Milton Hatoum: Nobel Vê Brasil com Indiferença ou Exotismo

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O renomado escritor Milton Hatoum: Nobel Vê Brasil com Indiferença ou Exotismo, figura central da literatura brasileira contemporânea, oferece uma perspectiva incisiva sobre como o prestigiado Nobel de Literatura parece encarar o Brasil, oscilando entre a indiferença e um olhar exotizante. A discussão surge em meio ao lançamento de sua mais recente obra, “Dança de Enganos”, que finaliza uma trilogia gestada por quase duas décadas, prometendo desvendar mistérios que há muito intrigam seus leitores.

Em uma conversa em São Paulo, Hatoum, com sua característica calma e serenidade, compartilhou detalhes sobre o aguardado desfecho literário. Leitores que anseiam por conclusões prontas, ao estilo de um enredo de mistério clássico, podem se surpreender, pois o autor reafirma seu compromisso com a ambiguidade. Para Hatoum, é “importantíssimo num romance evitar as conclusões, as respostas, as explicações”, preferindo manter a narrativa em um “território ambíguo, como areia movediça”, onde as interpretações florescem.

Milton Hatoum: Nobel Vê Brasil com Indiferença ou Exotismo

O foco central dos dois primeiros volumes da trilogia, “A Noite da Espera” e “Pontos de Fuga”, publicados há oito e seis anos, respectivamente, girava em torno do paradeiro de Lina, mãe do protagonista Martim. Após se separar do pai rigoroso do garoto e mudar-se, Lina se tornou uma figura cada vez mais distante, com poucas notícias. Agora, em “Dança de Enganos”, que chega às livrarias nesta semana, é a própria Lina quem assume o protagonismo da trama, mergulhando o leitor em sua complexa jornada.

A percepção inicial de que Lina estaria envolvida em um thriller político, dado o crescente engajamento de seu filho Martim na oposição à ditadura e seu subsequente exílio na Europa, é desmistificada. Hatoum revela que tal ideia era, na verdade, um “engano”, e a profundidade da personagem reside em outras camadas. O autor relembra que sua aclamada obra “Dois Irmãos” já empregava a estratégia de deixar pontas soltas até o final, como a identidade do pai do narrador Nael, uma questão que permanece aberta à interpretação de cada leitor e até mesmo do próprio autor.

Questionado sobre a expectativa de leituras mais “mastigadas” na atualidade, Hatoum pondera que essa tendência sempre existiu e que obras comerciais possuem sua relevância por formarem novos leitores. Ele defende a coexistência de diferentes vertentes literárias: “É necessário que todo país tenha seus bons escritores populares. Mas tenha também escritores e escritoras que não entregam, que trabalham muito o ponto de vista estrutural, formal da linguagem, o que também é válido. E a literatura de um país se constitui dessas duas vertentes. Se pensarmos de maneira excludente, é uma visão quase autoritária.”

As motivações de Lina para manter distância do filho ao longo das décadas permanecem sem uma explicação única e definitiva. Hatoum traça um paralelo com a própria fundação da literatura brasileira, mencionando o clássico romance de Machado de Assis e a eterna dúvida sobre a traição de Capitu. “E a gente vai atrás do Machado”, comenta o escritor, com uma breve risada que denota sua reverência aos grandes mestres.

O escritor amazonense, de 73 anos, segue os passos de Machado de Assis em múltiplos aspectos. Há apenas dois meses, ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, instituição fundada pelo próprio Machado, conquistando a aclamação em sua primeira disputa. Já consolidado como um dos grandes nomes da literatura nacional, Hatoum chegou a ser cotado para o Nobel de Literatura, um assunto que ele descreve, sem falsa modéstia, como “quase um pesadelo”.

Embora aprecie o reconhecimento, Hatoum afirma que sua maior satisfação reside em ver jovens leitores e professores engajados com seus livros. A emoção de saber que alguém decidiu visitar Manaus após ler “Cinzas do Norte” é, para ele, “o paraíso”. Sobre o Nobel, ele expressa uma visão pragmática e crítica: “Um dia um brasileiro ou uma brasileira vai ganhar o Nobel. Não eu, mas alguém vai. Isso depende de lobby, do Ministério da Cultura.” Ele enfatiza que a Academia Sueca cometeu falhas notáveis no passado, não laureando figuras como Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Luis Borges e Alejo Carpentier, apontando problemas nas traduções de algumas dessas obras ou simples omissões históricas.

Em sua análise contundente, Hatoum critica a forma como a instituição enxerga o Brasil. “Eles olham para o Brasil ou com indiferença ou com olhar exótico. E quem ganhar um dia vai ter que falar isso: vocês erraram”, declara, ressaltando a percepção de uma distância cultural e, por vezes, preconceituosa. A ausência de autores de peso do cenário mundial entre os laureados, na visão de Hatoum, questiona a própria autoridade e critério do prêmio.

Independentemente de premiações internacionais, é inegável a dedicação de Hatoum à trilogia “O Lugar Mais Sombrio”, cujo projeto foi concebido nos anos 1980 e começou a ser gestado em 2007, período em que o próprio escritor vivenciou o exílio na Europa, assim como seu protagonista. Ele defende que “para a literatura, você tem que esperar o tempo decantar, se transformar em imaginação”, um processo que ele aplicou meticulosamente em suas obras. O autor manauara revela que escreveu todos os livros da trilogia “de uma só tacada”, sendo os anos subsequentes dedicados a um intenso trabalho de lapidação de cada texto individualmente, em um projeto que ele define como “não pretensioso, mas ambicioso”.

Os seis anos entre o segundo volume e este terceiro foram inteiramente dedicados a retoques em uma trama que já estava quase finalizada. Hatoum brinca que é “lento por definição”, mas confessa ter alterado significativamente os rumos da narrativa, expandindo a história do livro, que inicialmente seria uma longa carta ao filho, a fim de dar mais densidade a outros personagens e aprofundar suas tramas.

Através das elipses da obra, o leitor é convidado a vasculhar o que não é explicitamente dito, compreendendo gradualmente que Lina é “uma mulher convencional”, conforme as palavras do autor, pertencente a uma “geração que era violentada, massacrada, humilhada” por viver em um ambiente opressor. Hatoum buscou explorar a “lenta conscientização do corpo, da liberação das imposições patriarcais” da personagem. A complexidade do distanciamento de Lina de seu filho por décadas não reside apenas no fator do ex-marido agressivo e braço armado da ditadura – já presente nos livros anteriores –, mas também na intrincada relação da personagem com o amor e suas próprias forças internas.

“Tem uma força maior dentro dela, que a impede de fazer esse movimento em direção ao filho”, analisa o autor sobre sua criação. Ele arrisca que Lina “intui uma relação edipiana”, tocando em “coisas, vamos dizer, primitivas. No interdito e, no fundo, no tabu”. Inspirado por mestres como Raduan Nassar, Hatoum não teme abordar temas considerados proibidos, fazendo-o sempre de maneira oblíqua, através de sugestões nas entrelinhas, valorizando a literatura em detrimento de uma busca por atenção superficial. “É um convite para o leitor refletir”, diz, reiterando que o literário emerge mais da exploração do interior do que do exterior. “Penso a literatura como uma refração. Quando você coloca uma régua dentro da água, o que era linear distorce. É essa distorção que eu acho que é a ficção”, conclui.

Antes de uma sessão de fotos, a questão sobre a queda do nível dos leitores é levantada, mas Hatoum nega veementemente essa percepção. Para ele, a literatura segue firme, em constante transformação, como as embarcações que povoam seus romances, com os leitores no comando. Ele finaliza com uma citação de Borges: “Uma vez perguntaram a Borges como seria a literatura do ano 2000. E ele respondeu: mas eu não sei como será o leitor do ano 2000.” O lançamento de “Dança de Enganos” está marcado para terça-feira (21), às 19h, na Livraria da Tarde, com a presença do autor e do editor Emilio Fraia. O livro será comercializado a R$ 79,90 (256 págs.) e o e-book a R$ 34,90, pela Editora Companhia das Letras. Para mais informações sobre o funcionamento do Nobel de Literatura e seus critérios, você pode consultar o site oficial do Prêmio Nobel.

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Aprofunde-se no universo de Milton Hatoum e em suas análises perspicazes sobre a literatura e a percepção do Brasil no cenário internacional com o lançamento de “Dança de Enganos”. Para continuar explorando debates e obras que moldam o cenário cultural brasileiro, acesse nossa editoria de Análises e mantenha-se informado sobre os temas mais relevantes da atualidade.

Crédito da imagem: Karime Xavier / Folhapress