A Caminhada do Silêncio em São Paulo realizou sua sexta edição na capital paulista neste domingo, 29 de março. O evento, que homenageia as vítimas de violência do Estado, concentrou centenas de pessoas com o objetivo de relembrar os crimes da ditadura militar e protestar contra a continuidade das violações aos direitos humanos no presente.
A concentração teve início às 16h, em um local de forte simbolismo histórico: o antigo prédio do DOI-Codi/SP, situado na rua Tutóia. Este endereço abrigou um dos mais notórios centros de repressão e tortura durante o período da ditadura militar brasileira, que perdurou de 1964 a 1985, tornando-se um marco da luta pela memória e justiça.
O cortejo da **Caminhada do Silêncio em São Paulo denuncia violência estatal** partiu do antigo centro de repressão e seguiu pelas ruas da zona sul da cidade. O destino final foi o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, localizado no Parque Ibirapuera. A manifestação contou com escolta da polícia militar, que circulou entre os participantes do ato. A organização esteve a cargo do Movimento Vozes do Silêncio, uma iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, e reuniu familiares de vítimas, ativistas e diversos movimentos de direitos humanos.
Memória, Verdade e Justiça: Conectando Passado e Presente
Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, os organizadores da Caminhada do Silêncio enfatizaram a necessidade de não apenas recordar os crimes brutais cometidos sob o regime militar, mas também de expor a persistência das violências estatais que se perpetuam por décadas, mesmo após o processo de redemocratização do país. Este enfoque busca traçar um elo direto entre as violações históricas e os desafios contemporâneos.
Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, ressaltou a relevância de se debater os impactos da ditadura militar no cenário atual. Segundo Rodrigues, no imaginário coletivo, a ditadura é frequentemente percebida como um evento isolado e distante, cujas consequências teriam sido superadas. “O lema da caminhada traz essa discussão: tentar entender quais são os impactos do período da ditadura militar no presente, no período contemporâneo, pra gente pensar um pouco o futuro”, explicou, reforçando a urgência de fortalecer a democracia.
Rodrigues argumentou que a construção democrática atual ainda é insuficiente e não garante igualdade para uma parcela significativa da população. A Caminhada do Silêncio, nesse contexto, visa aproximar objetivamente o passado e o presente para o público. Uma das ferramentas cruciais para avançar no campo da memória, verdade e justiça, conforme ela destacou, é a implementação das recomendações formuladas pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).
Recomendações da CNV e o Legado da Impunidade
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) apresentou 49 recomendações ao Estado brasileiro, que, até o momento, foram cumpridas de forma parcial ou em pequena escala. O Instituto Vladimir Herzog monitora a execução dessas diretrizes a cada dois anos. A percepção é de que os avanços são limitados, “muito pouco perto do que as recomendações propõem para a sociedade”, conforme relatado por Lorrane Rodrigues.
Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, reiterou, por meio de nota, que a Caminhada do Silêncio surgiu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de apagar a história. Sotilli sublinhou que a ditadura militar deixou um legado de impunidade, que ainda hoje se manifesta na violência de estado enfrentada pelo país. Após cinco edições, o objetivo é revigorar o propósito original da manifestação. Sotilli afirmou: “Temos vivido tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições, mas seguimos enfrentando ataques graves contra a democracia. Por isso, este é o momento de dizermos que estamos na rua, de voltarmos a demonstrar nossa força”.
A iniciativa contou com a participação de mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos. Um dos pontos destacados pelos movimentos neste ano foi a tese defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a possibilidade de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos que envolvem crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres. Esta discussão representa um avanço potencial na busca por justiça para as vítimas e seus familiares.

Imagem: Paulo Pinto via agenciabrasil.ebc.com.br
Para entender melhor o contexto das recomendações da Comissão Nacional da Verdade e a busca por justiça no Brasil, é fundamental consultar fontes primárias. A Agência Brasil, por exemplo, publicou sobre a entrega do relatório da CNV, que detalha as medidas propostas para responsabilizar agentes estatais e garantir que tais violações não se repitam.
O Manifesto da Caminhada: “Nunca Mais”
Perto do término do evento, foi lido o manifesto da caminhada, que reforçou a mensagem central do ato. O texto declarou que o silêncio dos manifestantes não representa ausência, mas sim uma “presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer”. O manifesto traçou a jornada do protesto, desde o antigo DOI-Codi, um “lugar marcado pela dor onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias”, até o monumento que “insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas”.
Enfatizando que “nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência”, o documento ressaltou que “cada vítima de violência do Estado é permanência”. O manifesto articulou que a manifestação nasceu da urgência de resistir quando a democracia foi abertamente ameaçada, e que a caminhada continua porque a ameaça, embora transformada e reorganizada, persiste. “Nunca foi tão importante defender a democracia. E nunca podemos esquecer: essa luta é contínua”, afirmou o texto, fazendo um apelo a “Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história”.
O texto alertou que “sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete”. Declarou, categoricamente, que “a violência de Estado não ficou no passado” e que “lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror”. Concluindo com as firmes palavras: “ditadura nunca mais. Tortura nunca mais”, o manifesto se posicionou como um compromisso. Fez um chamado às “novas gerações”, à “sociedade civil” e às “instituições” para escolherem entre esquecer ou lembrar, entre repetir ou transformar, entre silenciar ou agir, afirmando que “resistir não é apenas lembrar o passado. Mas disputar o futuro”. O documento finalizou com a mensagem poderosa: “Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Seguiremos caminhando”.
Após a emocionante leitura do manifesto, os nomes das vítimas de violência de estado, tanto do período da ditadura quanto dos dias atuais, foram lidos em voz alta. A cada nome pronunciado, os manifestantes respondiam em coro uníssono: “presente”, reforçando o compromisso com a memória e a justiça.
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A 6ª Caminhada do Silêncio em São Paulo reafirmou a importância da memória histórica e da vigilância democrática. O evento serviu como um poderoso lembrete de que a luta contra a violência de estado e pela plena efetivação dos direitos humanos é contínua e exige o engajamento de toda a sociedade. Para aprofundar-se em questões de direitos humanos e debates sobre a memória histórica no Brasil, continue acompanhando nossa editoria de Política em horadecomecar.com.br.
Crédito da imagem: Paulo Pinto/Agencia Brasil







