A crise do petróleo no Sudeste Asiático emerge como um fator crítico, intensificando a pressão sobre as finanças públicas e elevando o risco de rebaixamento das classificações de risco da dívida soberana na região. O crescente ônus fiscal, gerado pelos vultosos subsídios destinados a mitigar o impacto da escalada dos preços dos combustíveis na população, está criando um cenário de preocupação para investidores e agências de rating. A assistência governamental, embora essencial para conter o descontentamento social, pode inadvertently acelerar um ciclo desfavorável de depreciação monetária e pressão inflacionária.
Recentemente, a Indonésia tem sido um epicentro visível dessa tensão. Filas extensas de motocicletas e automóveis, com esperas que superaram os 30 minutos, tornaram-se uma cena comum em postos de gasolina da estatal Pertamina, nos arredores de Jacarta. Essa situação generalizou-se pelo país nos últimos dias de março, alimentada por intensa especulação sobre um iminente aumento nos preços da gasolina. Em 31 de março, Prasetyo Hadi, secretário de Estado indonésio, emitiu um apelo por calma, garantindo que o governo não realizaria ajustes nos valores dos combustíveis e que não havia motivo para pânico entre os cidadãos.
Crise do Petróleo no Sudeste Asiático Ameaça Risco Soberano
A dependência da maior parte dos países do Sudeste Asiático em relação às importações de petróleo do Oriente Médio expôs a região a uma vulnerabilidade acentuada. A disparada global dos preços da gasolina, catalisada por eventos geopolíticos como os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, reverberou fortemente na economia local. Diante de uma infraestrutura de transporte público que, em muitas áreas, é considerada inadequada, o aumento dos custos dos combustíveis tem um impacto direto e significativo no cotidiano e na subsistência da população. Essa realidade levou, por exemplo, trabalhadores do transporte público filipino a deflagrar uma greve no final de março, sublinhando o descontentamento popular e a necessidade de intervenção governamental.
Em resposta à crescente pressão social e à ameaça de protestos generalizados, governos da região têm implementado políticas de subsídios. Nas Filipinas, o governo destinou um auxílio de 5 mil pesos (equivalente a aproximadamente US$ 83) para motoristas de táxi e ônibus. A Indonésia, por sua vez, emprega subsídios para manter o preço da gasolina comum em 10 mil rupias (cerca de 59 centavos de dólar) por litro. O Vietnã adota uma estratégia distinta, utilizando um fundo de estabilização de preços de combustíveis para segurar os custos da gasolina. O primeiro-ministro vietnamita, Pham Minh Chinh, já sinalizou a intenção de expandir esse fundo, capitalizando um esperado aumento de receita para o ano de 2025.
Essas medidas de contenção, embora socialmente necessárias, estão intrinsecamente ligadas a um processo de deterioração das finanças públicas dos países. Na Tailândia, por exemplo, os subsídios designados para controlar os preços do diesel resultaram em um aumento substancial, elevando o déficit de um fundo de combustíveis para alarmantes 42 bilhões de bahts (cerca de US$ 1,29 bilhão) até o final de março. Para cobrir essa lacuna, o fundo considera a possibilidade de contrair empréstimos que podem chegar a 20 bilhões de bahts, o que, se concretizado, poderia alavancar a dívida pública tailandesa. Atualmente, a dívida do país representa cerca de 66% do Produto Interno Bruto (PIB), aproximando-se perigosamente do limite legal estabelecido em 70%.
A Indonésia também enfrenta desafios fiscais significativos. Em março, Airlangga Hartarto, ministro de Assuntos Econômicos do país, estimou que um cenário com o preço do petróleo a US$ 97 por barril resultaria em um déficit fiscal de 3,5% do PIB. Este valor excede o teto legal de 3%, contrastando com a previsão anterior de um déficit de 2,7% do PIB. O governo do presidente indonésio, Prabowo Subianto, tem apresentado ambiciosos planos de gastos, incluindo a promessa de merenda escolar gratuita para 80 milhões de pessoas, o que adiciona outra camada de complexidade ao orçamento nacional.
As preocupações com um potencial relaxamento da disciplina fiscal reverberaram no mercado financeiro global. Em fevereiro e início de março, agências de classificação de risco de renome, como Moody’s e Fitch, reagiram ao cenário, rebaixando suas perspectivas para a Indonésia de “estável” para “negativa”. Aumentos adicionais nos gastos públicos, impulsionados pela manutenção dos subsídios aos combustíveis, poderiam amplificar o risco de um efetivo rebaixamento da classificação de risco soberano. Diante dessa perspectiva, o governo indonésio começou a considerar cortes orçamentários que ultrapassam os 100 trilhões de rupias, incluindo a redução do programa de merenda escolar para cinco dias por semana, como uma estratégia para conter o déficit crescente.

Imagem: Reprodução Nikkei Asia via valor.globo.com
Outra preocupação latente no Sudeste Asiático é a desvalorização generalizada das moedas locais. Essas moedas foram amplamente vendidas nos mercados internacionais após o aumento dos gastos governamentais e a percepção de maior risco fiscal. Em 31 de março, o peso filipino encerrou o pregão cotado a 60,748 por dólar, alcançando uma nova mínima histórica pelo terceiro dia consecutivo. A rupia indonésia também opera em torno de 17 mil por dólar, aproximando-se de sua mínima histórica. Paralelamente, os rendimentos dos títulos do governo de 10 anos atingiram cerca de 6,9% em meados de março, o nível mais elevado desde abril de 2025, indicando uma maior percepção de risco pelos investidores.
A significativa dependência de importações para alimentos e outros bens essenciais na região torna a depreciação cambial um vetor direto de inflação. A moeda mais fraca eleva o custo dos produtos importados, que é então repassado aos consumidores. Dessa forma, as tentativas governamentais de suprimir o descontentamento social por meio de subsídios aos combustíveis podem, ironicamente, exacerbar o problema da inflação, gerando um efeito contrário ao desejado no longo prazo. Este cenário remete a momentos históricos críticos, como o colapso do baht tailandês em 1997, que desencadeou a crise financeira asiática, abalando profundamente as economias do Sudeste Asiático.
Desde então, “os países têm feito progressos na consolidação fiscal e na expansão de suas reservas cambiais, aumentando sua resiliência a crises”, conforme observou Harue Shimato, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Estratégicos Globais da Mitsui & Co. No entanto, Shimato adverte que “ainda existe o risco de deterioração fiscal no curto prazo”, evidenciando que, apesar dos avanços, a situação atual da crise do petróleo e seus desdobramentos financeiros exigem vigilância e políticas macroeconômicas assertivas para evitar reversões nos progressos conquistados. Para aprofundar seu conhecimento sobre o cenário econômico global, consulte análises do Fundo Monetário Internacional.
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Em suma, a crise do petróleo está impondo desafios complexos e multifacetados às economias do Sudeste Asiático, testando a resiliência fiscal e a capacidade de gestão dos governos. A balança entre a necessidade de apoiar a população com subsídios e a imperativa de manter a disciplina fiscal e a estabilidade cambial é delicada. Para se manter atualizado sobre os desdobramentos econômicos e políticos na região e em todo o mundo, continue acompanhando a editoria de Economia.
Crédito da imagem: Valor Econômico







