A escalada da crise no Irã, com o aumento das tensões no Oriente Médio, está catalisando uma significativa aversão ao risco nos mercados globais. Investidores em Wall Street e ao redor do mundo estão reforçando suas posições em ativos tradicionalmente considerados ‘portos seguros’, como títulos do Tesouro americano (Treasuries), ouro e o franco suíço, em resposta à incerteza geopolítica.
Analistas e gestores, em diálogo com a Bloomberg, antecipam que a reabertura dos mercados de energia na segunda-feira, dia 2, será um termômetro crucial para o humor dos investidores, prevendo uma alta volatilidade nas primeiras negociações de dólar e outras moedas no continente asiático. Para aprofundar a compreensão sobre os mercados financeiros globais e suas interconexões, você pode consultar o portal da Bloomberg.
Conforme John Briggs, estrategista-chefe de juros para os EUA na Natixis, a predominante atitude dos participantes do mercado é de priorizar o ‘porto seguro’ antes de qualquer análise aprofundada da situação. A dimensão dos ataques e da resposta iraniana superou as expectativas iniciais do mercado, segundo Briggs, que prevê uma continuação da valorização dos Treasuries. Estes títulos já registraram na sexta-feira retornos de curto prazo nos patamares mais baixos desde 2022, evidenciando a busca por segurança.
Crise no Irã: Investidores Buscam ‘Porto Seguro’ em Wall Street
Um dos pontos de maior apreensão e vigilância global é o Estreito de Ormuz. Vizinhos do Irã, como o Catar, destacam-se como produtores globais cruciais de energia, e a região se configura como uma rota essencial para o fornecimento mundial de petróleo e gás. Bruno Cordeiro, da StoneX, ressalta que a principal preocupação atual reside na rota marítima via Ormuz, por onde transita aproximadamente 25% das exportações mundiais de petróleo embarcado. Dave Mazza, da Roundhill Financial, monitora intensamente o fluxo de navios neste estreito, enfatizando que “isso se refere ao risco de Ormuz, não à retaliação”. Ele acrescenta que, se o tráfego permanecer inalterado, os mercados de ações podem absorver o impacto; caso contrário, “todos os cenários se alteram”, indicando uma potencial reviravolta no panorama econômico global.
Ed Al-Hussainy, da Columbia Threadneedle, observa que as avaliações já elevadas em ações e crédito global contribuem para a facilidade com que o movimento de redução de risco se instala. O mercado já enfrentava pressões decorrentes de incertezas relacionadas a tarifas nos EUA, os impactos da inteligência artificial e riscos associados ao crédito privado. A extensão desse “de-risking” – a retirada de investimentos mais arriscados – é, em suas palavras, “um palpite de qualquer um”, sublinhando a imprevisibilidade da atual dinâmica de mercado diante da crise no Irã.
No domingo, dia 1º, o índice Tadawul All Share, da Arábia Saudita, chegou a registrar uma queda de quase 5% na abertura, mas conseguiu reduzir parte das perdas ao longo do dia, demonstrando certa resiliência após o choque inicial. No segmento de criptomoedas, o Bitcoin demonstrou recuperação, estabilizando-se em torno de US$ 68 mil. Contudo, essa recuperação foi acompanhada por uma forte procura por instrumentos de proteção, evidenciada pela concentração de opções de venda totalizando US$ 1,87 bilhão com um preço de exercício de US$ 60 mil na plataforma Deribit, indicando uma demanda latente por segurança.
Na sexta-feira, dia 28, o barril de Brent, referência internacional para o petróleo, já havia encerrado as negociações no maior patamar desde julho, refletindo as crescentes tensões. Paralelamente, o S&P 500 registrava uma retração de 0,4%, acumulando a maior queda mensal desde março. Estrategistas do Barclays, em nota, emitiram um alerta contra a pressa em “comprar a baixa”. Ajay Rajadhyaksha, do Barclays, escreveu que “os investidores se acostumaram a episódios geopolíticos que se resolvem rapidamente, mas este possui o risco de se prolongar”, citando potenciais baixas americanas, ataques à liderança iraniana e interrupções em Ormuz. Ele concluiu que “o risco x retorno não parece atraente. Se as ações recuarem o suficiente (algo como mais de 10% no S&P 500), pode surgir uma boa janela para comprar. Mas ainda não.”
Análise de Especialistas: Perspectivas sobre a Crise no Irã e Mercados
Outros analistas reforçam a cautela diante da crise no Irã. Kevin Gordon, da Charles Schwab, aponta o risco de um choque inflacionário de curto prazo se o petróleo sustentar uma alta, impactando negativamente o sentimento na Bolsa. Contudo, ele distingue entre “risco de manchete” e “risco de resultado”: se não houver um impacto substancial no crescimento e nos lucros corporativos, a correção nas ações pode ser passageira. Vincent Mortier, da Amundi, projeta, no curto prazo, uma valorização de 5% a 10% no preço do petróleo, queda nas taxas dos Treasuries, alta no ouro e um recuo moderado nas ações (cerca de 1%). Ele acrescenta que a situação serve como justificativa para uma realização de lucros em mercados que atingiram máximas históricas. Francis Tan, da Indosuez Wealth Management, antecipa uma abertura de mercados com gap de baixa na Ásia, Europa e EUA, com efeitos imediatos nos setores aéreo e de turismo, devido a fechamentos de espaços aéreos e cancelamentos de voos. Se a crise no Golfo se estender por alguns meses, ele prevê que o petróleo pode superar os US$ 100, o que reduziria as expectativas de novas altas de juros pelo Federal Reserve (Fed) em 2026, prejudicando principalmente ações de crescimento, especialmente as de tecnologia.

Imagem: infomoney.com.br
Gregory Faranello, da Amerivet Securities, acredita que a operação militar envolvendo o Irã possa durar algumas semanas, mas sem se prolongar por um período muito maior. Para ele, os Treasuries devem manter-se na faixa de negociação dos últimos anos, com potencial para queda de juros caso a demanda por ativos seguros aumente. No entanto, ele enfatiza que, em última instância, serão o Fed e a economia americana que ditarão a trajetória das taxas. “Esta operação no Irã não muda os fundamentos dos EUA”, afirma. Frank Monkam, da Buffalo Bayou Commodities, classifica o ataque ao Irã como um “catalisador quase perfeito” para uma correção em um mercado acionário já fragilizado, vislumbrando um aumento da volatilidade no curto prazo. Apesar disso, ele recorda que choques geopolíticos tendem a gerar quedas pontuais, não necessariamente mercados de baixa duradouros. A questão central, segundo Monkam, será o impacto de um possível choque de petróleo em uma economia que já exibe sinais de quase estagflação, um desafio significativo para formuladores de política econômica.
Rajeev de Mello, da Gama Asset Management, destaca que uma escalada prolongada entre EUA e Irã deve afetar os mercados emergentes principalmente através do petróleo. Com muitos países em desenvolvimento sendo importadores líquidos de energia, preços mais elevados tendem a deteriorar as contas externas, apertar a renda real e forçar os bancos centrais a escolher entre sustentar o crescimento ou controlar as expectativas inflacionárias. Joe Gilbert, da Integrity Asset Management, projeta uma liderança para os setores de energia, metais, imóveis (real estate), utilities e ações de defesa. Em contrapartida, o consumo discricionário tende a sofrer com o encarecimento do petróleo, impactando negativamente companhias aéreas e o varejo em geral, setores mais sensíveis aos custos de insumos e à renda disponível dos consumidores. Stephan Kemper, do BNP Paribas Wealth Management, antecipa que a renda variável operará substancialmente mais baixa no curto prazo, com o principal risco emanando do petróleo. Se os preços se mantiverem elevados por um período prolongado, isso pode frear o crescimento econômico e dificultar cortes de juros pelo Fed. Contudo, caso o impacto no petróleo seja limitado, ele enxerga quedas mais acentuadas como uma oportunidade de compra de longo prazo.
Madison Faller e Erik Wytenus, do JPMorgan Private Bank, alertam que os efeitos da crise podem se disseminar pela economia global e pelo sistema financeiro, com a energia no epicentro do problema, dada a relevância do Oriente Médio nos fluxos de óleo e gás. Mesmo a mera possibilidade de interrupção pode alterar custos de produção, preços ao consumidor, expectativas para a política monetária e o cenário de crescimento e inflação. Eles mantêm uma perspectiva construtiva para o ano, mas defendem a construção de portfólios mais resilientes, com exposição a ouro e setores considerados estratégicos por governos. Maxence Visseau, da Arkevium, prevê uma queda inicial de 5 a 10 pontos-base nos yields dos Treasuries, mas visualiza um panorama mais intrincado caso o petróleo dispare para US$ 80-90 com alguma interrupção no Estreito de Ormuz. Nesse cenário, a curva de juros pode voltar a se inclinar, com o mercado retirando do preço os cortes do Fed e abrindo os breakevens de inflação. O Fed já se encontra em um patamar de 3,5%-3,75%, com a inflação próxima de 3%. Um choque de energia torna o trabalho do banco central consideravelmente mais difícil e pode induzir um viés mais “hawkish” (de aperto monetário), avalia Visseau, indicando uma potencial elevação das taxas de juros.
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Em resumo, a crise no Irã está reconfigurando as expectativas dos mercados globais, com investidores priorizando a segurança em meio à incerteza. A evolução do conflito no Oriente Médio, especialmente no que tange ao Estreito de Ormuz e aos preços do petróleo, continuará a ser o fator preponderante para a direção dos ativos financeiros nas próximas semanas e meses. Acompanhe mais análises e desenvolvimentos econômicos em nossa editoria de Economia, para se manter informado sobre o impacto desses eventos no cenário global.
Crédito: 2026 Bloomberg L.P.







