Governo Trump barra financiamento a pesquisa com tecido fetal

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O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), reconhecido como o principal órgão financiador público de pesquisa biomédica em escala global, divulgou na última quinta-feira (22) que deixará de conceder apoio a projetos de pesquisa que utilizam financiamento a pesquisas com tecido fetal doado à ciência após procedimentos de aborto. A medida representa uma significativa alteração na política de financiamento científico no país, com implicações vastas para a comunidade de pesquisa e a medicina.

A decisão foi justificada pelo diretor do NIH, Jay Bhattacharya, em comunicado oficial, que enfatizou o objetivo de “avançar a ciência investindo em tecnologias inovadoras mais capazes de modelar a saúde e doenças humanas”. Segundo Bhattacharya, sob a liderança do presidente Donald Trump, a pesquisa subsidiada por contribuintes deve espelhar “a melhor ciência atual e os valores do povo americano”. Essa declaração alinha a política científica com uma visão ideológica específica do governo.

Governo Trump barra financiamento a pesquisa com tecido fetal

Esta mudança na política foi recebida com entusiasmo pelos defensores antiaborto, que a consideram um alinhamento ético. No entanto, cientistas expressaram severas críticas, advertindo que a medida poderá significativamente atrasar os esforços para aprofundar a compreensão sobre o desenvolvimento humano e a busca por novos tratamentos para diversas enfermidades. A dicotomia entre os valores éticos e o progresso científico é central neste debate.

O anúncio não foi completamente inesperado. Durante a primeira administração de Donald Trump, restrições similares à pesquisa com tecido fetal já haviam sido implementadas, embora posteriormente revertidas pela gestão do ex-presidente Joe Biden. A interrupção dessas pesquisas foi, inclusive, um objetivo político proeminente detalhado no “Projeto 2025”, um plano abrangente para um potencial segundo mandato de Trump, publicado pela conservadora Fundação Heritage. Isso demonstra uma consistência na abordagem do ex-presidente sobre o tema.

A senadora Cindy Hyde-Smith, em uma publicação na rede social X, classificou a alteração como uma “bem-vinda mudança política que alinha o avanço científico com nossos valores”. Ela argumentou que a medida “reflete um claro reconhecimento de que o progresso médico pode continuar através de métodos de pesquisa inovadores e éticos sem afrontar o respeito pela vida humana”, validando a decisão sob uma perspectiva moral e científica, conforme seu ponto de vista.

Impacto Científico e Desafios para Pesquisadores

Tomasz Nowakowski, um neurocientista da Universidade da Califórnia em São Francisco, que depende diretamente do tecido fetal para suas investigações sobre o desenvolvimento humano e fatores de risco para distúrbios cerebrais como o autismo, descreveu a abrupta modificação como um retrocesso para a ciência dos EUA. Nowakowski ressaltou a importância crítica da pesquisa direta em tecido cerebral humano para compreender as origens dessas condições e desenvolver terapias eficazes. Ele enfatiza que, apesar do avanço de modelos alternativos, a complexidade do cérebro em desenvolvimento ainda exige o estudo do tecido real.

O neurocientista acrescentou que trabalhar com tecido fetal constitui um “privilégio extremo”, uma vez que é doado à ciência sob rigorosa supervisão ética e, de outra forma, seria descartado como resíduo biomédico. Embora sistemas alternativos, como os organoides cerebrais (modelos de tecido cerebral cultivados em laboratório), sejam promissores e úteis, Nowakowski argumenta que eles não conseguem replicar toda a complexidade do cérebro em desenvolvimento. Por exemplo, em suas próprias pesquisas, Nowakowski identificou certas células “progenitoras” importantes na formação de tumores cerebrais que não aparecem nos modelos de organoides, demonstrando uma lacuna. Para ele, essa política significa que os cientistas não poderão mais contribuir plenamente para descobertas cruciais.

Steven Finkbeiner, outro neurocientista e diretor do Centro de Sistemas e Terapêutica do Gladstone Institutes em São Francisco, compartilha da mesma preocupação. Seu laboratório utilizava tecido fetal para aprofundar a compreensão sobre a doença de Alzheimer e a razão pela qual indivíduos com síndrome de Down apresentam um risco elevado para essa condição. Finkbeiner afirmou que “não existe realmente um modelo que possa recapitular totalmente a biologia humana”, sublinhando a irreplaceabilidade do tecido fetal em certas linhas de pesquisa. Ele manifestou a intenção de continuar suas investigações, caso consiga assegurar fontes alternativas de financiamento, o que ressalta o desafio imposto pela nova política.

Alternativas e Perspectivas Éticas

Em seu comunicado, o NIH mencionou que o número de projetos de pesquisa com tecido fetal que recebem financiamento federal já vinha diminuindo desde 2019, chegando a apenas 77 projetos no ano fiscal de 2024. A agência destacou que “avanços em organoides, chips de tecido, biologia computacional e outras plataformas de ponta criaram alternativas robustas que podem impulsionar a descoberta enquanto reduzem preocupações éticas”, sugerindo que a ciência está evoluindo para métodos menos controversos.

Contrariamente a essa visão, Lawrence Goldstein, professor emérito da Universidade da Califórnia em San Diego, que integrou o Conselho Consultivo de Ética em Pesquisa com Tecido Fetal Humano do NIH durante a primeira administração Trump, discorda. Ele sustenta que o tecido fetal humano é indispensável para garantir que os modelos alternativos estejam replicando com precisão a realidade biológica. Em suas palavras, “Se você quer deduzir as características moleculares reais do desenvolvimento de órgãos humanos durante os estágios fetais e se quer ter certeza de que está fazendo os tipos certos de células a partir de células-tronco, você precisa de tecido fetal real. É apenas lógica direta e pensamento sobre padrões científicos rigorosos”. Para mais informações sobre as diretrizes de pesquisa biomédica nos EUA, consulte o site oficial do Instituto Nacional de Saúde.

Do ponto de vista ético, o padre Tadeusz Pacholczyk, bioeticista do Centro Nacional Católico de Bioética, saudou a nova política do NIH como um “desenvolvimento bem-vindo”. Ele criticou administrações americanas anteriores por “deixar cair a bola ética quando se tratava de permitir que tecidos fetais humanos de abortos eletivos fossem usados em investigações científicas financiadas pelo NIH”, afirmando que isso criou uma situação com poucas barreiras ou limitações práticas para esse tipo de pesquisa.

Por outro lado, Tyler Lamb, diretor de políticas da Sociedade Internacional de Pesquisa com Células-Tronco, enfatizou a importância histórica da pesquisa com tecido fetal humano. Ele destacou que essa linha de investigação tem sido crucial para a compreensão do desenvolvimento humano e para o desenvolvimento de vacinas e medicamentos vitais. Lamb advertiu que “a nova política do NIH de encerrar esta pesquisa conduzida de forma responsável e eticamente regulamentada negará aos pesquisadores uma ferramenta científica essencial, retardando a descoberta e atrasando os esforços para avançar tratamentos e intervenções que beneficiam diretamente os pacientes”, ressaltando as potenciais perdas para a saúde pública.

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A decisão do governo Trump de barrar o financiamento a pesquisas com tecido fetal nos Estados Unidos gerou um intenso debate, contrapondo avanços científicos a valores éticos e religiosos. Enquanto defensores da medida celebram um alinhamento com preceitos morais, cientistas alertam para os riscos de atraso na compreensão de doenças complexas e no desenvolvimento de novas terapias. A medida sublinha a interseção intrincada entre política, ciência e ética na contemporaneidade. Para continuar acompanhando as notícias sobre política e decisões governamentais que impactam a ciência e a sociedade, acesse a editoria de Política.

Crédito da imagem: Kevin Lamarque – 22.out.25/Reuters

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