uma afronta à liberdade de imprensa. Essas medidas se alinhavam a um padrão mais amplo de pressão sobre a mídia.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Ameaças da FCC e o Impacto na Democracia
Nas semanas seguintes, a reação negativa do governo contra a imprensa escalou para um nível ainda mais sério. Brendan Carr, diretor da FCC (Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos), ameaçou publicamente a revogação de licenças de emissoras em razão da cobertura da guerra contra o Irã. Em sua rede Truth Social, Carr publicou que “as emissoras devem operar no interesse público e perderão as suas licenças se não o fizerem”. Ele ainda afirmou que as emissoras divulgavam “boatos e distorções noticiosas” e alertou que deveriam “corrigir o rumo” antes da renovação de suas licenças. Esta não foi a primeira vez que a FCC sob sua direção ameaçou a imprensa. No ano anterior, o programa “Jimmy Kimmel Live!” foi temporariamente retirado do ar após Carr criticar falas do apresentador. Outro programa, “The View”, da ABC, também se tornou alvo de debate depois que Carr sugeriu que a FCC deveria investigá-lo pelo conteúdo político.
Em 2026, o apresentador Stephen Colbert usou seu programa para revelar que a CBS, emissora onde trabalhava, o havia impedido de transmitir uma entrevista com o democrata James Talarico, supostamente devido a orientações da FCC sobre a obrigatoriedade de igualdade de tempo de transmissão para os candidatos. Esse cenário gerou forte reação de especialistas. Para Tom Jones, analista de mídia do Instituto Poynter, uma organização dedicada à preservação da liberdade de imprensa, “Isso deveria ser uma grande preocupação para qualquer pessoa que se importe com a liberdade de imprensa e a democracia”. Jones alertou que esse tipo de ameaça “é o tipo de coisa que se vê em regimes autoritários”, e “não o tipo de coisa que se espera ver nos Estados Unidos”.
O objetivo dessas ameaças, segundo Jones, era claro: intimidar e amedrontar as emissoras. Acreditava-se que tal pressão poderia levar as redes de notícias a adotarem uma cobertura menos incisiva do governo. Para a administração Trump, o simples ato de ameaçar e forçar as emissoras a se defenderem já constituía um objetivo em si. O analista concluiu que esse tipo de postura governamental demonstra uma preferência por algo “parecido com uma televisão estatal, ou seja, reportagens que mostrem apenas os aspectos positivos e deixem de lado os negativos”.
Apesar das tentativas de usar a guerra como uma estratégia de distração, Donald Trump enfrentava um cenário de desaprovação pública crescente. Pesquisas recentes indicavam que ele registrava os níveis mais altos de impopularidade desde o início de seu mandato, com 58% de avaliação negativa, conforme levantamento do Ipsos/Reuters. A impopularidade da guerra também era evidente: 55% da população desaprovava os bombardeios no Irã, de acordo com pesquisa da Reuters divulgada na semana anterior, confirmando que a ofensiva não era bem recebida pelos americanos desde o seu início.
Burnette, da Universidade do Texas, sugeriu que a guerra poderia servir como uma “distração retórica” para questões domésticas que Trump preferiria ver com menos atenção, como o agravamento da crise do custo de vida nos EUA, as contínuas revelações dos arquivos do caso Jeffrey Epstein e as tensões políticas dentro do movimento “Make America Great Again” (Maga). No entanto, essa distração tinha limites. Os americanos já começavam a sentir no bolso o aumento dos preços da gasolina como resultado direto do conflito, o que impactaria o custo de vida de diversas formas. À medida que a guerra persistisse, se tornaria “cada vez mais difícil para Trump desviar a atenção das questões de custo de vida”.
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A relação conturbada entre Donald Trump e a imprensa durante a guerra no Irã sublinha os desafios enfrentados pela liberdade de expressão em cenários de tensão política. As manobras de comunicação, os ataques diretos e as ameaças a veículos de mídia, embora buscando controlar a narrativa, tiveram que lidar com a opinião pública desfavorável e o impacto econômico do conflito. Para mais análises sobre a liberdade de imprensa e as dinâmicas políticas, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Brendan Smialowski/AFP







