A discussão sobre penduricalhos no serviço público ganhou novas perspectivas com a análise do sociólogo José de Souza Martins, que traça um paralelo contundente entre as benesses concedidas a determinadas categorias de servidores e a obra distópica “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. Martins sugere que a estrutura de privilégios patrimoniais no Brasil ecoa a progressiva deturpação da igualdade retratada na famosa alegoria, revelando arcaísmos coloniais e invenções republicanas que perpetuam a desigualdade.
O ensaio de Martins inicia-se com a familiaridade que a leitura da obra de Orwell provoca, como se o autor inglês tivesse compreendido a realidade brasileira. Na narrativa original, os animais da Granja do Solar, cansados da negligência e maus-tratos de seu dono, Mr. Jones, organizam uma revolta inspirados pelo porco Major. Eles expulsam os humanos, renomeiam a propriedade para “Granja dos Bichos” e estabelecem uma nova sociedade baseada em sete mandamentos que visavam a igualdade e a liberdade. O mais enfático desses princípios, escrito em uma parede do estábulo, proclamava: “Todos os animais são iguais”.
Penduricalhos no Serviço Público: A Realidade Brasileira
Essa máxima ressoa diretamente com o artigo 3º da Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988, que estabelece: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”. Contudo, assim como na obra literária, onde a igualdade começou a ser gradualmente erodida pelos porcos – que, por deterem a alfabetização, manipulavam as regras em seu próprio benefício –, no Brasil, os “penduricalhos” servem como “avessos” constitucionais, que distorcem o espírito da lei. Na fábula, o leite destinado a todos desaparece e é secretamente adicionado à ração dos porcos, que se tornaram os administradores da nova sociedade. Essa série de pequenas alterações culmina na reescrita do mandamento principal para “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais”, evidenciando a instauração de uma nova forma de tirania e privilégio disfarçado.
José de Souza Martins, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e pesquisador emérito do CNPq, utiliza essa narrativa para destacar como as notícias recentes sobre cortes de penduricalhos em vencimentos de servidores públicos trouxeram à tona a persistência de privilégios. Ele aponta que esses benefícios adicionais muitas vezes se configuram como aumentos salariais ilegais para alguns, mascarados por nomenclaturas diversas que disfarçam a verdadeira natureza do benefício. Essa prática reflete uma peculiaridade brasileira, onde a desigualdade é institucionalizada sob o pretexto de legalidade.
A análise do sociólogo enfatiza que a condição de “mais igual” não é acessível aos cidadãos comuns, que se manifestam em atos de patriotismo superficial, como o uso de vestimentas verde-amarelas em demonstrações politicamente destrutivas, a exemplo da intentona de 8 de janeiro de 2003. Pelo contrário, a prerrogativa de ser “mais igual” está reservada àqueles que detêm o poder e o exercem, criando uma distinção hierárquica baseada em posições de influência, e não em mérito ou necessidade. Essa dinâmica reforça a ideia de que o poder transforma, e aqueles que o ocupam podem se distanciar dos princípios de igualdade inicialmente proclamados.
O cerne da crítica de Martins reside na forma como esses “penduricalhos” representam uma continuidade de estruturas sociais arcaicas, que remontam aos tempos coloniais e foram reforçadas ou inventadas pela própria República. Eles evidenciam uma lógica perversa de dominação política que opera nas “entrelinhas” e no “avesso” da legislação, assegurando que um grupo seleto desfrute de vantagens que não estão disponíveis à maioria. A referência a *A Revolução dos Bichos* se torna ainda mais pertinente quando os animais na história são incapazes de distinguir entre porcos e homens, simbolizando a fusão da tirania antiga com a nova, onde os que antes eram oprimidos se tornam os novos opressores.

Imagem: valor.globo.com
A persistência desses privilégios no sistema público brasileiro, conforme José de Souza Martins, impede o avanço de uma verdadeira igualdade e justiça social, mantendo um ciclo de desigualdades que afeta a coesão e o desenvolvimento do país. A complexidade do sistema legal é, por vezes, usada para legitimar essas distorções, tornando difícil para a população em geral identificar e combater tais práticas.
Para aprofundar a compreensão sobre as nuances da obra que inspirou essa análise, pode-se consultar mais informações sobre A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e seu impacto na crítica social.
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A análise de José de Souza Martins sobre os penduricalhos no serviço público e seu paralelo com “A Revolução dos Bichos” oferece uma reflexão crucial sobre a manutenção de privilégios e a distorção da igualdade no Brasil. A compreensão desses mecanismos é fundamental para qualquer debate sobre reforma e justiça social. Continue acompanhando a editoria de Política em Hora de Começar para mais análises aprofundadas sobre os desafios da sociedade brasileira.
Foto: Carvall







