A pressão internacional sobre o Japão para cessar as importações de gás da Rússia intensifica-se, colocando empresas energéticas japonesas diante de um dilema complexo. A comunidade global adota uma postura cada vez mais rigorosa contra Moscou, instando Tóquio a recalibrar suas estratégias de aquisição de gás natural liquefeito (GNL) proveniente de projetos russos, como o Sakhalin-2, crucial para o fornecimento de energia do país asiático.
Atualmente, as importações japonesas de GNL russo se concentram principalmente no projeto de petróleo e gás Sakhalin-2, localizado na ilha de Sakhalin, no Extremo Oriente russo. A estrutura acionária desse empreendimento é dominada pelo grupo energético estatal russo Gazprom, que detém 77,5% das participações. As empresas comerciais japonesas Mitsui & Co. e Mitsubishi Corp. possuem 12,5% e 10%, respectivamente. Oito importantes empresas japonesas de eletricidade e gás, incluindo nomes como Jera e Tokyo Gas, são clientes que adquirem GNL diretamente do Sakhalin-2. É importante notar que nenhuma empresa japonesa utiliza GNL do projeto Arctic LNG 2, também na Rússia, embora a Mitsui e outros investidores tenham financiado parte de sua construção.
Japão sob Pressão para Cessar Importações de Gás Russo
O cenário geopolítico global tem levado a uma série de medidas contra a Rússia, e o Japão não está imune a essa pressão. Recentemente, a União Europeia anunciou um plano para interromper permanentemente suas importações de GNL russo até novembro de 2027. Antes disso, em setembro, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia apelado à Europa para que cessasse todas as compras de energia russa, incluindo gás. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos concedeu às empresas japonesas uma prorrogação de isenção, permitindo que as importações do campo de Sakhalin-2 continuassem até 19 de dezembro. Em outubro, durante um encontro com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, Trump solicitou diretamente que o Japão interrompesse as importações de GNL russo. A resposta de Takaichi destacou a dificuldade em parar essas importações devido a questões de segurança energética nacional, deixando incerto o desfecho dessa questão diplomática.
A dependência do Japão em relação ao GNL de Sakhalin-2 é significativa. As oito empresas de energia japonesas mantêm contratos de longo prazo para o fornecimento, os quais representam 9% das importações totais de GNL do Japão no ano fiscal de 2024. A complexidade da situação foi sublinhada por um executivo de uma empresa japonesa, que, após a notícia da União Europeia, apontou uma contradição: “A primeira-ministra enfatizou a dependência japonesa do gás russo, mas o ambiente de aquisição está se tornando cada vez mais difícil”. Em setembro, um executivo da Jera, responsável pelas aquisições, afirmou a necessidade de “manter o fornecimento o máximo possível para a segurança nacional do Japão”. Representantes da Saibu Gas, com sede em Fukuoka, também comentaram sobre os benefícios da aquisição de GNL russo, citando “preços estáveis e produção em bom andamento”.
Vantagens Logísticas e Econômicas do Gás Russo
A proximidade geográfica do projeto Sakhalin-2 com o Japão oferece vantagens logísticas consideráveis. O transporte de GNL do Extremo Oriente Russo para o Japão leva apenas dois a três dias, um contraste marcante em comparação com a aproximadamente uma semana necessária para o transporte da Austrália e até 40 dias da Costa do Golfo dos Estados Unidos. Essa proximidade facilita a adaptação das empresas japonesas às variações da demanda de energia. Além disso, a Organização Japonesa para Metais e Segurança Energética (Jogmec) revelou em um relatório que o preço médio do GNL russo é mais competitivo em comparação com as alternativas provenientes da Austrália e da Indonésia, tornando-o uma opção economicamente atraente para as empresas japonesas.
Os contratos de fornecimento de Sakhalin-2 estão se aproximando do vencimento, o que significa que as decisões sobre a renovação dos acordos são iminentes. Um dos contratos da Jera, que importa 500 mil toneladas métricas de GNL anualmente, será o primeiro a expirar, no final de 2026. A decisão da Jera provavelmente influenciará as estratégias dos outros sete importadores japoneses. A perda das importações de GNL russo poderia, previsivelmente, levar a um aumento nos preços da eletricidade e do gás em certas regiões do Japão. Empresas como a Kyushu Electric Power e a Hiroshima Gas dependem fortemente do campo de Sakhalin-2. Suas tabelas de preços são estruturadas de forma a repassar parte do aumento nos custos de combustível aos consumidores, o que significaria mais encargos financeiros para famílias e empresas japonesas caso haja uma mudança de fornecedores.
Estratégias de Mitigação e Perspectivas Futuras
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, as importadoras japonesas têm trabalhado ativamente para mitigar sua exposição aos riscos de fornecimento de GNL. A Hiroshima Gas, por exemplo, que adquire 350 mil toneladas de GNL anualmente, com aproximadamente 200 mil toneladas vindas de Sakhalin-2, expandiu significativamente sua rede de segurança. A empresa agora possui contratos com 10 outras empresas para o fornecimento de GNL em caso de emergência, um aumento notável em relação aos três contratos que mantinha anteriormente. Todos os contratos de GNL da Hiroshima Gas expiram no ano fiscal de 2030, e o presidente Tomohiko Nakagawa declarou a jornalistas em abril que a empresa “deve levar em consideração também os riscos geopolíticos” nas negociações de renovação em andamento.
O cenário global de GNL adiciona outra camada de complexidade à situação japonesa. A empresa europeia de pesquisa Rystad Energy estima que a demanda global por GNL aumentará 80% até 2040. A expectativa é que a demanda ultrapasse a capacidade de produção global em 2037, impulsionada pelo crescimento populacional em economias emergentes e pela expansão do setor digital em países desenvolvidos. O Japão depende majoritariamente da Austrália e do Sudeste Asiático para a maior parte de seu fornecimento de GNL. No entanto, os campos de gás nessas regiões estão se esgotando, deixando pouco espaço para um aumento substancial na produção, o que agrava o dilema japonês na busca por fontes de energia confiáveis e acessíveis. Para entender mais sobre a política energética da União Europeia, uma das principais vozes na pressão contra o GNL russo, você pode consultar informações detalhadas em fontes oficiais, como a União Europeia.
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Em suma, o Japão enfrenta um delicado equilíbrio entre a segurança energética, os custos de importação e a crescente pressão internacional para se alinhar às sanções contra a Rússia. As decisões tomadas nos próximos anos, especialmente com a expiração dos contratos de GNL de Sakhalin-2, moldarão significativamente o futuro do abastecimento de energia do país. Para acompanhar as últimas novidades sobre economia, política e as complexidades do mercado global de energia, convidamos você a explorar mais análises sobre o cenário econômico em nossa editoria de economia.
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