Protesto de Moradores no Rio Após Megaoperação com 121 Mortos

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Nesta sexta-feira, dia 1º, um massivo protesto de moradores de favelas no Rio de Janeiro foi realizado após a Operação Contenção, que resultou em 121 mortes na última terça-feira. Mesmo sob forte chuva, milhares de pessoas se reuniram no campo de futebol da Vila Cruzeiro, uma das comunidades integrantes do Complexo da Penha, para iniciar uma caminhada rumo à Avenida Brasil, uma das vias expressas mais cruciais da capital fluminense. O ato reuniu comunidades dos Complexos da Penha e do Alemão, além de outras áreas de baixa renda da cidade, clamando por justiça e criticando a violência.

Entre os participantes, destacou-se a presença de inúmeras mães que perderam seus filhos em operações policiais anteriores. Liliane Santos Rodrigues, residente do Complexo do Alemão, é uma delas. Há apenas seis meses, seu filho Gabriel Santos Vieira, de 17 anos, foi fatalmente baleado com cinco tiros enquanto estava na garupa de uma moto de aplicativo, a caminho do trabalho, durante uma perseguição policial. A dor de Liliane é um eco da angústia coletiva que motivou a manifestação.

Ainda abalada, Liliane Santos expressou a profunda conexão com as famílias enlutadas pela recente ação: “Eu estou sentindo a dor dessas mães. Foi um baque muito grande ver que um rapaz foi morto no mesmo lugar em que o meu filho morreu. Tem três dias que eu não sei o que é dormir direito. Muita gente julga, mas só sabe quem passa. Hoje eu estou aqui para dar força para essas mães.” Apesar do sofrimento, Liliane relata ter pouquíssimas informações sobre as circunstâncias da morte de Gabriel e sobre quem efetuou os disparos que tiraram a vida de seu filho. Além da incessante busca por justiça, a moradora do Alemão convive com o temor pela segurança de sua filha mais nova, de apenas 9 anos. Ela descreveu a manhã da operação com desespero: “No dia da operação, eu estava dormindo, quando a minha filha entrou desesperada no meu quarto, tremendo, e falando ‘tá dando tiro’. Quando eu vi, ela tava alisando a foto do irmão no celular e chorando. Ela me perguntou: ‘Será que vai acontecer com a gente igual o que aconteceu com o meu irmão?’ Foi um dia desesperador. Parecia que os tiros estavam dentro da nossa casa.” As falas de Liliane ressaltam a urgência e a legitimidade do

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, que ecoa a dor de centenas de famílias.

Vozes da Dor e da Resistência nas Favelas Cariocas

A manifestação reuniu outras histórias trágicas, como a de Nádia Santos, moradora do Complexo do Chapadão. Nádia enfrentou uma dupla perda: seu filho Cleyton, assassinado em uma ação policial em 2015, e, posteriormente, seu filho mais novo, Cleyverson, morto a tiros em 2022. Com a voz embargada, Nádia criticou duramente a política de segurança do estado, classificando o governador como o “Exterminador do Futuro”. Ela argumentou que, em vez de investir em educação, saneamento básico e emprego, o governo oferece apenas a violência como “oportunidade”, empurrando jovens para o narcotráfico. “E não é culpa nossa. Nenhuma mãe cria seu filho pra ver ele tombado sem cabeça. Eu ainda sangro pela morte dos meus filhos, mas hoje eu tô sangrando ainda mais pelas mortes desses 121 filhos”, desabafou, conectando sua própria dor à tragédia recente.

Adriana Santana de Araujo, mãe de Marlon Santana de Araujo, também se fez presente no protesto. Marlon foi uma das 28 vítimas fatais de uma operação no Jacarezinho em 2021, que até então era considerada a mais letal da história do Rio antes dos eventos desta semana. Além da incalculável perda do filho, Adriana foi alvo de uma campanha de desinformação nas redes sociais, onde a identidade de uma mulher empunhando um fuzil foi falsamente atribuída a ela. As severas consequências dessa mentira forçaram a microempreendedora a deixar o Jacarezinho, comunidade onde viveu por quase quatro décadas. “Eu vim aqui porque eu sei o que essas mães de agora estão passando. A dor não passa nunca. A gente acostuma a viver com ela. Enterram os nossos filhos mortos e enterram nós, as mães, vivas”, lamentou Adriana, que também relatou um episódio traumático em que foi ameaçada de morte por um desconhecido devido à calúnia digital: “Depois de um tempo, eu pensei em voltar a trabalhar, pra seguir com a vida. Um dia, eu fui pegar um dinheiro na casa de um cliente, mas acabei batendo na porta errada, e o cara me disse: ‘se eu tivesse uma arma aqui, eu te matava, você tinha que morrer junto com o seu filho’”.

A Controvérsia da Operação Contenção e Seus Números

O ato contou ainda com a participação de membros de movimentos sociais e sindicais, como a dirigente Raimunda de Jesus. Ela ressaltou a desigualdade na abordagem da segurança pública, afirmando que a brutalidade presenciada nas favelas não ocorre na Zona Sul, área mais rica da cidade, apesar de lá também existirem criminosos. “Nós, que moramos na periferia, somos discriminados. Mas o Estado não pode nos ver como inimigos. O Estado tem que tratar e cuidar do seu povo, de toda a sua população”, enfatizou Raimunda, clamando por um tratamento mais equitativo e humanitário por parte das autoridades.

Conforme informações do governo estadual, a Operação Contenção tinha como finalidade cumprir 100 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão contra a facção criminosa Comando Vermelho. A mobilização envolveu aproximadamente 2,5 mil agentes, tornando-a a maior operação policial dos últimos 15 anos no estado. Contudo, o saldo de 121 mortes a consagrou como a mais letal da história do Rio de Janeiro. Entre as vítimas, quatro eram policiais e 117 eram civis. As autoridades informaram que 99 dos corpos já foram identificados e 89 liberados pelo Instituto Médico Legal (IML). Dentre os identificados, 78 possuíam histórico criminal e 42 tinham mandados de prisão pendentes.

Críticas e Denúncias de Entidades de Direitos Humanos

Entidades de direitos humanos e diversas organizações da sociedade civil têm denunciado a Operação Contenção como um “massacre” e uma “chacina”, criticando veementemente a alta letalidade da ação. Inicialmente, o governo do estado havia divulgado um número de 58 mortos, que posteriormente foi atualizado para os 121 atuais, gerando ainda mais questionamentos sobre a transparência e as circunstâncias das mortes. A disparidade nos números reforça a desconfiança em relação às narrativas oficiais.

Moradores e familiares do Complexo da Penha relataram ter retirado dezenas de corpos de uma área de mata na região na madrugada seguinte à operação. Esses relatos são acompanhados de denúncias de que os cadáveres apresentavam sinais de tortura e até mutilações, conforme amplamente noticiado por veículos como a Agência Brasil e outras fontes jornalísticas de credibilidade. Tais acusações agravam o cenário de crise e exigem uma investigação rigorosa sobre os excessos cometidos durante a ação policial.

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A onda de protestos no Rio de Janeiro, desencadeada pela Operação Contenção, reflete um grito de basta de comunidades que vivem sob o constante terror da violência e da letalidade policial. A união das vozes de mães, familiares e ativistas por direitos humanos reforça a necessidade urgente de revisão das políticas de segurança pública e de responsabilização dos envolvidos. Para mais notícias e análises sobre o cenário social e político das grandes metrópoles brasileiras, continue acompanhando nossa editoria de Cidades.

Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil