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Fadiga da Autonomia no RH: Decisões Excessivas Geram Desgaste

DP E RH

A fadiga da autonomia emerge como um desafio significativo para o setor de Recursos Humanos, transformando o que deveria ser um motor de inovação e agilidade em uma fonte de exaustão e incerteza para os colaboradores. Embora a promessa de maior poder decisório seja frequentemente apresentada como um caminho para destravar a criatividade e alinhar as equipes com os objetivos estratégicos, a realidade em muitas organizações revela um cenário onde a delegação de autoridade ocorre sem a devida estrutura, limites claros ou critérios de suporte. O resultado é um ônus invisível sobre cada escolha, elevando o custo do erro e sobrecarregando os profissionais.

Empresas que transferem a responsabilidade decisória sem um desenho organizacional robusto correm o risco de terceirizar não apenas a escolha, mas também o risco inerente a ela. Quando faltam diretrizes sobre o impacto das decisões, a extensão da responsabilidade ou mecanismos de validação, os times ficam expostos às consequências de suas próprias ações. O acerto é visto como algo natural, mas o erro pode acarretar pressão, exposição e um significativo desgaste emocional, corroendo a iniciativa e fomentando uma cautela excessiva, além da busca constante por validação. Em ambientes onde a liberdade de decisão é irrestrita, a qualidade das escolhas tende a diminuir.

Fadiga da Autonomia no RH: Decisões Excessivas Geram Desgaste

Nesse panorama, a percepção do colaborador sobre sua própria atuação é alterada drasticamente. Decidir deixa de ser um ato de protagonismo e empoderamento para se tornar uma fonte de risco e vulnerabilidade, especialmente quando a amplitude do impacto de cada escolha não é clara, ou quando a tolerância ao erro não está bem definida. A incerteza quanto às repercussões leva à inibição da experimentação e da criatividade, sinalizando uma distorção do conceito original de empoderamento.

Natália Alves, vice-presidente global de Estratégia e Experiência de Talentos do Wellhub, detalha que a manifestação da fadiga da autonomia ocorre quando as organizações concedem poder de decisão, mas falham em fornecer as condições essenciais para que as escolhas sejam feitas com clareza, segurança e de forma sustentável. Esse desequilíbrio não se restringe apenas ao plano operacional; ele afeta diretamente a saúde mental das equipes, deslocando o foco da inovação para um estado contínuo de vigilância. A executiva ressalta que é impossível inovar ou ter alta performance sob tensão permanente, diferenciando assim a autonomia saudável daquela que é imposta de maneira incompleta, frequentemente confundida com um falso protagonismo.

A complexidade crescente do ambiente de trabalho tem contribuído para a explicitação desse fenômeno. A ascensão de modelos de trabalho híbridos, o ritmo acelerado das mudanças e a adoção de estruturas organizacionais mais horizontais resultaram na distribuição de um volume maior de decisões no cotidiano. A descentralização, muitas vezes vista como uma solução para agilizar processos, nem sempre é acompanhada da estrutura necessária. Natália Alves enfatiza que a liberdade decisória não deve ser equiparada à ausência de organização ou suporte.

Para mitigar a fadiga da autonomia, a resposta organizacional deve integrar a autonomia com princípios robustos de alinhamento, colaboração e suporte ativo. O Departamento de Recursos Humanos possui um papel estratégico na estruturação desses elementos, estabelecendo acordos transparentes sobre a decisão e a responsabilidade compartilhada. A autonomia, segundo a VP do Wellhub, transcende um simples traço cultural; ela representa uma capacidade organizacional intrínseca. A crença de que a mera confiança é suficiente, sem a devida estruturação dos processos decisórios, invariavelmente leva ao desgaste. No Wellhub, a autonomia é parte integrante da experiência do colaborador, mas é balizada por princípios claros de alinhamento e suporte, garantindo que a liberdade se converta em protagonismo saudável, e não em sobrecarga.

A inseparabilidade entre inovação e autonomia é um pilar do desenvolvimento corporativo. Conceitos como o “Think Different” da Apple pressupõem um ambiente que fomente a exploração de novas abordagens e o teste de caminhos alternativos. Contudo, esse potencial criativo não pode ser liberado sem as ferramentas e o suporte adequados. Luiza Rubio, diretora de People na Nomad, alerta que a fadiga da autonomia é uma consequência direta da ausência de parâmetros. A falta de referências claras intensifica o esforço decisório, transformando a responsabilidade em um custo mental oneroso. Isso culmina em indecisão, retrabalho, deterioração da qualidade e aumento do estresse, em vez de um verdadeiro empoderamento.

Concordando com a perspectiva de Natália Alves, Luiza Rubio observa que o agravamento desse cenário é acentuado pela descentralização impulsionada pelos modelos ágeis de gestão e pela dinâmica acelerada do mercado. O volume crescente de decisões diárias reduz o tempo para a maturação coletiva e, na ausência de uma estrutura de apoio equivalente, o que é denominado de empoderamento se torna uma mera transferência de carga para a linha de frente. Rubio reforça que a autonomia produtiva é contextualmente dependente. Elementos como estrutura, regras, suporte e priorização são cruciais para tornar a autonomia viável no cotidiano e prevenir que ela se converta em mais uma fonte de desgaste a ser gerenciada pelo RH. A diretora salienta a necessidade de um olhar sistêmico, onde empoderar implica fornecer contexto e delimitar contornos.

Essa abordagem permite identificar a origem do problema em uma engenharia organizacional deficiente, incapaz de interligar propósito, estratégia, liderança e cultura — os quatro pilares que, na visão de Luiza, sustentam e orientam as organizações. No dia a dia, a fragmentação dessas bases resulta em um poder de decisão desgovernado. O que se observa na rotina são desenhos organizacionais desprovidos de níveis decisórios claros, com critérios de prioridade ambíguos e regras de validação inconstantes, um cenário onde o improviso não é apenas parte do funcionamento, mas se estabelece como norma.

O impacto dessa disfunção reverbera em todas as esferas. Líderes delegam tarefas sem acompanhar os colaboradores ou oferecer a necessária proteção ao erro. Equipes operam sem fronteiras de risco bem definidas, gerando conflitos interdepartamentais, retrabalho e escalonamentos desnecessários. A cultura organizacional, que prega a confiança, falha em sustentar rituais de alinhamento ou segurança psicológica para a experimentação. Em última instância, a autonomia perde sua base estrutural. Luiza Rubio sintetiza que, com conexões intencionais, a autonomia é uma alavanca para a inovação; sem elas, ela se transforma em um custo cognitivo e um risco operacional significativo.

A essência do que sustenta ou desorganiza a autonomia dentro das políticas de RH não reside na intenção de descentralizar, mas na ausência de acordos estruturais. Quando os profissionais não compreendem os limites de sua atuação, suas decisões são tomadas com cautela excessiva. Natália Alves, do Wellhub, explica que a fadiga da autonomia desencadeia um efeito em cadeia, que vai da hesitação à paralisia, prejudicando o fluxo de trabalho em todas as áreas. A sensação de estar constantemente decidindo sem a clareza suficiente compromete diretamente o engajamento e o bem-estar dos colaboradores.

Sem critérios de prioridade definidos, tudo se torna urgente, e a direção das decisões se perde. Com limites de risco ambíguos e sem instâncias leves de validação, o campo de ação das equipes torna-se nebuloso, resultando na paralisação de certas escolhas. As lideranças, em vez de funcionarem como suporte, passam a ser apenas mais um ponto de cobrança. E, em culturas que penalizam o erro, a autonomia acaba por gerar medo em larga escala, minando qualquer impulso inovador.

No cenário ideal, Natália defende que a decisão não deve ser um ato isolado, mas um processo colaborativo, embasado em acordos entre os times, mecanismos explícitos de priorização e uma cultura que fomente o aprendizado contínuo. Sem esses pilares, a inovação torna-se inatingível. Inovar exige espaço para experimentar, testar hipóteses e ajustar percursos. Sem a proteção contra o erro e a segurança psicológica, a autonomia se resume a responsabilidade sem o devido apoio, pondera a executiva. Em sua visão, a fórmula para uma autonomia sustentável integra cultura, processos, liderança e governança, operando de forma coesa. Autonomia, portanto, não significa decidir sozinho, mas com alinhamento e responsabilidade compartilhada.

Não surpreendentemente, a discussão sobre a fadiga da autonomia está intrinsecamente ligada à saúde mental no trabalho. O desgaste psíquico é notório em ambientes onde o colaborador é constantemente obrigado a tomar decisões sem uma rede de proteção e sob crescentes pressões. A ausência de segurança psicológica, nesse contexto, pode levar ao adoecimento. Tatiana Soares Corrêa Machado, psicóloga e consultora técnica em Programas de Saúde Mental no Trabalho da Mental Clean, caracteriza esse quadro como um processo de desgaste cognitivo e psíquico, cuja origem reside na falta de sustentação organizacional. Não se trata de uma autonomia autêntica, aquela que expande o senso de controle e competência, mas de uma delegação incompleta de poder.

Do ponto de vista técnico, o fenômeno dialoga com o conceito de decision fatigue, amplamente estudado na psicologia cognitiva e cada vez mais relevante diante das ambiguidades do mundo corporativo contemporâneo. No entanto, não é somente o volume de decisões que sobrecarrega os colaboradores: Tatiana explica que a responsabilização excessiva, agravada pela punição do erro, intensifica o peso subjetivo de cada escolha. Quando as organizações delegam autonomia sem a devida estrutura, o que se institui não é controle, mas uma hiper-responsabilização.

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Imagem: melhorrh.com.br

Em outras palavras, em situações assim, o profissional é cobrado por resultados, prazos e impactos, mas não possui controle sobre as variáveis críticas do processo. Essa dinâmica, segundo Tatiana, mina o senso de eficácia do indivíduo, um dos principais fatores de proteção psíquica no ambiente de trabalho. A psicóloga observa que, em nome da agilidade, da inovação e da horizontalização, muitas empresas transferiram a responsabilidade pelas decisões para os colaboradores, mas mantiveram centralizados o poder real, os recursos e a definição das prioridades.

O resultado é um arranjo paradoxal: autonomia no discurso, mas solidão na prática. O profissional se vê autônomo para ser cobrado, mas isolado na hora de decidir. Essa condição leva a mente a operar em modo defensivo, canalizando energia para antecipar expectativas e evitar falhas, em vez de focar na resolução criativa de problemas. A autoproteção contínua culmina em quadros de ansiedade, exaustão e uma diminuição da capacidade de julgamento, abrindo caminho para o estresse crônico e a síndrome de burnout a médio prazo. Para saber mais sobre a importância da saúde mental no ambiente de trabalho, consulte os guias da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Se a mente adota um modo defensivo na ausência de suporte para decidir, parte da questão reside também na maneira simplificada, quase moralista, como muitas organizações e suas narrativas institucionais abordam o tema. Persiste uma leitura binária que equipara autonomia à confiança e controle à opressão. Esse raciocínio não apenas compromete a consistência da gestão de pessoas, mas também força o RH a escolher entre uma liberdade total ou um controle absoluto, negligenciando a construção de uma camada intermediária que tornaria a autonomia verdadeiramente produtiva.

Luiza Rubio, da Nomad, alerta para os perigos desse falso dilema, que transforma uma questão estrutural em uma polarização de extremos. A rejeição de qualquer forma de controle deixa as equipes sem parâmetros, expondo-as à sobrecarga decisória. Em contrapartida, um controle excessivo gera burocracia, inibe a experimentação e reduz a agilidade. Para ela, a maturidade reside em desconstruir essa dicotomia e qualificar o alinhamento, estabelecendo zonas decisórias claras, critérios de prioridade definidos, contornos de risco explícitos e mecanismos de validação eficazes. Ambos os extremos, conforme a diretora, impedem o amadurecimento da gestão, bloqueando conversas genuínas sobre escolhas e responsabilidades e dificultando o desenvolvimento de líderes aptos a equilibrar liberdade e proteção.

Na mesma linha, Natália Alves, do Wellhub, observa que opor autonomia e alinhamento empobrece o debate e resulta em decisões organizacionais equivocadas. O que realmente sustenta a autonomia, em sua visão, não é o vácuo decisório, mas a qualidade do alinhamento entre áreas e indivíduos, pautada por prioridades explícitas, comunicação transparente, segurança psicológica e clareza sobre os limites de atuação de cada um. A executiva argumenta que, ao interpretar qualquer estrutura como opressão, perde-se a oportunidade de edificar uma governança saudável. No Wellhub, a busca por velocidade e inovação é constante, mas a performance sustentável só se concretiza com o equilíbrio entre liberdade e suporte, defendendo a superação desse binarismo para um futuro do trabalho verdadeiramente inovador.

Sob a ótica da saúde ocupacional, Tatiana Soares Corrêa Machado adiciona que essa interpretação binária também distorce a compreensão técnica do problema. Evidências recentes da psicologia organizacional demonstram que a autonomia tem um efeito dual: pode ser um fator de motivação ou de exaustão, dependendo diretamente da forma como o trabalho é estruturado. Estudos sobre trabalho remoto e flexível, por exemplo, indicam que a autonomia percebida só gera benefícios em desempenho e satisfação quando acompanhada de um nível adequado de controle percebido — não como vigilância, mas como uma estrutura que organiza prioridades e delimita fronteiras. Indivíduos com alta autonomia, mas baixo suporte, são mais propensos a experimentar exaustão emocional e menor engajamento, evidenciando que a autonomia sem uma base de apoio institucional não é nem protetiva, nem eficaz.

Essa lógica se aplica diretamente ao fomento da inovação. Quando os colaboradores não sabem os limites de sua atuação ou como o erro será percebido e gerenciado, eles tendem a experimentar menos e, consequentemente, a aprender menos. Portanto, o que realmente sustenta a autonomia não é a ausência de controle, mas a presença de controles inteligentes e alinhamentos claros, capazes de guiar a ação sem sufocar a criatividade. Sem isso, a autonomia permanece apenas no discurso, enquanto o desgaste se manifesta no cotidiano das equipes. Esse tipo de leitura binária, inclusive, impede a evolução da própria gestão de pessoas, bloqueando a adoção de práticas mais maduras em decisão, liderança e governança.

Para que a autonomia genuinamente impulsione a inovação dentro das estruturas de RH, é necessário um redesenho organizacional mais profundo. Não se trata de meros ajustes, mas de uma reestruturação. Ambientes onde a autonomia funciona de fato não operam no improviso; eles possuem limites claros e combinados, além de processos compartilhados que a sustentam. Na visão de Natália Alves, do Wellhub, isso é um indicativo explícito de maturidade organizacional, pois a autonomia não é um valor abstrato, mas depende de princípios decisórios, contornos de responsabilidade, pontos de validação e, fundamentalmente, segurança psicológica. O RH assume um papel estratégico nesse desenho, assegurando que flexibilidade e bem-estar não sejam apenas promessas, mas práticas operacionais sustentáveis. O bem-estar não pode ser prescritivo, e a autonomia só gera produtividade e impacto quando as pessoas têm recursos, suporte e um ambiente de reconhecimento e valorização.

Na prática, as organizações que conseguem converter a autonomia em inovação não deixam a decisão ao acaso; elas organizam o próprio modo de decidir. Luiza Rubio, diretora de People na Nomad, descreve esse progresso como a transição da confiança genérica para uma verdadeira arquitetura decisória. Com maior maturidade, fica evidente quem decide o quê, com base em quais critérios, dentro de que faixas de risco e com quais pontos de validação. Nesse cenário, o RH assume um papel de orquestração, conectando a estratégia geral à capacidade decisória e à preparação das lideranças. Uma cultura que preza pela segurança psicológica, análises pós-ação sem culpabilização e rituais de aprendizado contínuo viabilizam a experimentação responsável. Isso implica estruturar níveis e políticas de decisão, capacitar líderes e equipes, e manter práticas de segurança psicológica no dia a dia, para que a autonomia se traduza em inovação e não em custo cognitivo.

Assim, quando esse desenho organizacional é efetivo, o impacto positivo se reflete diretamente na saúde mental das equipes. Tatiana Soares, da Mental Clean, explica que uma previsibilidade mínima no processo decisório atenua a ansiedade antecipatória e direciona a energia cognitiva para o que realmente importa: criar, testar e executar. Nesse contexto, o RH transcende a função de mero suporte, atuando como parceiro essencial na engenharia do trabalho. Ajuda a converter a estratégia em critérios operacionais, prepara as lideranças e monitora os riscos psicossociais. Ao adotar essa postura proativa, o RH age de forma preventiva, reduzindo o desgaste antes que ele evolua para o adoecimento dos colaboradores.

Em suma, a autonomia no ambiente de trabalho não é a ausência de controle ou um gesto simbólico de confiança. Ela está intrinsecamente ligada à arquitetura organizacional. Quando há critérios claros, proteção adequada e um alinhamento coeso, a inovação deixa de ser dependente do esforço individual e se torna um resultado direto de uma gestão de pessoas estratégica e bem estruturada.

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Crédito da imagem: Divulgação

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