Filme Iraniano ‘Foi Apenas um Acidente’ Desafia Oscar

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O filme iraniano ‘Foi Apenas um Acidente’ se consolida como um dos principais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional, representando um desafio crescente para outras produções, incluindo o brasileiro “O Agente Secreto”. A obra de Jafar Panahi, que já conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, destaca-se não apenas por seu mérito artístico, mas também pela intensa narrativa de bastidores que espelha as perseguições políticas vividas pelo próprio diretor.

Na corrida pela estatueta dourada do ano que vem, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, encontra adversários de peso. Além de “Foi Apenas um Acidente”, o longa-metragem brasileiro terá de competir com “Valor Sentimental”, do norueguês Joachim Trier, aclamado pela crítica americana por sua abordagem emocional e delicada. A peculiaridade desta temporada de premiações reside no fato de que todos os três filmes foram agraciados em Cannes, elevando o nível da disputa.

Filme Iraniano ‘Foi Apenas um Acidente’ Desafia Oscar

A força de “Foi Apenas um Acidente” na competição pelo Oscar não é apenas artística. O filme, que oficialmente representa a França como uma de suas coprodutoras, carrega em sua essência as vivências de seu criador, Jafar Panahi. A narrativa política e a biografia do diretor, marcada por perseguições e proibições, transformam a obra em um potente manifesto, com grande potencial para impactar os votantes da Academia, ecoando o sucesso de “O Apartamento”, de Asghar Farhadi, que já utilizou um contexto similar para conquistar a premiação.

Recentemente, em 1º de novembro, o Tribunal Revolucionário Islâmico em Teerã impôs a Panahi uma pena de um ano de prisão e a proibição de viajar pelo Irã por dois anos, sob a acusação de “atividades de propaganda” contra o país. Esta decisão, ironicamente, serviu como um impulso significativo para a projeção internacional do filme. Atualmente nos Estados Unidos, o diretor tem liberdade para conceder entrevistas e detalhar as perseguições que o inspiraram, mostrando como “Foi Apenas um Acidente” expõe as engrenagens autoritárias do Irã, nação que já o deteve em 2010 e novamente em 2022.

Em maio passado, durante um encontro com jornalistas após a première, Panahi compartilhou suas reflexões: “Eu não sei se o período na prisão mudou o meu cinema, mas tudo o que vivi lá, todas as conversas que tive, ficaram comigo até eu perceber que havia um filme a ser feito a partir disso.” Ele enfatizou que “Tudo o que está no filme são experiências reais, que ouvi de prisioneiros e que acabaram se tornando um tipo de experiência coletiva, compartilhada por todos nós. Juntei tudo nos cinco personagens que vemos em cena.”

A trama de “Foi Apenas um Acidente” acompanha um grupo de ex-presos políticos que, ao reconhecer o som distinto de uma prótese, acredita ter reencontrado seu torturador. A busca pela confirmação da identidade do homem os leva a um profundo dilema moral entre o perdão e a vingança, explorando a complexidade das cicatrizes deixadas pela opressão. A rica trajetória cinematográfica de Jafar Panahi, bem como os desafios enfrentados em sua carreira, são amplamente documentados em plataformas como a Wikipedia.

Apesar da carga de revolta presente em suas obras, Panahi mantém uma postura serena em festivais, com uma voz calma e um olhar empático, quase doce, por trás de seus óculos. Essa característica foi notada em sua visita a São Paulo, no mês retrasado, onde foi homenageado na Mostra de Cinema. Sua turnê internacional fortalece as chances de o cineasta finalmente conquistar o Oscar, o único troféu de grande porte que ainda lhe falta.

Com um histórico impressionante que inclui a Palma de Ouro em Cannes (por “Foi Apenas um Acidente”), o Leão de Ouro em Veneza por “O Círculo” (2000) e o Urso de Ouro em Berlim por “Táxi Teerã” (2015), o cineasta iraniano se aproxima da glória em solo americano. A eventual premiação de Panahi seria vista como uma resposta ao regime iraniano, aos Estados Unidos, em um contexto de “arroubos autoritários” de Donald Trump, e a um cenário global que tem normalizado a censura e a perseguição, temas centrais abordados por “Foi Apenas um Acidente” e, curiosamente, também por “O Agente Secreto”. Celebridades de Hollywood costumam valorizar mensagens políticas como essa.

Questionado sobre a recorrência de denúncias ao autoritarismo no circuito de festivais europeus e a provável repetição no Oscar, Panahi observou: “É difícil dizer, porque nós não fizemos planos juntos. O mundo parece estar passando por problemas parecidos. Vemos guerras em todos os lugares, pessoas como o Trump criando diversos problemas criando restrições ao cinema, como ele quer fazer por meio de tarifas. Há muitas camadas por trás dessa safra de filmes.”

A três meses da cerimônia do Oscar, o cenário ainda está em aberto. Contudo, com este discurso potente e uma obra tão relevante, Panahi emerge como um dos grandes favoritos da temporada, mesmo que as restrições impostas por seu país natal o impeçam de exibir os eventuais troféus em sua casa em Teerã. O filme “Foi Apenas um Acidente”, dirigido por Jafar Panahi, conta com a participação de Vahid Mobasseri, Mariam Afshari e Ebrahim Azizi. A produção é uma colaboração entre Irã, França, Luxemburgo e EUA, com previsão de estreia nos cinemas para esta quinta-feira, 4 de novembro, com classificação etária de 14 anos.

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Em suma, o destaque de “Foi Apenas um Acidente” na corrida do Oscar transcende a tela, transformando-se em um poderoso símbolo de resistência e liberdade de expressão. O filme de Jafar Panahi não só oferece uma narrativa envolvente, mas também representa uma voz contra a opressão, ressoando profundamente em um cenário mundial cada vez mais complexo. Para entender melhor a intersecção entre arte e questões sociais, convidamos o leitor a explorar outras notícias em nossa editoria de Política e continuar acompanhando as análises sobre o cenário cultural e geopolítico.

Crédito da imagem: Stephane Mahe/Reuters