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Comunicação Interna: Estratégias Essenciais Contra Desinformação

DP E RH

Na era digital contemporânea, as organizações enfrentam um imperativo crescente: salvaguardar sua reputação e proteger seus colaboradores e clientes do avanço da desinformação, das fake news e da infoxicação, que se refere ao excesso de informações. Para enfrentar esse cenário desafiador, as companhias devem adotar uma abordagem multifacetada, atuando em pelo menos três pilares fundamentais. É crucial estabelecer políticas internas robustas de governança de dados, fomentar programas de letramento digital e educação midiática para todos os membros da equipe e para a clientela, e instituir canais de comunicação que sejam transparentes e unificados, facilitando o acesso a dados verificados e confiáveis. Adicionalmente, essa blindagem corporativa exige um monitoramento proativo das redes sociais para identificar e neutralizar boatos em seus estágios iniciais, assegurando que a verdade e a clareza sirvam como alicerces da interação da marca com o público.

As complexidades da comunicação interna e os desafios de combater a desinformação foram temas centrais discutidos durante o 5º Fórum Empresas que Melhor se Comunicam com Colaboradores, evento que reuniu diversos especialistas do setor. As discussões aprofundaram-se em como as empresas podem navegar no ambiente digital saturado e garantir que suas mensagens sejam eficazes e bem-recebidas, sem gerar sobrecarga ou confusão para seus públicos.

Comunicação Interna: Estratégias Essenciais Contra Desinformação

A Sobrecarga de Informações e o Impacto na Produtividade

Um estudo conduzido pela Deloitte revela um dado alarmante sobre o ambiente de trabalho moderno: o profissional é interrompido, em média, a cada seis minutos, por alertas de ferramentas de colaboração. Essa constante interrupção impede o atingimento de um estado de fluxo e prejudica a produtividade profunda. Nesse contexto, a prática do que se denomina “silêncio estratégico” não representa uma omissão de dados, mas sim um respeito pela saúde mental e pela capacidade de processamento da equipe. Daniel Sena, gerente executivo de Comunicação, Cultura e Employer Branding no Mercado Livre, compartilha a perspectiva de que não é realista esperar que todos os colaboradores estejam plenamente informados sobre tudo a todo instante.

Sena explica que a solução encontrada por sua equipe no Mercado Livre envolve a criação de segmentações de público, o que viabiliza a implementação de comunicações altamente direcionadas. Ele enfatiza a necessidade dessa abordagem, considerando que o público da empresa abrange uma vasta gama de negócios e regiões geográficas, desde os Estados Unidos até a Ásia, tornando impossível uma comunicação massificada e ininterrupta.

O Papel Estratégico da Comunicação Interna na Filtragem de Conteúdo

Marcelo Cosentino, gerente sênior de Comunicação na Edenred, corrobora a importância de discernir o verdadeiro papel da comunicação dentro das organizações. Ele argumenta que tentar comunicar todas as informações para todas as áreas pode ser ineficaz e contraproducente. Cosentino ressalta que a comunicação deve priorizar o que é verdadeiramente relevante e ser guiada por estratégias claras sobre o “como”, “onde” e “porquê” de cada mensagem. “Conectamos com o que é mais importante”, resume ele sobre a missão de sua equipe. Em linha com essa visão, Juliana Annunciato, gerente de Comunicação Interna na Natura, destaca a necessidade de a comunicação interna atuar como um filtro, avaliando os pedidos de divulgação das diversas áreas. Essa curadoria é fundamental para a produtividade geral da empresa. Annunciato relata que busca dialogar com cada área solicitante, explicando as responsabilidades da comunicação interna, os públicos-alvo e os formatos adequados de divulgação, assegurando que as expectativas estejam alinhadas.

Lideranças como Pilares na Gestão da Narrativa Corporativa

Adevani Rotter, fundadora e presidente da Ação Integrada, oferece uma perspectiva crítica sobre o cenário atual, alertando que quando a comunicação oficial demonstra falhas em agilidade ou transparência, a informalidade inevitavelmente preenche essa lacuna, assumindo o controle das narrativas. “Estamos na era do descontrole das narrativas”, afirma Rotter, que defende a impossibilidade de tentar controlar o incontrolável. Em vez disso, ela propõe a implementação de uma política clara para a triagem de informações. Para Rotter, as lideranças desempenham um papel crucial, sendo os maiores influenciadores dentro da organização. Ao trabalhar em rede com esses líderes, é possível organizar as mensagens e empoderar a todos, tornando a liderança comunicadora uma peça indispensável para trazer clareza às estratégias da empresa.

Em complemento, Daniela Bertoncini Simões, consultora de Comunicação Interna e Responsabilidade Social na Boehringer Ingelheim, enfatiza que, em sua organização, a comunicação fomenta um ambiente onde os colaboradores são incentivados a ser protagonistas nos diferentes canais disponíveis. Ela também menciona a colaboração estratégica com as lideranças, que atuam na disseminação em cascata das comunicações. Gabriela Teixeira, especialista em Branding, Comunicação e Inovação no Banco Mercantil, argumenta que é necessário desmistificar o digital, cuja força se intensificou desde a pandemia. Segundo ela, muitas empresas buscam formalizar excessivamente os canais digitais, quando frequentemente a solução mais eficaz reside em reuniões presenciais ou online focadas com as lideranças. Teixeira aconselha a redução do número de canais em favor de uma maior proximidade humana, defendendo que a comunicação deve ser mais estratégica e menos “pastelaria”, ou seja, menos reativa a pequenas demandas que apenas contribuem para a infoxicação de e-mails e aplicativos de mensagens.

Desafios e Critérios para uma Comunicação Interna Eficaz

A Harvard Business Review aponta que a sobrecarga de informações irrelevantes pode levar a uma queda de até 25% na produtividade, devido ao tempo que os colaboradores gastam filtrando o que é realmente prioritário. O grande desafio, portanto, reside em compreender os limites entre o que constitui transparência e o que é meramente uma transferência de ansiedade. Marcio Cavalieri, sócio-fundador e co-CEO do Grupo RPMA, explica que a Comunicação e o RH sempre estiveram alinhados no objetivo de fazer a informação chegar às pessoas. Contudo, ele frisa que cada empresa e região possui realidades distintas, e nem toda ferramenta funciona universalmente. Cavalieri identifica a “infoxicação”, o excesso de informações, particularmente via redes sociais, como o principal obstáculo enfrentado pela comunicação interna atualmente, em um cenário de rápida mudança. Ele define o “filtro invisível”, tema central do painel, como a aplicação de critérios rigorosos na comunicação. A Harvard Business School, por sua vez, reforça que o excesso informacional pode impactar negativamente a produtividade e a motivação dos funcionários.

Anne Maezuka, gerente de Comunicação no Grupo Marista, adota como critério fundamental para a divulgação de informações a verificação de sua maturidade e a existência de responsáveis pelo fluxo. Ela também destaca o esgotamento dos colaboradores, frequentemente resultado de múltiplas jornadas de trabalho, citando como exemplo a realidade de enfermeiras nos hospitais Marista. Por isso, Maezuka enfatiza a necessidade de facilitar a vida das pessoas, evitando sobrecarregá-las com informações desnecessárias. A Transpetro, por sua vez, enfrenta um desafio singular na comunicação, dada a sua força de trabalho heterogênea de mais de 10.000 colaboradores e prestadores de serviços distribuídos por todo o território nacional. Lílian Rossetto, gerente geral de Comunicação Empresarial na Transpetro, aponta a demanda por uma comunicação robusta, inclusive para atender às comunidades. Ela destaca o volume expressivo de informações a serem segmentadas e o aspecto do “ego”, com muitas demandas de comunicação surgindo mais por vaidade pessoal de uma área do que por real relevância para o público.

Governança e Arquitetura da Comunicação Interna

A criação de normas para a comunicação interna não deve ser interpretada como a imposição de barreiras burocráticas. Michele Dantas, coordenadora de Comunicação na Eldorado Brasil Celulose, sintetiza essa ideia ao afirmar que “Governança não é burocracia, e sim clareza”. Segundo ela, ao estabelecer clareza sobre quem será comunicado, por qual canal e em que momento, a comunicação se fortalece e se torna uma ferramenta estratégica para os negócios. Estela Gurgel, gerente executiva de Comunicação Interna na Roche, faz um paralelo entre a missão da empresa na área da saúde e o propósito da comunicação, entendendo seu trabalho como uma consultoria vital. Sua atuação visa trazer direcionamento e conhecimento do que ocorre na empresa para todas as áreas e para a direção, reforçando a importância do propósito em cada interação comunicativa.

Renato Delmanto, executivo de Comunicação e Relações Institucionais, enfatiza que a Comunicação Interna deve operar em estreita colaboração com o RH. No entanto, ele ressalta a existência de “zonas cinzentas” que exigem a definição clara das responsabilidades de cada setor. É fundamental estabelecer o que compete ao RH comunicar e o que é atribuição da Comunicação Interna. Ao delimitar essas fronteiras, torna-se possível definir quem está apto a se comunicar com toda a empresa, garantindo coerência e eficácia. Danielle Toscano, coordenadora de Comunicação Interna no Senac RJ, destaca a importância de sensibilizar as lideranças para as questões relativas à comunicação interna. Pesquisas internas evidenciaram a preocupação com o excesso de informações, e o principal desafio identificado foi “como comunicar”. Atualmente, o Senac RJ concentra todas as notícias em uma newsletter semanal, direcionando o material para a intranet e assegurando um acompanhamento constante para medir a efetividade. José Luis Ovando, sócio-diretor de Estratégia e Atendimento na Supera Comunicação, questiona se a proliferação de canais significa, de fato, uma melhor comunicação, ou apenas um aumento do “barulho”. Para ele, ter muitos canais pode levar a empresa a “falar sozinha”. O cerne da questão não reside na quantidade de canais, mas na existência de uma “arquitetura” que organize todo o processo. Sem essa estrutura, a comunicação falha em construir uma cultura coesa, fragmentando a informação. O desafio, portanto, não é ter inúmeros instrumentos, mas garantir que haja direção e ritmo, e que as mensagens não apenas sejam geradas, mas também compreendidas.

Conhecer o Público: A Chave da Orquestração

“Orquestrar” é a palavra-chave, conforme Hugo Godinho, CEO da Dialog. Ele observa que a comunicação interna frequentemente se concentra em canais e ações fragmentadas, mas o mercado atual exige uma organização mais integrada e estratégica. A discussão não deve ser sobre qual canal é “melhor” ou “pior”, mas sim sobre identificar o canal “certo” para a “pessoa certa”, no “momento certo”. Godinho descreve o colaborador como o “grande maestro”, que dita o ritmo por meio de seu comportamento. Embora as empresas possuam objetivos de negócios claros, é imperativo que esses objetivos estejam alinhados com o que verdadeiramente engaja os funcionários. Rogério Louro, diretor de Comunicação Corporativa e RP na Nissan do Brasil, oferece uma recomendação fundamental: “Conhecer o seu público e saber como falar com cada um”. Ele enfatiza que uma abordagem uniforme não é eficaz; a comunicação precisa ser adaptada. Em algumas situações, a tecnologia pode ser a solução ideal, enquanto em ambientes como o “chão de fábrica”, um mural físico pode se mostrar o método mais adequado. Louro conclui que a comunicação interna pode ser simples, mas jamais deve ser simplória, ressaltando a importância da profundidade e relevância em cada interação.

Em suma, os debates no Fórum Empresas que Melhor se Comunicam com Colaboradores revelaram que, diante da desinformação e da infoxicação, a comunicação interna precisa ser estratégica, segmentada e centrada no ser humano. O uso inteligente de canais, a valorização das lideranças como multiplicadores e uma governança clara são fundamentais para garantir que as mensagens atinjam seus objetivos de forma eficaz e que a produtividade não seja comprometida. Para aprofundar-se em como a sobrecarga de informações afeta o ambiente corporativo, consulte análises da Harvard Business Review sobre gerenciamento da sobrecarga informacional.

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Foto: Gladstone

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