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Jamieson Greer: Arquiteto da Guerra Comercial de Trump

Economia

A política comercial dos Estados Unidos e a guerra comercial de Donald Trump têm um nome central em sua estratégia: Jamieson Greer. Como representante comercial norte-americano, Greer se consolidou como uma figura discreta, mas extremamente influente, na redefinição do panorama econômico mundial sob a administração Trump. Sua atuação é fundamental para a implementação da visão presidencial de reestruturar o sistema que regula o fluxo de trilhões de dólares em mercadorias globalmente.

A ascensão de Greer ao epicentro das decisões tarifárias é notável. Em 26 de janeiro de 2025, apenas seis dias após o início do novo governo Trump, o telefone de Greer não parava de tocar, com chamadas incessantes da Casa Branca. Naquele momento, o presidente já demonstrava seu ímpeto em usar tarifas como ferramenta de pressão, um mecanismo que Greer, mesmo ainda não oficialmente no governo, já auxiliava como assessor comercial crucial. A peculiaridade de ter dois telefones para lidar com as demandas de um “trabalho meio maluco”, como ele mesmo descreveu a um aluno da escola dominical, ilustra a intensidade de sua função.

Jamieson Greer: Arquiteto da Guerra Comercial de Trump

Aos 45 anos, Jamieson Greer tem sido a força motriz por trás da fundamentação legal e da formulação de políticas públicas que visam reformar um sistema global de comércio que Trump frequentemente critica por sua suposta injustiça. Ele desempenhou um papel essencial na elevação das tarifas a patamares não vistos em quase um século, ao mesmo tempo em que conduzia negociações complexas com os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. As entrevistas com Greer revelam sua profunda convicção no plano de Trump de utilizar impostos de importação como estratégia para revitalizar a indústria manufatureira americana, protegendo os fabricantes locais da concorrência estrangeira e incentivando a criação de empregos industriais bem remunerados.

Visão e Controvérsias da Política Tarifária

As iniciativas de Greer e da administração Trump para proteger a indústria nacional ainda geram debates sobre sua eficácia. O setor manufatureiro emprega atualmente menos de 10% da força de trabalho americana, e o número de trabalhadores industriais tem apresentado declínio. Embora alguns fabricantes apoiem as medidas protecionistas, outros argumentam que elas elevam os custos de produção, diminuindo a competitividade da indústria nacional. Consumidores também expressam preocupações com o impacto das tarifas nos preços dos produtos, e pesquisas sugerem que a condução econômica de Trump tem enfrentado crescente desaprovação pública. Greer, por sua vez, atribui às ameaças tarifárias do presidente um aumento no poder de barganha dos EUA em negociações, embora reconheça que a inclinação confrontacional de Trump adiciona incerteza e complicações às relações internacionais.

O ano de 2025 e os subsequentes prometem ser turbulentos no cenário comercial. A Suprema Corte dos Estados Unidos está avaliando a legalidade de muitas das tarifas impostas, o que pode levar à sua derrubada. Paralelamente, o governo se prepara para reuniões críticas com a China e para negociações com Canadá e México que podem reformular ou até dissolver o acordo comercial da América do Norte (USMCA).

Ascensão e Influência no Governo Trump

Jamieson Greer é frequentemente visto como um pilar de estabilidade em meio ao caos da política de Trump. Ex-missionário mórmon e advogado militar, ele soube navegar com discrição pelas exigências de um presidente imprevisível, de outras personalidades fortes do gabinete e de dezenas de líderes e executivos estrangeiros. Amigos próximos afirmam que Greer segue o conselho de seu mentor, Robert Lighthizer, ex-representante comercial dos EUA no primeiro mandato de Trump: “Você consegue fazer muita coisa em Washington se não se importar com quem fica com o crédito”.

A trajetória de Greer em direção a seu papel como arquiteto da estratégia comercial de Trump começou com uma entrevista inesperada com Lighthizer para uma vaga no escritório de advocacia Skadden Arps, em Washington. Lighthizer o contratou em 2012, impressionado com sua inteligência e valores, para auxiliar na defesa de empresas americanas, como a U.S. Steel, em disputas comerciais. Essa experiência proporcionou a Greer uma visão antecipada dos desafios que as indústrias americanas enfrentariam com a inundação de produtos chineses subsidiados no mercado global. Embora Greer visse essa enxurrada como um problema de segurança nacional, poucos compartilhavam de sua preocupação na época.

Essa perspectiva mudou radicalmente com a eleição de Trump em 2016, quando Lighthizer foi nomeado representante comercial dos EUA e indicou Greer como seu chefe de gabinete. Greer tornou-se a “sombra” de Lighthizer, representando-o em reuniões de alto nível com a Organização Mundial do Comércio, Coreia do Sul e México, para surpresa de muitos burocratas estrangeiros. Juntos, eles lideraram a guerra comercial contra a China e remodelaram o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Lighthizer enfatizou que, no segundo mandato, as visões do país sobre comércio evoluíram, e Trump possui um mandato ainda mais forte, considerando Greer a pessoa ideal para implementar os “próximos passos lógicos”.

Desafios Legais e Negociações Complexas

Após Trump deixar o cargo, Greer atuou na iniciativa privada. Com a vitória do presidente em 2024, ele retornou, auxiliando na formação de listas de leais à causa comercial para o novo governo e redigindo um memorando comercial divulgado por Trump em seu primeiro dia de volta ao poder, que abriu caminho para a aplicação de tarifas em diversas questões comerciais. Sua nomeação foi fortemente apoiada por Lighthizer, Jared Kushner (genro de Trump) e outros que acreditavam que um especialista em comércio seria mais benéfico do que mais um bilionário no gabinete. Sua confirmação ocorreu em 26 de fevereiro de 2025.

No entanto, a atuação de Trump com as tarifas, desde fevereiro de 2025, foi caracterizada por um uso mais caótico do que Greer talvez preferisse. O presidente optou pela Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (International Emergency Economic Powers Act – IEEPA), que permite impor ou reduzir tarifas imediatamente e mantê-las indefinidamente. Essa lei, no entanto, é mais vulnerável a contestações judiciais, motivo pelo qual Lighthizer a evitou no primeiro mandato. Embora Greer também a considerasse juridicamente frágil, ele a incluiu entre as opções apresentadas a Trump, que a escolheu por sua flexibilidade.

Em fevereiro de 2025, Trump invocou a IEEPA para declarar a entrada de fentanil uma emergência nacional e aplicar tarifas contra Canadá, México e China, os maiores parceiros comerciais dos EUA. Em abril do mesmo ano, ele recorreu à mesma lei para classificar os déficits comerciais como uma emergência, anunciando tarifas globais amplas de até 50%, incluindo 34% sobre a China, desencadeando um choque comercial ainda sem solução. O escritório do representante comercial foi rapidamente inundado por pedidos de autoridades estrangeiras que buscavam evitar as tarifas. Isso deu início a meses de negociações frenéticas para Greer, que viajou mais de 160 mil quilômetros em 2025, por vezes se reunindo com representantes de mais de meia dúzia de países por dia.

Diante do cronograma apertado, Greer desenvolveu um modelo de temas para as negociações. Os acordos resultantes frequentemente envolviam a redução de tarifas sobre produtos agrícolas e industriais americanos e a adoção de políticas voltadas para economias não orientadas pelo mercado, como a China. Muitos desses acordos acabaram sendo vagos e de alto nível, refletindo o ritmo acelerado das conversas, o que gerou futuros conflitos sobre os detalhes exatos. As negociações foram ainda mais complicadas pela existência de outro conjunto de tarifas relacionadas à segurança nacional, sob a alçada de Howard Lutnick, secretário de Comércio. Essas tarifas afetaram setores como automóveis, farmacêuticos e aço, levando países estrangeiros a reclamar que as negociações avançavam bem com Greer, mas emperravam no Departamento de Comércio. Greer reconheceu que as tarifas de segurança nacional acrescentaram uma camada extra de complexidade.

Perspectivas Futuras e o Legado de Greer

O futuro da política tarifária de Trump e o papel de Jamieson Greer permanecem sob escrutínio. Caso a Suprema Corte decida derrubar as tarifas atuais, caberá a Greer instituir novas medidas para substituí-las. Ele também terá o desafio de assegurar que os arranjos comerciais firmados com países como Japão, El Salvador e Suíça não se desfaçam se as tarifas que os sustentam desaparecerem temporariamente. Com as eleições de meio de mandato se aproximando e a crescente preocupação com o custo de vida, ainda resta saber se o governo recuará em mais tarifas. Trump, por sua vez, parece tão insistente e impulsivo quanto sempre em relação ao uso de tarifas, como demonstrado por sua recente ameaça de impô-las a países europeus, a menos que a Dinamarca cedesse a Groenlândia, o que levou à suspensão irritada das negociações de um acordo comercial que Greer e sua equipe haviam trabalhado por muitos meses.

Greer, assim como Trump, rejeita a ideia de que as tarifas oneram os americanos mais pobres. Ele argumenta que o custo das tarifas é diluído ao longo das cadeias de suprimento estrangeiras, uma teoria que muitos economistas contestam. Ele também defende a ideia de “comércio administrado”, afirmando que quanto mais seguras forem as cadeias de suprimento, menor a necessidade de intervenção governamental. Contudo, ele pondera que “ainda não estamos realmente lá”.

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A atuação de Jamieson Greer é um testemunho da complexidade e da imprevisibilidade da política comercial na era Trump. Sua capacidade de conciliar a visão de um presidente audacioso com a necessidade de bases legais e políticas robustas o posiciona como uma figura central na redefinição do comércio global. Para continuar acompanhando as nuances da política econômica e as notícias mais relevantes, explore as últimas atualizações em nossa editoria de Economia e Política.

Crédito da imagem: The New York Times Company

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