O nu metal, subgênero do rock que marcou os anos 1990 com sua sonoridade inovadora e atitude desafiadora, experimenta um ressurgimento notável no cenário musical. Em uma época dominada pelo pop açucarado na MTV, com artistas como ‘N Sync e Britney Spears, o nu metal emergiu nos Estados Unidos como um contraponto agressivo, caracterizado por homens empunhando guitarras pesadas, misturando rimas de hip-hop, vestindo conjuntos esportivos e bonés virados para trás.
A grafia estilizada, que significa “new metal” ou “metal novo”, logo ganhou notoriedade, embora também carregasse uma reputação “infame” entre as culturas que o inspiraram, principalmente o metal e o hip-hop, que por vezes viam o novo estilo com desconfiança. As peculiaridades de bandas como Slipknot, com suas máscaras aterrorizantes, Limp Bizkit, com os scratches de DJ entre as faixas, e Korn, com seus riffs pegajosos, inicialmente levaram muitos a crer que o gênero não passaria de uma febre passageira.
Nu Metal Ressurge: O Sucesso Inesperado de um Gênero Infame
Por um tempo, essa previsão parecia se confirmar. Contudo, a partir do início dos anos 2020, os refrões cativantes do nu metal começaram a viralizar em plataformas de redes sociais, injetando uma nova vitalidade em bandas que já consideravam seu auge uma lembrança do passado. Essa reviravolta foi expressa por Chino Moreno, vocalista do Deftones, em entrevista à rádio californiana KROQ no início deste ano, quando declarou: “Estamos maiores do que jamais fomos.” A recente passagem do Deftones pelo Brasil em março, no Lollapalooza, marcou a sexta visita da banda ao país, com mais de 30 anos de estrada, atraindo uma audiência que rivalizava com a da cantora novata Addison Rae.
O Deftones não está sozinho nessa onda de renovado sucesso. Outras bandas icônicas do gênero também têm retornado à América Latina com força total. Em 2025, o grupo armeno-americano System of a Down realizou cinco shows em arenas brasileiras, sendo três apenas na capital paulista. São Paulo foi igualmente palco das primeiras edições do Knotfest, festival criado pelo Slipknot em 2012, que aportou no Sambódromo do Anhembi em 2022 e no Allianz Parque em 2024, consolidando a presença do estilo.
Korn e a Emoção dos Fãs
Neste sábado, dia 16, o Allianz Parque novamente será palco do retorno do Korn, uma das bandas mais célebres do nu metal, que busca capitalizar essa nova fase de popularidade. Nilson Lima, um devoto do grupo desde os anos 2000, terá a oportunidade de ver a banda pela quarta vez, mas pela primeira vez em um estádio. Lima recorda uma experiência de 2010 no Credicard Hall (hoje Vibra São Paulo), onde o show do Korn estava “vazio”. “Pensei ‘caramba, a coisa tá feia, esse estilo que eu gosto está acabando mesmo'”, relembra. A paixão de Lima pelo gênero é tamanha que ele batizou seu filho mais novo em homenagem a Jonathan Davis, vocalista do Korn, e até entrou em seu casamento ao som da faixa “Falling Away From Me”. Seu primeiro contato com o nu metal foi por volta de 2002, ao ouvir “In The End”, sucesso do Linkin Park, no rádio. Em 2011, ele fundou a “Page Nu Metal” no Facebook para interagir com amigos sobre o ritmo e, em 2014, migrou a comunidade para o Instagram.
Houve um período, em que o nu metal era visto com desdém, quase como uma piada entre os metaleiros. Em uma entrevista de 2015 à revista Rolling Stone, o baixista do Rage Against the Machine, Tim Commerford, chegou a pedir desculpas jocosamente por ter inspirado o Limp Bizkit, banda que citava o grupo de Zack de la Rocha como uma de suas influências. O gênero também enfrentou momentos controversos que justificaram a ira de seus críticos, como o infame festival Woodstock 1999, onde Fred Durst, vocalista do Limp Bizkit, incitou a plateia já insatisfeita a iniciar um tumulto e destruir as estruturas do evento, episódio que inspirou dois documentários disponíveis na HBO e Netflix.
Além dos Estereótipos: Ativismo e Vulnerabilidade
Apesar da imagem por vezes negativa, muitas bandas associadas ao nu metal – um rótulo que nem todos os grupos acolhiam – quebraram estereótipos. O System of a Down, por exemplo, destacou-se por ser uma das bandas mais ativistas de sua geração, abordando questões como o genocídio armênio e a política colonialista dos Estados Unidos. O álbum de estreia do Korn, por sua vez, explorou as experiências pessoais de Jonathan Davis com homofobia e abuso sexual na infância, tudo isso envolto em uma sonoridade pesada que reverberou até mesmo no Brasil, influenciando o Sepultura em seu álbum “Roots”, lançado em 1996 e com claras influências do nu metal.
A vulnerabilidade emocional presente em muitas dessas bandas também chamou a atenção de Josh Fore e Diamond Rowe. Eles se conheceram no ensino médio em Atlanta e, anos depois, formaram o grupo Tetrarch. Com seus riffs marcantes e pesados, combinados com o estilo vocal enérgico de Fore, a banda foi uma das primeiras a sinalizar um possível renascimento do nu metal com o lançamento do disco “Freak” em 2017. Rowe, guitarrista da banda, enfatiza que “a gente nunca sentou e pensou, ‘ah, vamos ser uma banda de nu metal'”. Ela explica que a música “naturalmente gravitava para esses grandes refrões e sons mais tétricos. Essas bandas são bem pesadas e sombrias, mas as músicas são cativantes, do tipo que você consegue cantar de volta num show.”
A Nova Geração e as Mutações do Gênero
Em julho, o Tetrarch fará sua estreia no Brasil com um show no Hangar 110, na região central de São Paulo, beneficiando-se da crescente popularidade entre fãs mais jovens. Diamond Rowe atribui esse fenômeno à mentalidade da nova geração, que “gosta de misturar gêneros. Não existe mais aquilo de automaticamente virar a cara para algo só porque não é do gênero que você gosta. Eles estão abertos a ouvir de tudo. É por isso que você vê o nu metal voltando.” O ápice desse sucesso recente coincidiu com a pandemia, período em que se tornou comum encontrar faixas de Deftones e Korn como trilha sonora de vídeos curtos no TikTok. A “Page Nu Metal” de Nilson Lima, atualmente a maior página sobre o gênero no Instagram, acumula mais de 300 mil seguidores. “Quando eu publico algo sobre aniversários de álbuns, sempre vem uma galera comentando ‘nossa, eu tinha acabado de nascer’ ou ‘eu tinha dez anos nessa época'”, conta Lima.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Com essa nova onda de popularidade, o nu metal também gerou novas mutações. O gênero, que em sua forma original já incorporava fortes influências do hip-hop, tornou-se o ponto de partida para a sonoridade eclética de diversos artistas, desde o pop maximalista da dupla 100 gecs até o noise rock do grupo Chat Pile. No rap e trap, a presença do nu metal parece ser ainda mais duradoura, inspirando alguns dos maiores rappers do mundo a adotar uma estética sombria e um som lúgubre, conhecido como “rage”. No Brasil, expoentes como MC Taya, Kouth e Slipmami – cujo nome artístico é uma referência ao Slipknot, banda pela qual a rapper carioca Yasmin Pinto, de 25 anos, é fã desde a adolescência – abraçam essa influência.
Nu Metal no Rap e Trap Nacional
Slipmami, que começou a rimar por diversão em grupos de humor no Facebook no final dos anos 2010, eventualmente chamou a atenção do produtor Leo Justi, que produziu seu álbum de estreia, “Malvatrem”. Na última faixa do disco, “Membros Humanos”, ela rima sobre um instrumental de nu metal. Desde a infância, Slipmami admirava o álbum “Collision Course”, colaboração do Linkin Park com o rapper Jay-Z em 2004. Ela percebeu que poderia criar algo similar ao descobrir, na plataforma SoundCloud, rappers como Lil Peep e XXXTentacion, que mesclavam trap com gêneros como emo e metal. “Gosto muito dessa coisa do rage, dessa parada agressiva, desde criança gosto muito de filmes de terror. Gosto de partir dessa estética grotesca que, ao mesmo tempo, é emocionalmente densa”, afirma a rapper. “Eu gosto de colocar minha raiva feminina.”
Recentemente, essa nova vertente do rap alcançou o mainstream do hip-hop nacional. Os álbuns “Xtranho”, de Matuê, e “V3NOM Vol. 1: Eclipse”, de MC Lan, ambos lançados no final do ano passado, bebem dessa mesma fonte. Uma das faixas de MC Lan, inclusive, conta com a participação de John Dolmayan, baterista do System of a Down, sublinhando a integração entre os gêneros.
A onda de sucesso e as novas abordagens do nu metal injetam uma euforia renovada nos shows das bandas consagradas. Antes de sua chegada ao Brasil, o Korn se apresentou, na última sexta-feira, dia 8, em Santiago, para um de seus maiores públicos: 55 mil pessoas. No retorno da banda ao Chile após nove anos, a plateia acendeu sinalizadores e alguns fãs até cuspiram fogo. No Instagram, o guitarrista e fundador da banda, Brian Welch, expressou surpresa com a empolgação do público: “Me senti num Woodstock em 2026!”, exclamou, em uma clara alusão ao impacto duradouro do gênero.
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O retorno do nu metal demonstra a resiliência e a capacidade de reinvenção de um gênero que muitos consideravam superado. Para entender mais sobre a evolução de gêneros musicais e sua influência cultural, clique aqui e aprofunde-se na história do rock e seus subgêneros. O que antes era infame, hoje lota estádios e inspira uma nova geração de artistas e fãs. Continue acompanhando as últimas novidades e análises do cenário musical em nosso portal.
Crédito da imagem: Anthony Scanga / Divulgação







