O Aeroporto Internacional do Galeão bateu recorde de passageiros em 2025, marcando um novo patamar de movimentação para o principal terminal aéreo do Rio de Janeiro. A performance histórica, que superou todas as marcas anteriores, surge em um momento crucial, às vésperas de um aguardado leilão previsto para março, no qual analistas do setor preveem uma acirrada competição pela concessão do complexo aeroportuário.
Dados divulgados pelo painel de estatísticas da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) revelam que o Aeroporto Internacional Tom Jobim, popularmente conhecido como Galeão, registrou um impressionante fluxo de 17,5 milhões de passageiros ao longo do ano de 2025. Este número representa o maior volume anual desde o início da série histórica do órgão, que remonta ao ano 2000. O recorde demonstra um crescimento significativo de 23,5% em comparação com os 14,2 milhões de viajantes recebidos em 2024. A máxima anterior, de 16,9 milhões de passageiros, havia sido estabelecida em 2014. Os totais apresentados pela Anac abrangem tanto as rotas domésticas quanto as internacionais com origem ou destino no movimentado terminal carioca.
Galeão bate recorde de passageiros em 2025: leilão em março
Diante deste cenário de recuperação e crescimento substancial da demanda, o mercado observa com grande interesse o próximo leilão da concessão do Galeão, agendado para março. Especialistas consultados pela Folha indicam que a disputa promete ser intensa, com a expectativa de participação de múltiplos grupos, inclusive além dos atuais operadores privados. Um fator crucial que atrai o interesse é a determinação explícita do edital para a saída da Infraero do arranjo societário, o que é visto como um elemento desregulador e atrativo para novos investimentos no setor aeroportuário.
Atualmente, a Infraero detém uma participação societária de 49% na concessão do Galeão. Os restantes 51% estão divididos entre a Changi, empresa de Singapura, e a gestora Vinci Compass, que adquiriu parte das ações da companhia estrangeira em um movimento anunciado em agosto. O Ministério de Portos e Aeroportos reforçou que o processo licitatório será completamente aberto ao mercado, visando a máxima concorrência. Conforme um acordo validado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), os atuais acionistas privados são obrigados a apresentar no mínimo uma proposta que atinja o valor mínimo estipulado para o certame, garantindo a participação e um patamar inicial para a disputa.
O montante mínimo exigido para o pagamento à vista na arrematação do aeroporto foi fixado em R$ 932 milhões, um valor que sinaliza a dimensão do negócio. Além deste aporte inicial, os futuros concessionários terão a obrigação de efetuar uma contribuição variável anual à União. Esta contribuição corresponderá a 20% do faturamento bruto gerado pela concessão, e o compromisso se estende até o ano de 2039. O edital prevê a negociação de 100% da operação do terminal, sinalizando uma nova era para a gestão e o desenvolvimento do Aeroporto do Galeão.
Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, comentou sobre as mudanças na estrutura do leilão e suas implicações. “A modelagem agora é diferente. Não contempla a Infraero, e há um repasse de 20% do faturamento bruto. Isso é fundamental, porque não é mais uma outorga absurda que não é possível pagar”, explicou, destacando a reformulação das condições financeiras. Ele expressou otimismo quanto ao processo: “A gente tem de aguardar, mas acredito que certamente haverá interessados, porque é um ativo importantíssimo e tem potencial para resultados”, concluiu, ressaltando o valor estratégico do ativo.
Com a marca de 17,5 milhões de passageiros em 2025, o Galeão consolidou-se como o terceiro aeroporto de maior movimento no Brasil, segundo o ranking oficial da Anac. O terminal carioca ficou atrás apenas dos aeroportos paulistas de Guarulhos, que registrou 46,3 milhões de viajantes no mesmo período, e Congonhas, com 24 milhões. Essa posição de destaque reforça a importância estratégica do Galeão no cenário da aviação nacional e sua evidente capacidade de recuperação e atração de voos.
A concessão inicial do Galeão à iniciativa privada ocorreu em um leilão realizado em 2013, um período que precedeu uma profunda recessão econômica no Brasil. Ao longo dos anos seguintes, o terminal enfrentou um processo gradual de esvaziamento, drasticamente acentuado durante a pandemia de Covid-19, o que impactou severamente sua viabilidade financeira. O atual leilão representa, portanto, uma medida estratégica do governo federal para reequilibrar o contrato, sanar desafios financeiros e garantir a sustentabilidade e o desenvolvimento futuro da operação do aeroporto.
Ministro de Portos e Aeroportos projeta disputa acirrada no leilão do Galeão
Em entrevista concedida na quarta-feira (11), o ministro Silvio Costa Filho, titular da pasta de Portos e Aeroportos, revelou a existência de “cinco possíveis participantes” interessados no certame do Galeão. Entre as empresas citadas nominalmente pelo ministro estavam a Vinci Airports, Inframerica, Zurich e Aena, além da própria gestora Vinci Compass, que já atua no Galeão em parceria com a Changi. Para atrair investidores e apresentar as novas condições, o governo realizou um roadshow no início deste mês. Após a série de apresentações, o Ministério de Portos e Aeroportos informou, sem detalhar os nomes das companhias, que seis empresas participaram ativamente das reuniões de interesse.
Questionadas pela Folha sobre o potencial interesse no leilão, algumas das empresas mencionadas como possíveis participantes se manifestaram, ou não. A espanhola Aena, que atualmente administra o movimentado Aeroporto de Congonhas, afirmou estar “sempre atenta” a novas oportunidades de crescimento e investimentos, avaliando “criteriosamente todas as possibilidades” no mercado brasileiro. Por sua vez, a suíça Zurich, responsável por terminais em cidades importantes como Florianópolis e Vitória, optou por não emitir comentários sobre o assunto. A Inframerica, administradora do aeroporto de Brasília, também declinou de se manifestar. A francesa Vinci Airports, com presença consolidada em aeroportos como Salvador e Manaus, não respondeu à solicitação de contato da reportagem.

Imagem: Guito Moreto via valor.globo.com
Claudio Frischtak, economista da consultoria Inter.B, expressou sua expectativa de que pelo menos mais um ou dois grupos, além dos atuais sócios privados, apresentem lances na disputa pelo Galeão. Para Frischtak, a ausência de competição seria um desfecho surpreendente no atual cenário. “Há um grau de interesse bom, não sei se é espetacular”, pontuou o economista, indicando um otimismo moderado em relação à atração de investidores.
O especialista da Inter.B salientou que, para além da crescente demanda observada no aeroporto carioca, as condições estabelecidas para o leilão de março estão mais bem definidas e atrativas em comparação com processos anteriores do setor. Ele vê a exclusão da Infraero como um estímulo significativo para a concorrência e a entrada de novos players. No entanto, Frischtak expressou preocupação com um ponto específico e sensível: a falta de garantia de que as restrições de voos no Santos Dumont serão mantidas indefinidamente no futuro, caso haja uma eventual mudança nas diretrizes governamentais. Para ele, essa medida foi crucial para impulsionar o Galeão, juntamente com a recuperação econômica brasileira e a chegada de turistas para grandes eventos no Rio de Janeiro.
As primeiras restrições às operações no Aeroporto Santos Dumont foram implementadas em outubro de 2023, resultado de pressões de empresários e políticos locais. O objetivo claro da medida era conter o inchaço do terminal, redirecionando um maior volume de voos para o Galeão, que na época vinha sofrendo com um processo de esvaziamento. O debate sobre o tema ganhou força novamente entre o final de 2025 e o início de 2026. Após manifestações do prefeito Eduardo Paes (PSD), um defensor fervoroso das restrições para priorizar o Galeão, o governo federal revogou neste mês uma decisão que abria margem para o aumento do número de passageiros no Santos Dumont, reafirmando a política de contenção.
Operado pela Infraero, o terminal Santos Dumont registrou um fluxo de 6 milhões de viajantes em 2025, um número similar ao de 2024. Este patamar, contudo, é significativamente inferior aos 11,2 milhões de passageiros contabilizados em 2023 e aos 9,9 milhões em 2022, períodos anteriores à implementação das restrições de voos. É importante destacar que o Santos Dumont opera exclusivamente voos nacionais, enquanto o Galeão abrange rotas internacionais e domésticas de longa distância, complementando a malha aérea da região.
Em comunicado oficial, a concessionária do Galeão reafirmou seu empenho contínuo em expandir rotas e atrair novas companhias aéreas para o terminal. A empresa destacou que “A coordenação [com o Santos Dumont] permitiu acelerar esse processo, fortalecendo a conectividade e integração das malhas doméstica e internacional e impulsionando a movimentação de passageiros e cargas”. A concessionária também confirmou a participação das empresas Changi e Vinci Compass no leilão de março, reforçando o compromisso com o futuro e o desenvolvimento estratégico do terminal.
A capacidade operacional instalada do Galeão está estimada em impressionantes 37 milhões de viajantes por ano. Mesmo com o notável crescimento registrado em 2025, atingindo 17,5 milhões de passageiros, o volume ainda se encontra distante de sua plena capacidade. Marcus Quintella, da FGV Transportes, reiterou que as restrições impostas ao Santos Dumont, “corretas ou não”, são um dos fatores que explicam parte significativa do avanço do Galeão. Ele também mencionou a chegada de turistas para eventos de grande porte no Rio de Janeiro e a recuperação global do setor aéreo após a crise pandêmica como elementos adicionais que contribuíram para o desempenho positivo do aeroporto carioca.
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Em suma, o recorde de passageiros no Galeão em 2025 e a iminência de um leilão competitivo em março marcam um novo capítulo para a infraestrutura aeroportuária do Rio de Janeiro. As mudanças nas condições da concessão, a saída da Infraero e a expectativa de fortes lances de grandes players globais prometem revitalizar o terminal. Para continuar acompanhando as últimas notícias sobre economia, infraestrutura e o cenário político-econômico do país, explore outras análises e reportagens em nossa seção de Cidades.
Crédito da imagem: Thiago Neves/Agência O Dia







