O empresário Luciano Hang, da Havan, prevê uma “quebradeira” generalizada no varejo brasileiro caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas seja implementada. Expoente da direita no cenário empresarial, Hang tem sido um crítico vocal da medida defendida pelo governo Lula, alertando para impactos severos na economia e no mercado de trabalho.
A PEC em questão, que visa alterar as regras trabalhistas no país, já obteve aprovação na Câmara dos Deputados e agora aguarda apreciação pelo Senado Federal. A proposta tem gerado intenso debate entre empresários, trabalhadores e representantes de diversas entidades, com posições divergentes sobre seus possíveis efeitos práticos.
Luciano Hang prevê ‘quebradeira’ com fim da escala 6×1
Em um tom que mescla deboche e provocação, Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, sugeriu que o Congresso Nacional deveria, na verdade, aprovar a escala 4×3 – quatro dias de trabalho e três de descanso – e implantá-la “o mais rápido possível”. Para o empresário, “se for para quebrar o Brasil, que seja rápido”, argumentando que “coisa ruim tem que ser o mais rápido possível, não adianta você ficar sofrendo por muito tempo”. Ele chega a afirmar que “para acertar este país é só com uma desgraça. Então, que a desgraça seja instalada o mais rápido possível”, conforme declarações à Folha.
A Havan, com sua sede administrativa em Brusque, Santa Catarina, consolidou-se como uma das maiores redes de departamentos do Brasil. A empresa ganhou notabilidade, além de seu crescimento comercial, pelo apoio político de Luciano Hang a Jair Bolsonaro antes das eleições presidenciais de 2018. Atualmente, a rede conta com 191 lojas e mais de 25 mil funcionários. A 192ª unidade está programada para ser inaugurada em Taquara, Rio Grande do Sul, no próximo sábado (30). Em 2025, a Havan registrou uma receita líquida de R$ 13,7 bilhões e um lucro líquido de R$ 3,5 bilhões, demonstrando sua robustez no mercado.
Impactos Econômicos e a Projeção de Inflação
O empresário da Havan sustenta que a alteração no regime de jornada de trabalho imposto pela PEC resultará em um aumento significativo nos custos operacionais das empresas, estimando um acréscimo de 15% a 20%. Essa elevação, segundo ele, inevitavelmente será repassada ao consumidor final, gerando inflação e, consequentemente, corroendo o poder de compra dos salários. “Do couro sai a correia. Esses custos que vão ser colocados para a indústria, comércio e serviços serão repassados nos preços”, afirmou Hang. Ele conclui que “essa diferença de 15% a 20% vai para os preços. E a inflação vai comer o salário do cara, que vai ter que arranjar um segundo emprego para sobreviver”, reforçando sua preocupação com o cenário econômico.
Além das questões financeiras, Luciano Hang manifesta sua crítica generalizada às leis trabalhistas brasileiras, afirmando que “são feitas por pessoas que não gostam de trabalhar”. Ele exemplifica sua insatisfação com o artigo 386 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que garante às mulheres o direito a uma folga em domingo a cada 15 dias. Esta medida visa proteger as trabalhadoras, muitas das quais enfrentam jornada dupla devido a responsabilidades domésticas e familiares. É importante ressaltar que este direito, presente na CLT desde 1943, precisou ser ratificado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2023 devido ao descumprimento, especialmente após a reforma trabalhista de 2017. Para mais detalhes sobre as leis trabalhistas, pode-se consultar o Decreto-Lei nº 5.452 da CLT.
Em sua análise sobre o artigo 386 da CLT, Hang argumenta: “A Havan tem três turnos [de trabalho]. Há um tempo, inventaram que mulheres não podem trabalhar dois domingos em seguida. O que tu consegues com isso? Tu vais ter que contratar mais homens. […] Cada lei que não tem lógica, quem sofre é a própria pessoa para que foi feita a lei”. Ele encerra sua crítica com uma afirmação contundente: “Eu nunca vi, nesse país, tanto idiota para fazer leis burras”.
Visões Divergentes no Setor Empresarial e Sindical
Apesar das fortes críticas de Luciano Hang ao fim da escala 6×1 e às leis trabalhistas, o tema não é um consenso no setor empresarial. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) expressou uma posição contrária à de Hang, indicando que a principal dificuldade não está ligada a uma questão de gênero, mas sim à complexidade de adaptar as escalas de trabalho existentes. A entidade aponta que diversas escalas já vigoram em negociações coletivas, como 1×1, 2×1 e 2×2, referentes aos domingos de folga, o que complica a uniformização.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Do lado sindical, Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que representa cerca de 600 mil trabalhadores, discorda da visão de que seria impossível contratar mulheres no comércio com a extinção da escala 6×1. Patah enfatiza que certas funções no comércio, como caixa de supermercados, atendente e vendedora de loja de roupas femininas, são predominantemente ocupadas por mulheres, e que há uma demanda de consumidores por esse perfil. Ele classifica os argumentos contrários como “pequenos” diante da realidade do mercado.
Planos de Internacionalização e Envolvimento Político Futuro
Olhando para o futuro, a Havan projeta encerrar o ano com mais de 200 lojas e um faturamento bruto estimado em cerca de R$ 22 bilhões em 2025 – em comparação com os R$ 18,5 bilhões de receita bruta registrados no ano anterior. Luciano Hang tem planos de expandir a atuação da rede para o exterior, com uma viagem marcada para o Paraguai em junho, onde se encontrará com o presidente Santiago Peña. A visita tem como objetivo explorar oportunidades para a internacionalização da Havan, atraído pela “Lei de Maquila”, que oferece isenções fiscais e menores encargos trabalhistas, já tendo atraído outras empresas brasileiras como Lupo e Riachuelo.
O empresário expressou sua motivação para essa expansão: “O presidente Peña me ligou, o ministro dele me ligou, e acertei de visitar o Paraguai entre os dias 29 de junho e 1º de julho”, contou Hang. Ele complementou: “Eu não posso ser o último empresário a apagar a luz. Meus fornecedores já estão lá, meus amigos já estão morando lá. Vou visitar. Quero ver porque o Paraguai atraiu mais de 250 empresas brasileiras.”
No âmbito político, Luciano Hang, conhecido por seu forte apoio a Jair Bolsonaro em eleições passadas, mantém amizade com nomes como Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD). Contudo, ele descarta um envolvimento profundo em novas campanhas eleitorais por enquanto. Em 2024, Hang foi multado em R$ 85 milhões pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), acusado de coagir funcionários a votarem em Bolsonaro na disputa contra Fernando Haddad (PT).
Sobre seu engajamento futuro, o empresário afirmou: “Eu, agora com 63 anos, não tenho mais a disposição que eu tive quando eu tinha 55 anos para fazer tudo aquilo que fiz pelo [Jair] Bolsonaro. Não tenho mais o ímpeto de entrar de cabeça numa campanha eleitoral como eu já fiz, até porque eu estou muito dedicado às nossas lojas e à minha responsabilidade com os nossos 25 mil colaboradores”. Ele conclui que, por não ser político, será “mais cometido neste ano”, focando nas suas responsabilidades empresariais.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
A complexidade das leis trabalhistas e seus impactos econômicos continuam a ser um tema central no debate nacional. A visão de Luciano Hang reflete a preocupação de parte do empresariado com os custos e a operacionalização de novas regras. Acompanhe as últimas notícias sobre economia e política em nossa editoria para se manter informado sobre esses e outros desdobramentos relevantes para o cenário brasileiro. Para mais conteúdos exclusivos e análises aprofundadas, visite nosso portal Hora de Começar.
Crédito da imagem: Divulgação/Havan







