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Corrupção e Economia em Queda Ameaçam Milei na Argentina

Economia

O governo do ultraliberal Javier Milei na Argentina atravessa seu período mais crítico desde que assumiu a Casa Rosada. A gestão enfrenta uma combinação desafiadora de escândalos de corrupção, uma notável queda nos índices de aprovação pública e uma retração significativa na atividade econômica e industrial do país vizinho.

Inicialmente vista como um triunfo da administração de Milei, a inflação, que havia diminuído consideravelmente, voltou a demonstrar aceleração. Após um período de sucesso em que a inflação mensal foi reduzida de patamares de dois dígitos, observados no final de 2023, para aproximadamente 2% ao mês ao longo de 2025, os indicadores de preços registraram um novo aumento. Esta elevação se manifestou entre o final do ano passado e o início de 2026, culminando em uma taxa de 3,4% em março deste ano.

Essa recente guinada nos índices inflacionários forçou o próprio presidente a reconhecer publicamente as adversidades econômicas, declarando em suas redes sociais que “O dado é ruim”. Essa admissão sublinha a complexidade dos

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, que vão além dos desafios fiscais e monetários iniciais.

Cenário Econômico e Análises de Especialistas

Paralelamente à recuperação da inflação, a economia argentina registrou uma retração de 2,6% em fevereiro, em comparação com janeiro. Esse dado contribui para uma queda acumulada de 2,1% nos últimos doze meses, evidenciando uma persistente desaceleração. A situação da produção industrial é particularmente preocupante, com uma baixa de 4% em fevereiro e um declínio acumulado de 8,7% no último ano, sinalizando dificuldades estruturais no setor produtivo.

O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Paulo Gala, analisou a estratégia econômica do governo Milei, descrevendo-a como “simplista” e insuficientes para reverter integralmente a difícil conjuntura econômica herdada. Segundo Gala, a confiança no peso, a moeda argentina, foi severamente abalada, levando a população a “dolarizar” contratos, um fenômeno comparável ao Brasil antes da implementação do Plano Real. Essa instabilidade monetária, argumenta o professor, faz com que a inflação retome a aceleração rapidamente. Além disso, a premissa de que a redução do tamanho do Estado resolveria os problemas econômicos é questionada por Gala, que afirma: “Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”.

A abordagem do governo Milei, focada na diminuição do aparato estatal, cortes de gastos e austeridade fiscal, visa controlar a inflação e revitalizar a economia. Contudo, Gala expressa ceticismo quanto à durabilidade deste plano, sugerindo a necessidade de medidas mais abrangentes, como a introdução de uma nova moeda. O economista também ressaltou a sobrevalorização do peso argentino, um fator que, em sua visão, tem provocado a desindustrialização do país. A respeito dessa questão, Gala declarou: “Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim. Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco que restou de indústria na Argentina”.

Para o especialista, a Argentina tende a aprofundar seu processo de desindustrialização, concentrando sua economia predominantemente no setor agroexportador de matérias-primas. Gala projeta um futuro incerto, sem descartar a possibilidade de um cenário de recessão e uma potencial nova crise cambial, agravada por uma substancial dívida em dólares. Atualmente, o país tem recorrido à contração de novos empréstimos junto a bancos internacionais, denominados em dólares, na tentativa de estabilizar o valor do peso argentino. Para uma compreensão mais aprofundada sobre a economia argentina, dados e análises estão frequentemente disponíveis em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Corrupção e Popularidade em Declínio

Além das dificuldades econômicas, uma série de denúncias de corrupção tem contribuído significativamente para a queda dos índices de popularidade do governo de Milei. Um exemplo proeminente é a investigação envolvendo Manuel Adorni, chefe de gabinete do presidente, por suposto enriquecimento ilícito. Adorni tem sido questionado sobre viagens de luxo e a aquisição e reforma de imóveis, cujos valores e estilos de vida seriam incompatíveis com sua renda declarada.

As pesquisas de opinião pública revelam um cenário preocupante para a gestão atual. Os índices de desaprovação têm superado a marca dos 60%, os piores resultados desde a posse de Milei em dezembro de 2023. Um levantamento da Atlas Intel, realizado no final de abril, indicou uma reprovação de 63% da figura presidencial, contrastando com uma aprovação de apenas 35%.

Corrupção e Economia em Queda Ameaçam Milei na Argentina - Imagem do artigo original

Imagem: infomoney.com.br

A corrupção e o desempenho econômico surgem como os fatores cruciais para a erosão da popularidade governamental. De acordo com a consultoria Zentrix, 66,6% da população avalia que a promessa de combate à “casta” – uma bandeira central da campanha de Milei – foi quebrada. A pesquisa aponta que a corrupção se estabeleceu como o principal desafio do país, superando inclusive o desemprego, a inflação ou os salários, mesmo entre aqueles que votaram no partido governista em 2025.

O cientista político argentino Leandro Gabiati, em entrevista à Agência Brasil, explicou que a eleição de Milei foi fortemente impulsionada por um discurso anticorrupção, que tem se desfeito ao longo de seu mandato. Gabiati afirma: “Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”.

Ao mesmo tempo, Gabiati reconhece que a população percebe o esforço do governo em reduzir a inflação. Contudo, ele pondera que os preços ainda registram aumentos significativos, com taxas anuais de “30% a 40%, é uma inflação importante. Reduzir demandaria mais esforço, tanto da sociedade, quanto do governo”, diz o especialista. Um ponto que tem beneficiado a administração Milei é a desorganização e a baixa aprovação da oposição. Gabiati comenta: “Isso aí quer dizer que o governo terá problemas na eleição presidencial de 2027? Isso é algo que ainda está muito longe no radar. O governo tem alguns problemas que terá que resolver agora, mas a oposição ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção política clara para o eleitor argentino”.

Aspectos Positivos e Relação com a Imprensa

Em uma nota mais otimista para o governo, a consultoria de riscos Fitch Rating elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B-, com uma perspectiva de estabilidade. Esta melhora reflete o reconhecimento das progressões na situação fiscal e na balança externa do país. Como consequência, a bolsa de valores de Buenos Aires registrou alta em 6 de maio. No entanto, o economista Paulo Gala mantém sua análise, ponderando que essa elevação não altera o panorama geral da economia argentina.

Em meio a este complexo cenário, o governo Milei tem direcionado críticas e ações contra a imprensa. No final de abril, foi imposta uma proibição de entrada de jornalistas na Casa Rosada, afetando aproximadamente 60 profissionais que cobriam o Poder Executivo em Buenos Aires. Emissoras foram acusadas de filmar áreas do edifício sem permissão, o que foi prontamente negado pelas empresas de mídia. Após a repercussão negativa e as críticas que apontaram a medida como uma violação da liberdade de imprensa, o governo reabriu a Casa Rosada para os jornalistas em 3 de maio, mas manteve restrições de circulação na sede do poder argentino.

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Os desafios que envolvem o governo de Javier Milei na Argentina são multifacetados, combinando instabilidade econômica, denúncias de corrupção e uma queda acentuada na aprovação pública. Para continuar acompanhando as nuances políticas e econômicas da América Latina, convidamos você a explorar outras análises e notícias em nossa editoria de Economia.

Crédito da Imagem: Agência Brasil

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