As mortes no trânsito no Brasil registraram em 2024 o maior patamar dos últimos oito anos, totalizando 37.150 óbitos em todo o país. Pela primeira vez na série histórica, iniciada em 2010, a região Nordeste emergiu como a mais impactada, superando o Sudeste em número absoluto de fatalidades. Os dados alarmantes são fruto de um estudo conduzido pela organização Vital Strategies, com base em informações fornecidas pelo Ministério da Saúde, e acendem um alerta sobre a segurança viária nacional.
O levantamento aponta que o Nordeste contabilizou 11.894 mortes em 2024, um número superior aos 10.995 óbitos registrados no Sudeste, que historicamente liderava essas tristes estatísticas, apesar de ser a região mais populosa do país. A marca nacional de 37.150 vítimas representa um aumento de aproximadamente 6,5% em comparação com os 34.881 casos ocorridos em 2023. Essa elevação coloca o ano de 2024 como o de maior mortalidade no trânsito desde 2016, quando foram contabilizadas 37.345 mortes.
A preocupação dos especialistas se intensifica ao analisar a discrepância entre o volume de frotas regionais e os índices de fatalidade. Em dezembro de 2024, a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) indicava que o Sudeste possuía cerca de 59 milhões de veículos registrados, um número mais de duas vezes maior que os 22,3 milhões de veículos do Nordeste. Esta desproporção na frota, somada à liderança do Nordeste em óbitos, reforça a gravidade da situação. A seguir, exploraremos os fatores que contribuem para esses índices críticos, focando nas especificidades regionais.
Mortes no Trânsito: Nordeste Lidera e Brasil Atinge Pico em 8 Anos
Ao se debruçar sobre a taxa de mortalidade por habitante, outro cenário preocupante se desenha. A região Centro-Oeste manteve a liderança com o maior indicador, registrando 24,5 mortes a cada 100 mil habitantes, uma posição que já ocupava em anos anteriores. Norte e Nordeste apresentam índices próximos, com 21 e 20,8 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente. Em contraste, o Sudeste exibe a menor taxa, com 12,4 mortes para cada 100 mil habitantes, evidenciando diferenças significativas na segurança viária entre as regiões brasileiras.
Os pesquisadores da Vital Strategies identificam a mortalidade envolvendo motociclistas, tanto condutores quanto passageiros, como um fator crucial para o aumento das estatísticas no Nordeste. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, a região Nordeste registrou 6.116 óbitos de pessoas em motocicletas, um número 60% superior aos 3.820 casos no Sudeste. Proporcionalmente, motocicletas estiveram envolvidas em mais da metade das mortes no trânsito no Norte (53%) e no Nordeste (51,4%), enquanto no Sudeste, essa proporção foi de 34,7%.
Dante Rosado, mestre em engenharia de transporte e coordenador do programa de segurança viária da Vital Strategies no Brasil, destaca a evolução do problema. “Em 2010, o Nordeste tinha uma quantidade de mortes de motociclistas semelhante à do Sudeste, com cerca de 3.500 casos. Mas o Sudeste manteve o patamar e o Nordeste quase dobrou”, afirma Rosado. Ele explica que motocicletas são veículos intrinsecamente inseguros, e o risco é amplificado por deficiências na infraestrutura viária e pela baixa fiscalização de velocidade, fatores comuns em muitas áreas da região.
A condição das estradas também desempenha um papel relevante. Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), divulgada em dezembro, classificou seis das doze rodovias consideradas “péssimas” como estando no Nordeste. O levantamento avaliou a qualidade do pavimento, sinalização e geometria das vias. O especialista da Vital Strategies ressalta que o problema se estende para além das rodovias, afetando vias urbanas e rurais, onde a prática de transportar múltiplos passageiros em motocicletas, excedendo a capacidade, é comum em periferias.
Em resposta ao cenário, o governo Lula (PT) afirma estar implementando uma estratégia abrangente e preventiva para combater a violência no trânsito. O Ministério dos Transportes, em nota, enfatiza uma abordagem que integra a formação de condutores, fiscalização e melhoria da infraestrutura. “A estratégia combina educação, incentivo à regularização de motoristas e estímulo a comportamentos responsáveis como elementos centrais para salvar vidas e reduzir sinistros em todas as regiões do país”, detalha a pasta, visando um trânsito mais seguro. Para mais informações sobre políticas de trânsito, consulte o Ministério dos Transportes.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Entre as ações recentes citadas pelo governo estão o programa CNH Brasil, que busca facilitar o acesso à Carteira Nacional de Habilitação, e a Medida Provisória (MP) do Bom Condutor, que permite a renovação automática da habilitação para motoristas sem infrações nos últimos 12 meses. O Ministério ressalta que “o Brasil ainda convive com um cenário em que mais de 20 milhões de pessoas dirigem sem Carteira Nacional de Habilitação. Ao trazer mais motoristas para a legalidade, a política contribui diretamente para um trânsito mais seguro.”
Especialistas consultados apontam diversas alternativas para a redução da letalidade no trânsito. A lista inclui aprimoramento do transporte público, que tem perdido usuários para as motocicletas, investimentos contínuos em infraestrutura viária adequada, e intensificação da fiscalização de velocidade e do uso de capacetes por motociclistas. Diogo Lemos, coordenador-executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, avalia que os números refletem escolhas estruturais e políticas públicas de trânsito deficientes. “Tem faltado compromisso com segurança viária”, afirma Lemos, defendendo uma atuação nacional que alcance pequenos municípios, com forte suporte estadual, e que vá além do asfalto, investindo em infraestrutura e fiscalização.
O Ministério dos Transportes também menciona o Pnatrans (Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito) como uma das políticas nacionais de segurança viária. O plano propõe uma atuação integrada entre gestores e órgãos do Sistema Nacional de Trânsito (SNT), com a ambiciosa meta de reduzir em no mínimo 50% o índice nacional de mortos no trânsito por grupo de habitantes até 2030, utilizando dados de 2020 como referência. Além disso, a Senatran elaborou o Guia de Gestão de Velocidades no Contexto Urbano, uma publicação que reúne as melhores práticas nacionais e internacionais para combater o desrespeito aos limites de velocidade, definir limites adequados ao contexto das vias e promover soluções de engenharia e fiscalização compatíveis, visando a adoção de velocidades seguras e a redução de acidentes graves.
Especificamente sobre os acidentes com motocicletas, o governo Lula destacou a criação da Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, a Conferência Nacional de Segurança no Trânsito e a elaboração do Programa Nacional de Segurança de Motociclistas, que terá como base o Pnatrans. Embora a conclusão desse texto estivesse prevista para o ano passado, ele ainda se encontra em fase de desenvolvimento, mostrando a complexidade e a urgência do tema.
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Este cenário de aumento das mortes no trânsito, com o Nordeste à frente, exige atenção e ação contínuas. A análise dos dados e das políticas públicas implementadas, assim como as recomendações de especialistas, são cruciais para reverter essa tendência alarmante. Continue acompanhando as análises e notícias em nossa editoria de Cidades para se manter informado sobre as questões de segurança e mobilidade urbana.
Crédito da imagem: Bruno Santos – 20.ago.24/Folhapress







