A política externa brasileira está sendo severamente impactada por um cenário global dominado pela incerteza. A análise, apresentada pelo cientista político Guilherme Casarões, professor de Estudos Brasileiros na Florida International University, indica que essa conjuntura, agravada pela conduta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está desestruturando as bases da diplomacia nacional. O especialista participou do programa WW Especial, da CNN Brasil, onde foram debatidas as disputas de influência entre potências como China e Estados Unidos no Brasil e na América Latina, e as “terrivelmente” difíceis escolhas que se impõem ao país.
De acordo com Casarões, Donald Trump intensificou a desordem em um panorama mundial já marcado pela instabilidade, que se arrasta desde a crise econômica global de 2008. O professor sugere que a forma de atuação de Trump se assemelha mais à de um líder do século XIX do que a de um presidente típico do século XX, apontando para uma era de maior imprevisibilidade e competição entre nações.
Incerteza Global Ameaça Fundamentos da Política Externa Brasileira
O cientista político distingue o momento atual daquele vivido durante a Guerra Fria, ressaltando que, hoje, o cenário não se restringe a dois polos de poder. Em vez disso, observa-se o surgimento de uma multipolaridade emergente, com diversos atores buscando maior protagonismo no palco internacional. Essa transição de um período de unipolaridade para um de bipolaridade tensa e, simultaneamente, de multipolaridade crescente, é complexa e desafiadora para nações como o Brasil.
A comparação com o século XIX, especialmente com o último quarto daquele período – época do imperador Guilherme II e das disputas imperiais por hegemonia global –, é feita pela ausência de normas internacionais estáveis e pela fragilização do multilateralismo. Essa falta de um arcabouço regulatório sólido e de cooperação entre múltiplas nações diferencia profundamente o contexto atual, tornando as relações internacionais mais fluidas e menos previsíveis.
Nesse ambiente em transição, potências como Índia e, notavelmente, a Rússia, estão empenhadas em consolidar uma presença mais robusta e influente no panorama global. Guilherme Casarões enfatiza que, em um contexto onde a força e a coerção econômica são frequentemente instrumentalizadas como ferramentas de poder, a situação se torna particularmente delicada para o Brasil. A crescente imprevisibilidade e a falta de certezas impedem um planejamento estratégico de longo prazo, corroendo as fundações da diplomacia brasileira e tornando qualquer projeção futura um desafio monumental.
Historicamente, a política externa brasileira tem se fundamentado em três pilares essenciais: o princípio da soberania, que assegura a autonomia nacional; o princípio do pacifismo, que prioriza a resolução pacífica de conflitos; e o princípio do multilateralismo, que valoriza a cooperação e o diálogo entre diversas nações. O professor Casarões destaca que esses fundamentos estão sendo sistematicamente questionados e postos em xeque. Essa pressão não vem apenas de diversos atores globais, mas, principalmente, dos Estados Unidos, que por muito tempo foram cruciais na organização da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial, e agora parecem desestruturá-la.
Em um paradoxo notável, o especialista argumenta que, apesar de suas tensões e desafios, o mundo da Guerra Fria era “muito melhor para o Brasil”. Naquela época, havia regras mais claras e um certo grau de previsibilidade, permitindo que o país, em algumas ocasiões, atuasse como um “criador de regras” ou mediador em fóruns internacionais. A estrutura bipolar, embora rígida, oferecia um mapa mais legível para a atuação diplomática brasileira, diferentemente da atual fragmentação e fluidez. Para aprofundar a compreensão sobre análises da diplomacia global e cenários internacionais, é valioso consultar fontes de pesquisa especializadas em relações exteriores, como o site da Chatham House, uma instituição renomada no campo: Chatham House.
Diante da instabilidade crescente, que ameaça os princípios da política externa brasileira, o país é confrontado com a necessidade de fazer escolhas “muito difíceis” no médio prazo. Entre as opções delineadas pelo cientista político, figura a possibilidade de o Brasil intensificar sua militarização e integrar-se ao “jogo dos fortões”, uma postura que historicamente nunca foi desejada pela nação. Outra decisão complexa seria a imposição de uma escolha entre alinhar-se com os Estados Unidos ou com a China. Guilherme Casarões conclui que ambas as alternativas contrariam os interesses nacionais brasileiros e são posições que o país, neste momento, deseja evitar a todo custo.
O programa WW Especial, que abordou essas questões cruciais para o futuro da diplomacia brasileira, é apresentado por William Waack e exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil. A iniciativa oferece uma plataforma para o debate aprofundado sobre temas de relevância nacional e internacional.
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A análise de Guilherme Casarões oferece um panorama preocupante sobre a atual situação da política externa brasileira, destacando os desafios impostos por um cenário global incerto e multipolar. Para continuar acompanhando os debates sobre política internacional e seus desdobramentos, acesse nossa editoria de Política.
Crédito: CNN Brasil






