Preço do Ouro Desaba 22% Após Conflito no Irã e Desafia Tradição

Economia

O preço do ouro registrou uma queda surpreendente e significativa, desafiando a percepção comum de que o metal precioso atua como um refúgio seguro em períodos de instabilidade geopolítica. No início de 2024, o valor da onça-troy (equivalente a 31,104 gramas) em Nova York disparou de US$ 4.341,20 no final do ano anterior para um recorde de US$ 5.586,20 em 29 de janeiro. Contudo, essa trajetória de alta reverteu-se abruptamente, com o ouro desvalorizando-se para US$ 4.348,20 na mínima do dia em questão, uma retração que coincidiu com as notícias sobre a recusa do Irã em negociar um cessar-fogo com os Estados Unidos.

Esta desvalorização representa uma queda de 22%, ou US$ 1.238,00, desde seu pico, e acelerou-se notadamente após o início do conflito no Irã, em 28 de fevereiro. Desde então, o ouro já acumulou uma perda superior a 16% em relação à sua máxima anual. A inesperada baixa pegou grandes investidores de surpresa, contribuindo para as perdas de diversos fundos multimercados que haviam apostado na valorização do metal, motivados pelo enfraquecimento do dólar no cenário internacional e pelas preocupações com o crescimento da dívida pública em nações desenvolvidas. Atualmente, especialistas do mercado financeiro se debruçam sobre a análise para compreender as razões dessa repentina fraqueza do ouro e projetar sua tendência no médio prazo.

Preço do Ouro Desaba 22% Após Conflito no Irã e Desafia Tradição

Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset, explica que os preços do ouro atingiram um pico histórico no final de janeiro, marcando o início de um período de correção que se estende até o presente. Segundo Marques, o fluxo de compras por parte dos bancos centrais impulsionou a tendência inicial de alta, que foi posteriormente amplificada por movimentos especulativos de investidores. A ausência de novas sanções e, inclusive, a recente autorização do governo americano para negociações de petróleo russo no mercado, levaram o ouro a perder parte de seu brilho como um ativo de proteção contra conflitos geopolíticos. Além disso, a expectativa de uma redução nas taxas de juros americanas, que tradicionalmente favoreceria o ouro, foi adiada. O economista prevê que a correção deve persistir, podendo atingir o patamar de US$ 4.200, mas ressalta que a tendência de alta no longo prazo ainda permanece intacta.

Danilo Moreno, analista da Investo, aponta que a queda do ouro em março é particularmente surpreendente, pois, em teoria, o conflito no Irã deveria atuar como um catalisador para a busca por proteção no metal. No entanto, o cenário observado é quase o oposto: o próprio conflito está gerando pressão vendedora. Moreno detalha que produtores do Oriente Médio, com suas receitas de petróleo e gás severamente impactadas pela guerra, estão provavelmente liquidando ativos de alta liquidez, incluindo ouro e Treasuries americanos, para atender a necessidades imediatas de caixa. Ele descreve esse movimento como uma “venda forçada por necessidade de liquidez”, e não uma decisão de alocação estratégica de investimentos.

A essa dinâmica soma-se um segundo fator técnico crucial: o posicionamento especulativo em ETFs de ouro globalmente havia acelerado significativamente nos últimos três a seis meses, com o metal alcançando recordes históricos. Quando os preços iniciam um movimento de baixa, essas posições tendem a ser rapidamente desfeitas, criando um efeito cascata que amplifica a queda, conforme explica Moreno. Ele enfatiza que esse movimento de reversão especulativa teve um peso considerável em março. Adicionalmente, o cenário macroeconômico americano também contribui para essa pressão. Com o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, mantendo uma postura cautelosa em relação ao ritmo de cortes de juros e os rendimentos dos Treasuries voltando a subir (também impulsionados pelas vendas dos países do Oriente Médio), o custo de oportunidade de manter ouro, que não oferece rendimentos, aumenta.

Para Danilo Moreno, os elementos técnicos, como a desmontagem de posições especulativas, tendem a ser transitórios. Uma vez que o excesso de posicionamento é eliminado, essa pressão tende a se dissipar. As vendas forçadas pelos países do Oriente Médio também são, por natureza, pontuais, buscando atender a uma necessidade de caixa de curto prazo e não refletem uma mudança estrutural na visão sobre o metal. O componente dos juros americanos é o mais persistente no horizonte imediato, mas o próprio ciclo de aperto monetário tem um prazo para se encerrar, ele pondera. Olhando para o longo prazo, Moreno mantém a crença de que os fundamentos estruturais da demanda por ouro permanecem robustos. O crescimento dos gastos globais com defesa e a trajetória do déficit fiscal americano, agravada por juros mais altos, elevam os riscos da dívida soberana dos Estados Unidos e, a longo prazo, tendem a reforçar o papel do ouro como uma reserva de valor alternativa. Bancos centrais de países emergentes continuam a adquirir ouro consistentemente para diversificar suas reservas, diminuindo a dependência do dólar. Além disso, quando o crescimento da riqueza global se normalizar, particularmente no Oriente Médio e na Ásia, regiões diretamente impactadas pelo conflito atual, a demanda privada por ouro deverá retornar com força. A interpretação mais adequada do momento atual é de uma correção técnica dentro de uma tendência estrutural de alta, e não uma reversão de tendência, conclui.

O investidor brasileiro, hoje, tem acesso facilitado e eficiente ao mercado de ouro via bolsa de valores, eliminando a necessidade de adquirir o metal físico, lidar com custódia, armazenamento ou câmbio diretamente, aponta Moreno. Ele exemplifica com os fundos de índice (ETFs) lastreados em ouro e negociados em bolsa, como o GLDX11 da própria Investo, que oferece exposição direta ao preço do ouro em dólar, uma taxa de administração total de 0,55% ao ano e liquidez em dois dias úteis. Para aqueles que ainda não possuem ouro em suas carteiras, este ajuste de preços pode representar um ponto de entrada mais vantajoso do que as máximas recentes, avalia Moreno. No entanto, ele adverte que a entrada deve ser gradual, e não uma alocação concentrada de uma só vez, argumentando que faz mais sentido dada a possibilidade de volatilidade no curto prazo devido ao ambiente de juros elevados nos EUA. A inflação nos EUA, por exemplo, continua sendo um fator crucial para a política monetária global, influenciando diretamente as decisões do Federal Reserve.

Marcos Praça, diretor de Análises da Zero Markets, lembra que o ouro tradicionalmente serviu como proteção contra a desvalorização do dólar, movimento que se iniciou no ano passado, impulsionado pela expectativa de cortes nas taxas de juros e pela diversificação global. Contudo, o cenário mudou com o início do conflito no Irã, encontrando o metal já em um patamar de alta valorização. “O ouro já estava muito esticado, não tinha espaço para subir e aí houve um movimento de realização de lucros e uma corrida para o dólar”, explica Praça. Parte desse movimento também teve como objetivo aumentar a liquidez dos investimentos em dólar, visando aproveitar eventuais oportunidades que poderiam surgir com a queda das bolsas americanas. Houve ainda uma elevação nos juros dos títulos americanos, frente à expectativa de que a alta do petróleo pressionaria a inflação, exigindo taxas mais elevadas. “E quanto mais os juros americanos sobem, mais o investidor sai do ouro e vai para os títulos, até porque o ouro já estava muito caro”, afirma o analista.

Apesar da recente desvalorização, Marcos Praça mantém a crença de que a tendência para o ouro ainda é positiva no médio e longo prazo. Ele observa que o metal saltou de US$ 2 mil a onça-troy em 2024 para mais de US$ 4 mil atualmente. No entanto, no curto prazo, o ouro deve continuar a sofrer com os ruídos e a incerteza provocados pela guerra no Irã nos mercados. “A questão no curto prazo é quanto tempo vai durar o conflito, que parecia que ia acabar no início da semana e agora já se fala em tropas americanas no Irã”, ele relembra. Nesse cenário, a tendência do conflito é de piora no curto prazo, com o Irã reagindo com os poucos recursos restantes, o que poderia incluir o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques a outros países. “As coisas tendem a caminhar para uma solução, mas é difícil saber quando”, avalia Praça. Sua expectativa é que, uma vez encerrado o conflito, o ouro retomará seu papel de proteção contra o enfraquecimento do dólar. Assim, para ele, a compra do metal só faz sentido se o objetivo for a proteção de longo prazo para uma parte da carteira. No momento, o ideal é o investidor aproveitar a alta dos juros nos títulos de renda fixa, sejam prefixados, atrelados à inflação ou mesmo em LFTs, considerando que a Selic não deve cair tão rapidamente. Para aqueles que consideram aproveitar a queda atual para comprar ouro, Praça lembra da existência de vários ETFs de ouro negociados na B3, como o OURO11, AURO11, GOLD11, GOLX11 e o GOLB11. Esses ETFs flutuam de acordo com o preço do metal no exterior e a cotação do dólar em reais.

Robin Brooks, ex-estrategista-chefe de Moedas do Goldman Sachs, elenca em seu blog três razões principais para a recente queda do metal. Primeiramente, o aumento da base de investidores no início do ano atraiu participantes que tradicionalmente não operavam ouro, como hedge funds e investidores de varejo via ETFs, tornando o mercado mais sensível a movimentos de queda. Fenômeno similar ocorreu com outros metais preciosos, como a prata, que também sofreu perdas significativas. A segunda explicação reside na realização de lucros, já que muitos desses novos investidores optaram por embolsar os ganhos diante da crescente incerteza com o início da guerra no Irã. A terceira razão seria a necessidade de grandes investidores de cobrir posições alavancadas em outros mercados que registraram fortes quedas, como as bolsas, após o início do conflito. Como o ouro havia subido consideravelmente, foi um dos primeiros ativos a ser vendido para levantar caixa. Apesar desses fatores, Brooks reafirma sua visão de alta para a tendência do ouro, fundamentada no cenário de enfraquecimento das moedas em meio ao descontrole fiscal e ao forte endividamento dos governos de países desenvolvidos.

Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos

Em suma, a recente queda do preço do ouro representa um complexo interplay de fatores geopolíticos, técnicos e macroeconômicos, surpreendendo o mercado ao contrariar sua tradicional função de porto seguro. Enquanto a liquidação forçada e a desmontagem de posições especulativas impactam o curto prazo, a perspectiva de longo prazo para o metal permanece otimista, sustentada por fundamentos robustos. O investidor brasileiro tem à disposição ferramentas como os ETFs para acessar esse mercado. Continue acompanhando as análises e notícias sobre o setor de Economia em nosso portal para se manter atualizado sobre as movimentações que moldam o cenário financeiro global.

Crédito da imagem: DINO

Deixe um comentário