Xamã Davi Kopenawa Alerta: ‘O Céu Não Cairá’

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Em um evento significativo em Belém, a pré-estreia do aclamado documentário “A Queda do Céu”, realizado por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, foi palco para as palavras contundentes do xamã Yanomami Davi Kopenawa. Autor do livro homônimo que inspirou a obra cinematográfica, Kopenawa abordou temas cruciais como o Território Indígena Yanomami, a rica cosmologia de seu povo e a incessante batalha contra invasores. Sua fala ressaltou a pressão histórica que os Yanomami enfrentam desde o primeiro contato com os não-indígenas.

A essência da mensagem do líder político e xamã yanomami reverberou com a impactante frase: “Enquanto estivermos aqui o céu não cairá”. Esta afirmação vai além de uma simples metáfora. Ela se refere tanto ao céu da cosmologia yanomami, uma dimensão mítica sustentada pelos xamãs para manter o equilíbrio cósmico, quanto à importância fundamental dos povos originários na mitigação e enfrentamento das severas mudanças climáticas. Estas alterações são, segundo ele, causadas pela ação dos “napëpë” – os estrangeiros ou não-indígenas na língua Yanomami – que, com suas práticas, ameaçam a harmonia do planeta.

Xamã Davi Kopenawa Alerta: ‘O Céu Não Cairá’

A primeira exibição pública nacional de “A Queda do Céu” ocorreu em uma noite de quinta-feira, 14 de novembro de 2025, dentro da programação da 10ª Mostra de Cinema da Amazônia. Este evento cultural, em sua décima edição, foi realizado em paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), conferindo um peso ainda maior à discussão sobre as questões ambientais e os direitos indígenas. A sessão, que teve lotação máxima, ofereceu ao público uma experiência imersiva na cultura yanomami, destacando imagens de tirar o fôlego e a representação do ritual de luto Reahu. O ritual foi performado após o falecimento do grande xamã, sogro de Kopenawa, que até então detinha a guarda dos profundos conhecimentos sobre a cosmologia e o xamanismo yanomami.

Kopenawa fez questão de recordar que o empenho dos Yanomami em preservar a floresta e contribuir para o equilíbrio global não é recente. Essa luta remonta à década de 1970, período em que a abertura da Perimetral Norte (BR-210) desencadeou uma série de invasões e ameaças diretas ao território. Com a partida do grande xamã, Davi Kopenawa assumiu o papel de guardião desse vasto conhecimento ancestral e, consequentemente, a liderança na defesa dos quase 28 mil yanomamis. Estes indivíduos habitam um extenso território que abrange os estados de Roraima e Amazonas no Brasil, estendendo-se até a fronteira com a Venezuela.

Refletindo sobre a magnitude de sua missão, Kopenawa expressou a singularidade de seu trabalho: “Vocês devem estar se perguntando como que o Kopenawa consegue fazer todo esse trabalho? É um trabalho diferente e a cultura da floresta é diferente, nossa língua é diferente, dança é diferente, canta, fazer uma festa, alegria. É sempre agradecendo e respeitando a Terra, onde nós nascemos e moramos e permanecemos.” Suas palavras sublinham a intrínseca conexão de seu povo com a terra, um vínculo que fundamenta sua resistência e sua visão de mundo.

Para o xamã, tanto o livro “A Queda do Céu”, que ele coescreveu com o antropólogo francês Bruce Albert, quanto o documentário homônimo, possuem o poder de disseminar a sabedoria indígena para um público mais amplo. Essa sabedoria, que oferece uma compreensão singular sobre o funcionamento do mundo, tem o potencial de unir indígenas e “napëpë” em um esforço conjunto para garantir a continuidade da vida humana no planeta. “Você é diferente, fala diferente, mas nós somos o mesmo ser humano”, enfatizou Kopenawa, em um apelo à unidade fundamental da humanidade.

A Força das Mulheres e a Produção do Documentário

A produção do documentário “A Queda do Céu” contou com a notável participação de uma equipe majoritariamente formada por profissionais yanomami. Eles não só contribuíram nas etapas de criação, fotografia, captação de som e em toda a parte técnica, como também foram essenciais na própria construção da narrativa. O diretor Eryc Rocha destacou que o processo foi orgânico: “Em nenhum momento a gente começou com o modelo pronto, o modelo narrativo pronto, ou com o filme preparado, mas descobrimos o filme nesse fluxo de energia, de vitalidade, de beleza, de potência, de tragédia também, nas conversas com o David, e todos os relatos.”

Entre os relatos que emergiram, a voz da artista e escritora yanomami Ehuana Yaira ressoou com particular potência durante a pré-estreia. Ela trouxe uma mensagem urgente e comovente das mulheres de sua etnia, denunciando graves violações de direitos. “Nós mulheres que temos os filhos nascidos no chão da floresta, quando os garimpeiros se aproximam da nossa terra, de nós mulheres, eles estupram nossas filhas, eles destroem a floresta e aliciam nossos filhos. Por isso, nós mães yanomami ficamos muito preocupadas.” A denúncia de Yaira sublinhou a brutal realidade enfrentada pelas comunidades indígenas, especialmente pelas mulheres e crianças, diante da invasão e exploração ilegal.

Para Davi Kopenawa, a verdadeira união entre povos só será alcançada quando os “napëpë” deixarem de representar uma ameaça concreta aos Yanomami, à floresta e ao próprio planeta. Ele defende que é imperativo respeitar a sabedoria ancestral e a profunda relação entre os povos indígenas e o meio ambiente. Kopenawa contrasta a sua própria forma de viver com a dos não-indígenas: “O meu lugar é a terra aqui onde a gente constrói a casa, na nossa raiz permanente. Branco não, ele fica quatro, cinco anos e depois vai para outro lugar. Nós cuidamos de onde nós nascemos. Vocês entendem isso?”, questionou, evidenciando a diferença na percepção de pertencimento e responsabilidade com o território.

A pré-estreia do documentário marcou a abertura oficial da 10ª Mostra de Cinema da Amazônia, que se estendeu até 21 de novembro de 2025. O evento promoveu a exibição de diversos títulos nacionais, além de debates e painéis focados no tema central da urgência climática. Com entrada gratuita, as exibições ocorreram em importantes instituições culturais de Belém, como o Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, o Museu da Imagem e do Som do Pará, o Cine Líbero Luxardo e o Cine Sesc Ver o Peso.

Eduardo Souza, produtor cultural e idealizador da mostra, revelou que a iniciativa é parte de um projeto cultural mais amplo, com duas décadas de existência. Este projeto já circulou por 26 cidades brasileiras e teve alcance internacional, passando por países como França, Alemanha, Portugal e Guiana Francesa. “É uma mostra que já exibiu mais de 400 filmes, já atingiu mais de 50 mil pessoas e está bem consolidada”, afirmou Souza. Ele também destacou a evolução da mostra ao longo dos anos, que ganhou um caráter cada vez mais educativo, social e inclusivo, expandindo-se das salas de cinema para comunidades, escolas e territórios indígenas. Entre os convidados de destaque desta edição, estiveram nomes como as ativistas Txai Suruí e Neidinha Suruí, a mãe de santo Mametu Nangetu, o cineasta Takumã Kuikuro e a pajé Zeneida Lima.

Souza concluiu que o objetivo da mostra é direcioná-la progressivamente para um viés social, com foco na formação de público a partir de jovens e crianças. “É trazer uma percepção sobre o cinema muito além do entretenimento, como uma arma política, um instrumento de transformação e dentro da COP30 está sendo perfeito”, finalizou, ressaltando a relevância da arte cinematográfica como ferramenta de conscientização e mudança social. A plataforma indígena e de comunidades locais das Nações Unidas, por exemplo, destaca a importância dos povos originários na ação climática global, um tema diretamente abordado pelas reflexões de Davi Kopenawa.

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A pré-estreia de “A Queda do Céu” e as palavras do xamã Yanomami Davi Kopenawa em Belém reforçam a urgência de se valorizar a sabedoria ancestral e a luta dos povos indígenas na proteção do planeta. Este evento cultural, em sintonia com a COP30, sublinha que o respeito às culturas originárias é intrínseco à sustentabilidade ambiental e social. Para aprofundar seu conhecimento sobre os desafios e as propostas que moldam o cenário político e social do Brasil, continue acompanhando as notícias e análises em nossa editoria de Política.

Crédito da imagem: Elza Lima/10a Mostra de Cinema da Amazônia