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Japão Recorda 15 Anos do Terremoto e Tsunami de 2011

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Nesta quarta-feira, o Japão marca os quinze anos de um dos eventos mais cataclísmicos de sua história recente: o terremoto e tsunami de 2011. A tragédia, que devastou a região nordeste do país, não apenas causou destruição em massa, mas também desencadeou o grave desastre nuclear da Usina de Fukushima Daiichi. O país, ainda em processo de reconstrução, reflete sobre as lições aprendidas e o futuro de sua política energética.

O sismo ocorreu precisamente às 14h46 de 11 de março de 2011, registrando uma magnitude de 9.0. Esse abalo sísmico se tornou o mais potente já documentado no Japão e figura entre os cinco maiores já observados globalmente. Seu epicentro localizou-se a aproximadamente 130 quilômetros da Península de Ojika, no oceano Pacífico, o que gerou um poderoso tsunami que alcançou a costa em questão de minutos após o tremor inicial.

Japão Recorda 15 Anos do Terremoto e Tsunami de 2011

As ondas do tsunami atingiram impressionantes mais de 10 metros de altura, varrendo quilômetros para o interior do continente, carregando consigo veículos, embarcações e construções inteiras. Cidades costeiras na área de Sendai foram rapidamente engolidas pela força da água, resultando em uma devastação em larga escala sem precedentes. Os impactos humanos foram igualmente severos: dados oficiais registraram 15.894 mortes e cerca de 2.500 pessoas desaparecidas. Centenas de milhares de indivíduos ficaram desabrigados, com um total estimado de 230 mil pessoas desalojadas após a catástrofe. Este evento é amplamente reconhecido como a maior catástrofe que atingiu o Japão desde o término da Segunda Guerra Mundial, quando as cidades de Hiroshima e Nagasaki foram alvo de bombas atômicas em 1945.

Para além da destruição física imposta pelo terremoto e pelas ondas gigantes, a nação enfrentou uma crise nuclear de proporções alarmantes. As águas do tsunami invadiram a Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, operada pela Tokyo Electric Power Company (TEPCO), resultando em sérios danos aos sistemas de resfriamento e levando ao colapso de três reatores nucleares. Este acidente foi classificado como o pior desastre nuclear desde o ocorrido em Chernobyl, URSS, exigindo a evacuação de cerca de 160 mil moradores das proximidades da usina devido ao elevado risco de contaminação radioativa.

Quinze anos depois, o Japão persiste em seus esforços de reconstrução das áreas devastadas, ao mesmo tempo em que lida com as consequências de longo prazo do desastre, em particular na região de Fukushima. Embora o governo tenha investido pesadamente na descontaminação e infraestrutura, uma parcela da população ainda demonstra hesitação em retornar às suas cidades de origem, impactando a plena recuperação social e econômica da área.

A tragédia de Fukushima provocou uma reviravolta drástica na percepção pública e na política energética do Japão. Antes de 2011, o país, com poucos recursos naturais, era um dos maiores defensores da energia nuclear, que supria cerca de 30% de sua demanda elétrica por meio de 54 reatores. Após o desastre, a oposição à energia nuclear cresceu exponencialmente, levando ao desligamento de todos os reatores para inspeções e modernizações de segurança. Em 2012, o governo chegou a decidir pela eliminação gradual da energia nuclear, uma posição que foi revertida dois anos depois, embora a retomada das operações tenha sido lenta, com muitos reatores desativados permanentemente.

No entanto, nos últimos anos, o cenário começou a mudar. A primeira-ministra do país, Sanae Takaichi, uma notória defensora da energia nuclear, tem impulsionado a aceleração da reativação dos reatores e o desenvolvimento de novas tecnologias nucleares. Sua motivação é clara: libertar o país da custosa dependência de combustíveis fósseis importados. O contexto geopolítico, com instabilidade no Oriente Médio – de onde o Japão obtém 95% de seu petróleo – e a crescente demanda energética de centros de dados de inteligência artificial, também contribuíram para essa mudança de perspectiva. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) desempenha um papel crucial na promoção de padrões de segurança e na disseminação de informações confiáveis sobre a energia nuclear globalmente. Mais detalhes sobre este tema podem ser encontrados em materiais publicados pela própria agência.

A opinião pública reflete essa transformação: uma pesquisa do jornal Asahi, realizada no mês passado, mostrou que 51% da população agora apoia a retomada das atividades nucleares, um aumento significativo em relação aos 28% registrados em 2013. Entre os jovens de 18 a 29 anos, o apoio é ainda maior, chegando a 66%. Essa mudança é simbolizada por jovens como Takuma Hashimoto. Com apenas três anos quando o terremoto e o tsunami atingiram a usina a uma hora de sua casa, sua família ficou presa sem gasolina. Hoje, aos 18 anos, Hashimoto é estudante de engenharia em Iwaki e aspira a fazer parte da nova geração de especialistas nucleares do Japão, defendendo que a energia nuclear não deve ser vista como “automaticamente perigosa”.

Contudo, a garantia de talentos suficientes representa um desafio para o renascimento nuclear japonês. Em 2024, apenas 177 estudantes foram admitidos em cursos relacionados à energia nuclear em todo o país, em contraste com os 317 antes do desastre de Fukushima e o pico de 673 no início dos anos 1990. Hashimoto reconhece a existência de oponentes à energia nuclear, frequentemente encontrando manifestantes antinucleares. No entanto, ele ressalta a importância de “usar a energia nuclear corretamente, ter medidas em vigor caso algo aconteça e desenvolver tecnologia para garantir que acidentes não ocorram.”

Testemunhos de quem viveu a crise de perto reforçam a complexidade do tema. Seiji Inada, de 49 anos, fazia parte da equipe de resposta a crises do governo em 2011. Confinado em um bunker subterrâneo em Tóquio, ele acompanhou imagens da explosão de um reator. Cerca de 150 mil pessoas foram retiradas da área da usina, muitas das quais nunca mais voltaram, enquanto se avaliava o risco de uma nuvem radioativa atingir Tóquio. Inada recorda ter ligado para o pai durante o almoço para “preparar-se para o pior cenário”.

Uma investigação de 2012 concluiu que o desastre foi “provocado pelo homem”, atribuindo culpa à operadora da usina, aos órgãos reguladores e ao governo pela falha em desenvolver protocolos de segurança adequados. O então primeiro-ministro Naoto Kan renunciou após críticas à gestão da crise. Inada, que agora atua na consultoria FGS Global, enfatiza a “humildade” como a principal lição do 11 de março: “choques de baixa probabilidade acontecem. O que importa é a governança.” Ele observa que, embora fosse difícil imaginar o retorno à energia nuclear na época, “o tempo cura as feridas”, e o debate evoluiu “da emoção para a análise de prós e contras”.

A indústria nuclear também evoluiu, incorporando as dolorosas lições de Fukushima. Keiji Matsunaga, de 59 anos, veterano da Toshiba, tem se dedicado ao desenvolvimento de reatores mais seguros. Desde sua entrada na empresa em 1991, ele sempre conviveu com o estigma da indústria, agravado por Fukushima. Apesar do declínio dos negócios nucleares da Toshiba e da falência de sua unidade americana, a Westinghouse, Matsunaga nunca duvidou da necessidade do Japão de energia nuclear para a segurança energética. A retomada gradual das operações tem impulsionado o setor: a Mitsubishi Heavy Industries, por exemplo, projeta um recorde de vendas de 400 bilhões de ienes (aproximadamente R$ 13 bilhões) em sua unidade nuclear no próximo ano, meta que não esperava alcançar antes de 2030.

As novas usinas projetadas incorporam avanços significativos em segurança. Matsunaga detalha que os prédios dos reatores teriam telhados reforçados com placas de aço e concreto, capazes de suportar o impacto de aeronaves. Além disso, contariam com sistemas de circulação natural e outros mecanismos mais robustos para manter o reator resfriado, visando evitar falhas críticas de refrigeração, como as que contribuíram para o derretimento do núcleo em Fukushima. “Acreditamos que, ao adotar essas medidas, eventos como o de Fukushima podem ser evitados”, afirma ele, consolidando o compromisso da indústria com um futuro nuclear mais seguro.

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A memória do terremoto e tsunami de 2011 continua viva no Japão, moldando não apenas sua paisagem, mas também suas políticas e perspectivas futuras. O país demonstra resiliência ao buscar a reconstrução e a reavaliação de sua matriz energética, sempre com foco na segurança e na sustentabilidade. Para aprofundar a compreensão sobre desafios e recuperações econômicas pós-catástrofes e a evolução de políticas públicas, explore nossas análises em Análises e mantenha-se informado sobre os principais acontecimentos globais em nossa editoria.

Crédito da imagem: CNN Brasil

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