Após o pleito acirrado de 2022, a busca por eleitores indecisos ou aqueles que se situam fora das polarizações políticas representa um desafio central para os candidatos nas eleições correntes. O objetivo é mitigar a repetição de um cenário similar ao observado anteriormente. Nesse contexto, uma faixa específica do eleitorado tem se destacado progressivamente: o público com mais de 60 anos, cujo voto 60+ adquire relevância ímpar no tabuleiro político.
Um estudo recente conduzido pela agência Nexus, compilando informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela uma significativa expansão dessa fatia demográfica. Entre 2010 e o dia 1º de março de 2026, o crescimento observado nesse segmento foi de expressivos 74%, contrastando com um aumento de 15% no total geral de eleitores. Dados atualizados da Corte Eleitoral, referentes a junho deste ano, apontam que esse grupo engloba 36,5 milhões de indivíduos, configurando 23% dos 157,6 milhões de votantes aptos no país. Para mais informações detalhadas sobre o perfil do eleitorado e estatísticas eleitorais, é possível consultar o portal oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que oferece dados abrangentes sobre os votantes brasileiros.
Voto 60+: O Crescimento e Seus Impactos nas Eleições
Especialistas consultados para esta análise indicam que a ascensão numérica do público com 60 anos ou mais, somada às particularidades de seu comportamento eleitoral, impõe a necessidade de elaboração de estratégias de campanha distintas e direcionadas. Esse segmento demográfico exige uma abordagem singular que contemple suas vivências e expectativas, moldando a dinâmica da comunicação política.
Para Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), o ponto de partida essencial é compreender o contexto histórico e cultural que moldou a percepção desses eleitores. Diferentemente das gerações mais jovens, esse grupo tende a priorizar veículos de comunicação tradicionais. A propaganda eleitoral gratuita, veiculada em cadeia nacional de rádio e televisão, mantém-se como um meio de grande alcance e influência junto a essa audiência.
Apesar de muitos desses indivíduos terem acesso à internet e utilizarem plataformas de redes sociais, suas experiências e visões de mundo podem alterar significativamente a forma como os candidatos são percebidos e avaliados. Essa disparidade na maneira como jovens e eleitores mais maduros interagem com as propostas políticas é um elemento crucial para as campanhas que se desenrolarão este ano, conforme sublinha Carolina de Paula, doutora em ciências políticas e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
A tese de que “o horário eleitoral morreu” e “não significa mais nada” não se aplica a este perfil de eleitor, de acordo com a especialista. Carolina de Paula enfatiza que, para o público 60+, a programação televisiva e radiofônica continua sendo um canal vital de informação política. Outro aspecto relevante, que pode ser vinculado a essa análise, é o grau de escolaridade. “Como os eleitores mais velhos, com menor escolaridade, ainda acompanham a campanha? Provavelmente pela TV”, ressalta a professora.
A professora da ESPM também destaca a notável disposição desses eleitores em comparecer às urnas, mesmo após completarem 70 anos de idade, período em que o exercício do voto se torna facultativo. Conforme dados do TSE, essa faixa etária representa aproximadamente 10% do total de votantes aptos, equivalendo a cerca de 16,7 milhões de cidadãos.
Marco Teixeira avalia que um dos fatores que impulsionam essa vontade de participar do processo democrático reside nas vivências de muitos desses indivíduos durante períodos de restrição ao direito de voto, como a Ditadura Militar. Tal experiência forjou um profundo desejo cívico e um senso de dever. “Por conta desse fator geracional, de ter vivido uma transição de um regime autoritário para um regime democrático, o voto, nesse sentido, não é apenas um voto obrigatório, mas como um dever de civilidade também”, afirma o cientista político.
Em um cenário marcado por crescentes taxas de abstenção eleitoral, a acentuada propensão desse grupo a votar pode se configurar como um trunfo decisivo para desequilibrar disputas acirradas. Contudo, um desafio considerável para os postulantes a cargos eletivos será desenvolver métodos eficazes de comunicação com esses eleitores, adverte a professora Carolina de Paula. “Nesse ato dele querer continuar votando, ele quer que a mensagem e as políticas, não só as mensagens da campanha, mas as políticas públicas também, façam sentido para ele. Por isso eu imagino que a gente tenha que ver mais também propostas e campanhas específicas para esse segmento”, pontua a acadêmica.

Imagem: cnnbrasil.com.br
Demandas do Eleitorado 60+ e o Desafio das Políticas Públicas
Com o eleitorado 60+ conquistando uma posição cada vez mais proeminente entre os votantes, suas necessidades e reivindicações ganham maior visibilidade. A busca por candidatos dispostos a ouvir e incorporar essas demandas em suas plataformas é intensificada. Marco Antonio Teixeira aponta que “uma das grandes falhas de políticas públicas do país são as políticas públicas para o envelhecimento”. Ele acrescenta que “um dos grandes desafios em termos de pensar o futuro do país é pensar na aposentadoria, pensar em condições de vida para aquelas pessoas que estão saindo do mercado de trabalho”.
Os especialistas são unânimes ao indicar que os candidatos que demonstrarem real capacidade de escutar as vozes desses cidadãos e apresentarem propostas e campanhas alinhadas às suas preocupações têm grandes chances de angariar esses importantes votos. “O que a gente vê nas pesquisas é que as pessoas ainda reclamam muito, não se sentem contempladas, tanto em gestões do governo federal quanto nas questões estaduais, elas sentem falta disso. Então acho que quem vir, quem conseguir fazer essa leitura primeiro ou entender que é importante, vai montar estratégias para esse público e, se não fizer, é porque está perdendo oportunidade”, observa Carolina de Paula.
A Busca por Experiência e Visão de Longo Prazo no Voto Sênior
Apesar de expressarem que a idade dos candidatos não é um fator determinante, a professora Carolina de Paula indica que os eleitores mais velhos tendem a favorecer nomes com maior experiência política. Complementando essa perspectiva, o professor Teixeira destaca que o público com mais de 60 anos frequentemente se orienta por um panorama mais abrangente, para além das circunstâncias atuais, buscando candidatos que apresentem projetos de longo prazo para o país.
Para Teixeira, a demanda dos eleitores 60+ se concentra “muito mais pelo convencimento, é muito mais por argumentar e convencer que aquele é o melhor caminho”. Ele argumenta que, devido à sua trajetória de vida e formação, “as decisões eleitorais dele tendem a ser mais consistentes também”. Ao cativar esse segmento de eleitores, a tarefa do político é zelar pela manutenção da confiança, visto que demonstram uma tendência a apoiar seus candidatos por períodos mais extensos, exibindo menor volatilidade em seu voto.
O cientista político finaliza explicando que esse eleitor “vem de uma geração mais ideológica, não é que, portanto, mais consolidada em termos de pensar um país enquanto projeto e menos enquanto retrato, menos enquanto momento, não é? Então, sob esse aspecto, a tendência é que seja um eleitorado mais estável do ponto de vista da decisão de voto, ou seja, menos volátil”.
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Em suma, o crescimento e as características do voto 60+ nas eleições representam um fator de crescente importância para o cenário político brasileiro. A capacidade dos candidatos de compreender suas demandas, adaptar suas mensagens e apresentar propostas concretas para o envelhecimento da população será determinante para o sucesso nas urnas. Este segmento, com sua maior estabilidade e engajamento cívico, molda de maneira significativa o panorama eleitoral. Para aprofundar a compreensão sobre os movimentos e tendências que influenciam as decisões políticas no país, explore mais análises em nossa editoria de Política.
*Sob supervisão de Renata Souza







