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Embaixador do Irã: Negociação EUA Irã é “piada mundial”

Internacional

A negociação EUA Irã é percebida como uma farsa pela população iraniana, que intensifica a pressão sobre seu governo para que não se renda às promessas de diálogo feitas pelos Estados Unidos. Essa avaliação foi feita nesta segunda-feira (30) pelo embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, em entrevista exclusiva concedida à Agência Brasil.

De acordo com o diplomata, o presidente norte-americano, Donald Trump, mantém um “diálogo consigo mesmo”, e a ideia de uma verdadeira negociação entre as duas nações já se transformou em “piada mundial”. A insistência de Trump em afirmar a existência de tratativas com um suposto novo regime iraniano, acompanhada de ameaças de ataques a infraestruturas de energia elétrica e petróleo caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz, foi um dos pontos criticados por Ghadiri.

Embaixador do Irã: Negociação EUA Irã é “piada mundial”

A opinião pública no Irã tem se manifestado de forma contundente, pressionando seriamente o governo iraniano a não se deixar enganar pelas propostas de negociação. Segundo Ghadiri, após a morte do líder supremo Ali Khamenei, pelos EUA, em fevereiro, seu filho Seyyed Mojtaba Khamenei ascendeu ao topo da estrutura de poder iraniana. Esta estrutura, além dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, inclui o Conselho dos Guardiões, composto por seis indicados do próprio Aiatolá Khamenei e seis indicados pelo Parlamento.

A Questão dos “Proxies” e o Eixo da Resistência

O embaixador também questionou a terminologia “proxies” (termo usado para grupos que agem em nome de um Estado) aplicada a grupos do Eixo da Resistência, como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen. Para Ghadiri, esses grupos são independentes e lutam por seus próprios interesses nacionais, buscando liberdade em seus respectivos países. Ele sugeriu que a questão de quem é “proxy” de quem deveria ser investigada mais a fundo, levantando a possibilidade de os EUA serem “proxy” do regime sionista, ou vice-versa.

Ghadiri exemplificou que o Hezbollah foi formado na década de 1980 em resposta à invasão israelense ao Líbano, forçando Israel a recuar para além de suas fronteiras. Da mesma forma, no Iraque, os grupos de resistência lutam para expulsar os americanos do país, após a invasão de 2003 que causou a morte de milhares de iraquianos. Na Palestina, a luta é pela defesa de seus territórios e população contra um regime que busca ocupá-los, mencionando a morte de mais de 70 mil pessoas pelo regime sionista nos últimos dois ou três anos. Para o diplomata, esses grupos não lutam por uma entidade externa, mas sim pelos seus próprios povos e nações.

O Ciclo de Conflito e a Postura Iraniana

A entrevista abordou a percepção iraniana sobre um ciclo vicioso de “guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra” imposto pela outra parte. Ghadiri relembrou dois momentos de negociação em que o Irã foi atacado: em junho de 2025, durante tratativas com os EUA, resultando na “guerra de 12 dias”; e uma segunda vez, durante negociações mediadas por Omã, onde um ataque iraniano ocorreu dois dias antes de discussões mais detalhadas. O embaixador enfatizou que nenhum país independente aceitaria tal lógica e que o Irã, diante das agressões criminosas sofridas, está determinado a responder para que o agressor cesse suas ações.

A seriedade da pressão popular é um fator decisivo. A população iraniana, segundo Ghadiri, está nas ruas, mesmo sob condições climáticas adversas, defendendo a soberania do país. Essa postura rechaça as tentativas de desestabilização e as expectativas de colapso do governo iraniano, como as manifestadas por Donald Trump. O embaixador ressaltou a resiliência do Irã, que há 47 anos, desde a Revolução Islâmica, enfrenta sanções ocidentais, pressões de assassinatos e terrorismo sem perder sua independência e poder nacional.

Danos Militares e Ataques a Instituições Civis

Questionado sobre a capacidade dos ataques iranianos em Tel Aviv, Abdollah Ghadiri afirmou que o regime sionista sofreu danos significativos. Ele reiterou que as ações militares iranianas são calculadas e aderem a padrões religiosos e de caráter, destacando que, mesmo durante a guerra de oito anos contra Saddam Hussein – que usava armamentos químicos fornecidos pelo Ocidente –, o líder supremo religioso iraniano da época não permitia retaliações que resultassem em massacres da população civil ou danos ao meio ambiente. Essa base de princípios humanos e religiosos molda as respostas iranianas, que, embora controladas, são descritas como poderosas e prejudiciais ao inimigo, cuja censura de informações impediria a divulgação da real extensão dos danos.

Embaixador do Irã: Negociação EUA Irã é “piada mundial” - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

O embaixador também denunciou os ataques de EUA e Israel a universidades iranianas, sob a alegação de uso para atividades de defesa. Ghadiri enfatizou a longa história educacional do Irã, lembrando a fundação da Universidade Jodhichapur há cerca de 1.800 a 2.000 anos, uma instituição que ele considera precursora do formato universitário moderno e cuja idade é “quatro vezes maior que a soma da existência dos EUA e do regime sionista”. O diplomata criticou o desprezo do regime sionista pela ciência, cientistas e universidades, colocando como alvos residências civis, fábricas e infraestruturas, o que, para ele, reflete uma situação militar desequilibrada.

Esses ataques a cientistas e universidades, paradoxalmente, evidenciam o avanço significativo do Irã nos campos científico e de pesquisa. O embaixador comparou a civilização iraniana a uma “árvore poderosa” com raízes de 7 mil anos, capaz de resistir a “ventos muito fortes”, permanecendo intacta e firme.

A complexidade da diplomacia internacional no Oriente Médio tem sido um tema de constante análise por especialistas e veículos de comunicação de alta credibilidade. Para aprofundar a compreensão sobre os desafios geopolíticos na região, é possível consultar análises em grandes portais de notícias. Saiba mais sobre a cobertura do Oriente Médio na BBC News Brasil.

Cobertura da Mídia Brasileira e Críticas à Linguagem Política

Abdollah Nekounam Ghadiri aproveitou a entrevista para expressar gratidão pela cobertura da mídia brasileira, que, em sua avaliação, tem mostrado o lado verdadeiro do conflito. No entanto, ele fez uma ressalva a “ações comunicativas que não são profissionais”, citando o editorial “Ninguém vai chorar pelo Irã”, publicado pelo jornal Estado de S. Paulo. Para o embaixador, tal postura, especialmente em tempos de guerra, fomenta ataques à população civil e é inaceitável, principalmente pela negativa em conceder direito de resposta, impedindo que o Irã apresente sua posição sobre o conteúdo do editorial.

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Em suma, a posição do Irã, articulada pelo embaixador Abdollah Nekounam Ghadiri, destaca a resistência popular e governamental contra o que é visto como uma ilusória negociação com os EUA, reafirmando a independência dos grupos do Eixo da Resistência e a resiliência iraniana frente a contínuas agressões. Para continuar acompanhando os desdobramentos da política internacional e as análises sobre o Oriente Médio, acesse a nossa editoria de Política.

Crédito da Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

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