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Canetas Emagrecedoras e a Economia Moral da Magreza

Saúde e Bem-estar

A crescente popularidade das canetas emagrecedoras, medicamentos subcutâneos voltados ao tratamento da obesidade, tem provocado intensos debates no cenário da saúde. Embora demonstrem efeitos notáveis e recebam o aval de diversas entidades médicas, a sua utilização inadequada, sem supervisão profissional, ou por indivíduos que não se enquadram nos critérios de obesidade, tem sido uma preocupação constante.

A discussão ganhou destaque recentemente no programa “Caminhos da Reportagem”, da TV Brasil, exibido na última segunda-feira, 27 de maio de 2026. Entre os especialistas entrevistados, a professora Fernanda Scagluiza, das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), abordou a questão sob uma perspectiva crítica, afirmando que o apelo desses medicamentos se origina na “economia moral da magreza”.

Canetas Emagrecedoras e a Economia Moral da Magreza

Conforme explica Scagluiza, a “economia moral da magreza” implica na atribuição de valores e significados sociais distintos a diferentes tipos de corpos. Um corpo magro ou “sarado” é frequentemente associado a virtudes como esforço, controle e disciplina, refletindo uma imagem de sucesso pessoal. Em contrapartida, um corpo gordo é estigmatizado socialmente, erroneamente ligado à preguiça, falta de vontade, indisciplina e outros estereótipos prejudiciais, como ausência de competência ou higiene, que não correspondem à realidade das pessoas. Essa dinâmica cria um cenário de desigualdade social, onde indivíduos com corpos que se encaixam nos padrões dominantes desfrutam de privilégios em esferas como trabalho, educação e relacionamentos, enquanto pessoas gordas enfrentam perda de direitos e opressão.

Padrões Estéticos e a Exclusão Social

Os padrões de beleza, que existem há séculos e evoluem com o tempo, são um elemento central nessa “economia moral”. Scagluiza ressalta que a imposição de qualquer padrão – seja de magreza extrema, “magreza saudável” ou super musculatura – inevitavelmente exclui uma vasta parcela da população que não se enquadra. O propósito, em muitos casos, é justamente criar essa exclusão para alimentar uma indústria multimilionária, pronta para oferecer soluções para o “problema” da não conformidade. Essa busca por um ideal inatingível mantém as pessoas em um ciclo de consumo e insatisfação corporal.

A especialista argumenta que a sociedade atual vive um momento em que “nunca se é magro o suficiente”. Ela usa a expressão “toda gordura será castigada” para ilustrar a pressão incessante. Embora as pessoas com maior peso corporal sejam as mais afetadas por um sistema de violência conhecido como gordofobia, sofrendo humilhação, opressão e perda de dignidade, a pressão estética pela magreza atinge também aqueles que não são considerados gordos. A intensidade dessa pressão varia conforme o local, gênero e classe social, com mulheres geralmente mais impactadas. Hoje, a percepção é que qualquer mínima gordura é vista como um defeito a ser corrigido, frequentemente através de soluções farmacológicas.

A medicalização do corpo saudável para atender a padrões estéticos é um fenômeno que Scagluiza observa com preocupação. Trata-se da transformação de questões sociais em problemas médicos. A alimentação, por exemplo, um fenômeno sociocultural e ancestral, passou a ser vista como uma mera fonte de nutrientes ou até mesmo um “remédio”. Em vez de desfrutar da comida, as pessoas a abordam de forma excessivamente técnica. Com o advento das canetas emagrecedoras, essa tendência se intensifica. Estudos indicam que usuários desses medicamentos chegam a se referir a eles como uma “vacina contra a fome”, transformando uma necessidade biológica fundamental em algo opcional.

Impactos na Saúde Mental e Comportamentos de Risco

Os efeitos dessa medicalização são alarmantes. Scagluiza relata comportamentos perigosos em usuários das canetas, como a restrição alimentar radical, onde alguns chegam a “usar” efeitos colaterais como náuseas ou vômitos como um meio para evitar comer. Frases como “foi esse o jeito que eu achei de fechar a boca num nível radical para conseguir emagrecer” evidenciam uma relação destrutiva com o corpo e a comida. Essa abordagem pode ter consequências graves para a saúde física e mental, desvirtuando rituais sociais e o aspecto simbólico da alimentação, que é um direito humano essencial e fundamental para o bem-estar e a proteção contra diversas doenças.

Canetas Emagrecedoras e a Economia Moral da Magreza - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

A professora alerta ainda para um possível retrocesso nos avanços da positividade corporal. Houve um período, a partir dos anos 2010, em que movimentos sociais tentaram promover a diversidade corporal, embora com conquistas limitadas, como a inclusão de modelos plus size que ainda se encaixavam em certos padrões. No entanto, a “febre das canetas emagrecedoras” parece reverter essa tendência, abrindo caminho para o retorno de um padrão de magreza extrema. Há relatos de modelos de passarela, já consideradas “tamanho zero”, que necessitam de ajustes nas roupas por estarem ainda mais magras, criando um cenário de risco, especialmente para crianças e adolescentes, altamente influenciáveis por esses ideais. Este cenário é perigoso em um país onde a obesidade é um desafio de saúde pública, conforme dados do Ministério da Saúde, que mostra a complexidade do tratamento e prevenção.

Mulheres, Lutas Sociais e o “Sedativo Político”

Para as mulheres, esse contexto é particularmente preocupante. Em um período marcado por avanços conservadores na política e na sociedade, a preocupação excessiva com o corpo e a busca pela magreza extrema podem funcionar como um “sedativo político”. Em vez de focar nas lutas essenciais contra o machismo, o feminicídio e o patriarcado, as mulheres são desviadas para questões estéticas, como o tamanho da barriga ou o caimento de uma roupa. Scagluiza argumenta que essa distração serve aos interesses de movimentos retrógrados e agressivos, enfraquecendo a capacidade feminina de engajamento em causas sociais mais amplas e urgentes.

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Em suma, a popularidade das canetas emagrecedoras, apesar de seu potencial terapêutico legítimo, levanta questões complexas sobre padrões de beleza, medicalização e saúde pública. A análise da professora Fernanda Scagluiza destaca como esses medicamentos podem inadvertidamente reforçar uma “economia moral da magreza” prejudicial, com impactos significativos na saúde mental, nos comportamentos alimentares e nas lutas sociais, especialmente para as mulheres. Para aprofundar-se em outras análises sobre saúde e sociedade, convidamos você a explorar mais conteúdos em nossa categoria de Análises.

Crédito da imagem: Receita Federal/divulgação

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