Um novo estudo revela que o estoque de carbono no Cerrado, especificamente em suas áreas úmidas, é significativamente maior do que se imaginava, superando até mesmo a capacidade da Amazônia em alguns aspectos. Esta descoberta redefine a compreensão sobre o papel crucial do segundo maior bioma da América do Sul na regulação climática global.
Tradicionalmente, a Amazônia e outras florestas tropicais são amplamente reconhecidas como os principais pulmões do planeta e reservatórios naturais de carbono, atuando como barreiras vitais contra as crescentes mudanças climáticas. No entanto, uma pesquisa recente sugere que o bioma Cerrado, muitas vezes subestimado em sua capacidade de mitigação climática, possui um potencial de armazenamento de carbono subterrâneo extraordinariamente elevado, desafiando percepções anteriores e ampliando o escopo de atuação dos ecossistemas brasileiros na manutenção do equilíbrio ambiental global.
Uma pesquisa inovadora, cujos resultados foram divulgados na última quinta-feira na prestigiada revista científica New Phytologist, revela que as áreas úmidas peculiares do Cerrado — conhecidas como veredas e campos úmidos — são capazes de reter aproximadamente 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare. Esse volume representa uma densidade de carbono até seis vezes superior à média observada na vasta floresta amazônica. Este achado é um marco para a ciência ambiental.
Cerrado armazena mais carbono que Amazônia, diz estudo
A análise aprofundada proporciona uma nova perspectiva sobre a relevância deste bioma para o equilíbrio climático do planeta.
O empreendimento científico que culminou nesta importante revelação foi encabeçado pela pesquisadora Larissa Verona. A iniciativa contou com uma robusta colaboração internacional, envolvendo uma equipe multidisciplinar de cientistas de instituições de renome global. Participaram ativamente pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), do Instituto Max Planck (Alemanha) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, reforçando a credibilidade e o rigor metodológico do estudo sobre o estoque de carbono no Cerrado.
Este trabalho representa a primeira investigação detalhada e abrangente dos volumes de carbono contidos nos solos profundos das referidas áreas do Cerrado. Estudos prévios sobre o tema limitavam-se à análise de camadas superficiais do solo, geralmente entre 20 centímetros e um metro de profundidade. Essa limitação resultava em uma subestimação significativa do carbono total presente, chegando a distorcer os resultados em até 95%, o que destaca a importância da metodologia inovadora aplicada nesta nova pesquisa e o aprofundamento inédito na compreensão da capacidade de sequestro de carbono do bioma.
Aprofundando a análise, a pesquisa revelou não apenas a quantidade, mas também a antiguidade do carbono acumulado. Testes de datação por radiocarbono indicaram que o material orgânico encontrado nesses solos possui uma idade média de cerca de 11 mil anos, com alguns registros ultrapassando 20 mil anos. Essa longevidade sublinha um processo de acumulação extremamente lento e delicado, que levou milênios para se formar e representa um legado ambiental de valor incalculável, crucial para o entendimento da dinâmica climática pretérita e futura.
A pesquisadora Larissa Verona enfatiza a irreversibilidade desse processo de acúmulo em escala humana. “Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente, como ocorre com uma floresta que pode ser replantada”, alerta Verona. Essa declaração ressalta a importância da conservação dessas áreas, uma vez que a perda do estoque de carbono no Cerrado teria consequências ambientais de longa duração e difícil reparação, impactando diretamente o clima global por séculos.
O Cerrado, que se estende por aproximadamente 26% do território brasileiro, é reconhecido como o segundo maior bioma da América do Sul. Além de ostentar o título de savana mais biodiversa do mundo, ele desempenha um papel hídrico vital, abrigando as nascentes de cerca de dois terços das principais bacias hidrográficas do país, incluindo sistemas que contribuem para o grandioso rio Amazonas. Sua importância ecológica e biogeográfica vai muito além do que se imaginava, sendo um pilar fundamental para a segurança hídrica e a biodiversidade continental.
A coautora do estudo, pesquisadora Amy Zanne, detalha o mecanismo por trás dessa notável capacidade de retenção de carbono. “As condições úmidas dos campos e veredas criam falta de oxigênio, o que desacelera a decomposição de plantas e outros resíduos. Como resultado, a matéria orgânica se acumula ao longo do tempo e permite que esses ambientes armazenem grandes quantidades de carbono”, explica Zanne. Esse processo natural é fundamental para a formação do vasto estoque de carbono no Cerrado subterrâneo, atuando como um sumidouro natural de gases de efeito estufa.
Os cientistas alertam que a verdadeira relevância do Cerrado para a estabilidade climática global ainda é amplamente subestimada. “O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma ser incluído nos cálculos climáticos porque, até recentemente, não sabíamos que ele estava ali”, complementa Zanne. Essa lacuna de conhecimento significa que as estratégias de mitigação climática podem ter ignorado um componente vital, evidenciando a necessidade de reavaliar as políticas de conservação e os modelos climáticos.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Contudo, esse tesouro natural enfrenta sérias ameaças. A crescente expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas para diversos fins e a intensa retirada de água para irrigação figuram entre os principais perigos. Quando o solo dessas regiões é exposto ao ressecamento, o material orgânico acumulado se decompõe a uma velocidade acelerada, liberando dióxido de carbono e metano – gases de efeito estufa altamente potentes e principais impulsionadores do aquecimento global. É um ciclo perigoso que pode transformar um aliado na luta contra as mudanças climáticas em uma fonte significativa de emissões.
Rafael Oliveira, professor da Unicamp e um dos colaboradores da pesquisa, emite um alerta sombrio sobre as consequências dessa degradação. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, adverte Oliveira, ressaltando a urgência de uma mudança de postura em relação à conservação dessas áreas e a adoção de práticas mais sustentáveis no uso do solo.
A equipe de pesquisa também realizou medições que indicam um padrão preocupante nas emissões anuais de gases de efeito estufa. Cerca de 70% dessas emissões provenientes dos ambientes úmidos do Cerrado ocorrem durante a estação seca, período em que a perda de umidade do solo intensifica a decomposição orgânica. Com as projeções de temperaturas mais elevadas e períodos de seca mais prolongados, a tendência é que uma porção ainda maior do carbono armazenado no solo seja liberada nos próximos anos, agravando o cenário das mudanças climáticas e o efeito estufa.
O bioma Cerrado já experimenta pressões significativas e crescentes devido às alterações no uso da terra. Vastas extensões de suas áreas naturais estão sendo convertidas para a expansão da produção agrícola e da pecuária, um processo que frequentemente envolve a drenagem de áreas úmidas cruciais. A compreensão e proteção do Cerrado são vitais para a biodiversidade e o clima do Brasil, conforme reforça o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em seus esforços de conservação do bioma. Para mais informações sobre a importância ecológica e os desafios enfrentados por este bioma, consulte o portal oficial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Diante desses desafios, os autores do estudo defendem veementemente a ampliação das medidas de proteção para as áreas úmidas do Cerrado e um maior reconhecimento de sua função estratégica para o clima global. Embora a legislação brasileira já preveja a salvaguarda desses ecossistemas, as estimativas dos pesquisadores revelam uma realidade preocupante: até metade dessas áreas já sofreu algum tipo de degradação. Larissa Verona expressa a dura realidade: “Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício, porque o Brasil quer proteger a Amazônia, mas também quer manter a agricultura. Então, o agronegócio acaba convertendo o Cerrado para a produção de commodities”, destacando o dilema entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
A pesquisadora conclui com um apelo contundente: “O Cerrado também é fundamental por seus grandes estoques de carbono de longo prazo, e precisamos lutar para protegê-lo”. A mensagem é clara: o futuro do planeta e a mitigação das mudanças climáticas dependem, em parte, da nossa capacidade de proteger este bioma vital e seu inestimável estoque de carbono no Cerrado, garantindo um futuro mais equilibrado para as próximas gerações.
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Este estudo reforça a urgência de uma ação coordenada para a conservação do Cerrado, um bioma de beleza ímpar e importância ecológica inquestionável. Compreender e proteger o estoque de carbono no Cerrado é fundamental para a estratégia climática do Brasil e do mundo. Para aprofundar seu conhecimento sobre o papel crucial dos biomas brasileiros e a constante necessidade de sua preservação, explorando análises e estudos complementares, convidamos você a continuar navegando em nossa editoria de Análises.
Crédito da imagem: Rafael Oliveira/Unicamp







