A recente e drástica queda das criptomoedas tem reverberado pelo mercado financeiro global, impondo um significativo teste de estresse a Wall Street. Embora as flutuações bruscas sejam uma característica inerente ao universo dos ativos digitais, com ciclos de euforia seguidos por retrações acentuadas, a velocidade e a magnitude da reversão observada nas últimas semanas surpreenderam até os investidores mais experientes. Este episódio, apesar de não ter provocado um colapso sistêmico como crises anteriores, revelou a nova dinâmica de integração das criptomoedas com os mercados tradicionais.
A sexta-feira, dia 21, marcou um ponto crítico para o Bitcoin, que atingiu uma mínima próxima de US$ 80,5 mil (equivalente a R$ 434 mil). Este movimento colocou a principal criptomoeda no caminho de registrar seu pior desempenho mensal desde o impacto devastador do colapso da Terra em 2022, evento que culminou em uma série de falências notáveis, incluindo a da FTX. No total, aproximadamente meio trilhão de dólares em valor de Bitcoin foram evaporados do mercado, sem sequer considerar a extensa depreciação em todo o ecossistema das altcoins.
Queda das Criptomoedas: Teste de Estresse para Wall Street
Ainda que o Bitcoin mantenha uma valorização considerável desde a eleição do presidente Donald Trump em novembro, grande parte dos ganhos expressivos obtidos no primeiro ano de seu mandato – período por ele chamado de “era de ouro das criptomoedas” – dissipou-se. Apesar de as perdas ainda serem, em grande parte, “no papel”, é a primeira vez, desde a introdução dos Fundos Negociados em Bolsa (ETFs) de Bitcoin que facilitaram a entrada de investidores institucionais e de varejo, que essas posições estão sob pressão direta. A dinâmica do mercado mudou radicalmente.
A Nova Dinâmica dos Investidores Institucionais
Desta vez, a causa da turbulência no mercado de ativos digitais é menos óbvia do que em quedas anteriores. Os atuais ETFs, que não existiam durante a última grande retração das criptomoedas, viram bilhões de dólares serem retirados dos 12 fundos atrelados ao Bitcoin somente neste mês, conforme dados da Bloomberg. Compradores de peso, como o fundo patrimonial de Harvard e diversos fundos de hedge, estão entre os que reavaliaram suas posições. Mais acentuadas ainda foram as saídas de capital de empresas de tesouraria de ativos digitais, veículos de custódia inspirados na Strategy Inc. de Michael Saylor, à medida que a validade de empresas criadas meramente para deter tokens é questionada pelos investidores.
É evidente que o universo das criptomoedas transcendeu o perfil inicial de investidores de varejo e visionários da tecnologia que defendiam a manutenção de ativos a qualquer custo. Agora, essas moedas digitais estão intrinsecamente ligadas à estrutura de Wall Street e aos mercados públicos mais amplos, atraindo um novo tipo de participante: o investidor institucional mais exigente. Fadi Aboualfa, chefe de pesquisa da Copper Technologies Ltd., comentou sobre o cenário, afirmando que “o que aconteceu nos últimos dois meses foi como combustível de foguete, como se as pessoas esperassem uma queda brusca. É isso que os investidores institucionais fazem. Eles não estão lá para manter as posições, não têm essa mentalidade. Eles reequilibram seus portfólios.” A complexidade e a interconexão do mercado financeiro global são temas frequentemente debatidos, e para uma análise mais aprofundada sobre a influência de grandes players, pode-se consultar as últimas publicações de renomadas instituições financeiras como a Bloomberg Markets.
Apesar do recuo, o Bitcoin ainda se mantém aproximadamente 50% acima de sua mínima pré-eleitoral. A magnitude da correção atual é modesta se comparada ao colapso de 75% vivenciado durante o mercado de baixa de 2021-2022. Esse dado, no entanto, pode indicar que a queda pode se aprofundar ainda mais. Naquele período, cada desvalorização sucessiva expunha um novo participante significativo em dificuldades, desde a Celsius e BlockFi até a Three Arrows Capital.
Causas e Consequências do ‘Flash Crash’
Sem grandes falhas sistêmicas ou escândalos evidentes desta vez, alguns analistas do mercado acreditam que a retração atual é predominantemente impulsionada por fatores técnicos e pela confiança dos investidores. Luke Youngblood, fundador da plataforma de empréstimos Moonwell, ressalta que “não estamos seguindo o mesmo caminho; as condições macroeconômicas gerais, o apoio governamental e a menor presença de agentes mal-intencionados no setor tornam o mercado atual mais resiliente”. Ele adiciona que “os fundamentos sobre os quais as criptomoedas estão sendo construídas são mais sólidos, mesmo que existam motivos para preocupação no futuro”.
O catalisador mais evidente para a atual volatilidade foi uma queda súbita em 10 de outubro, quando US$ 19 bilhões (R$ 102,4 bilhões) em apostas em criptomoedas foram liquidados em poucas horas. Esse evento expôs a crônica falta de liquidez durante as negociações de fim de semana – a face menos celebrada do funcionamento 24 horas por dia, 7 dias por semana, do mercado cripto – bem como o excessivo acúmulo de alavancagem em determinadas corretoras. A forte correção derrubou o Bitcoin de sua máxima histórica de US$ 126.251 (R$ 680,5 mil), alcançada dias antes. Analistas da Cantor Fitzgerald & Co., Brett Knoblauch e Gareth Gacetta, apontaram em nota de 20 de outubro: “Em certa medida, acreditamos que grande parte da queda nos mercados de criptomoedas se deve ao que aconteceu em 10/10. Parece que alguns grandes players do setor estão sendo forçados a vender, já que o que aconteceu em 10/10 pode ter tido um impacto muito maior em seus balanços do que se pensava inicialmente”.
O problema de liquidez no mercado de ativos digitais persiste e ainda não foi completamente equacionado. Os formadores de mercado, enfraquecidos pela queda, encontram-se incapazes de intervir eficazmente para sustentar os preços. Na sexta-feira recente, aproximadamente US$ 1,6 bilhão (R$ 8,6 bilhões) em apostas foram liquidadas em diversas corretoras, com a mais recente desvalorização impactando diretamente os investidores que operam com alavancagem. O apelo do Bitcoin como ‘ouro digital’, frequentemente superestimado, perdeu força, enquanto o ouro tradicional se manteve resiliente. As criptomoedas continuam a ser um termômetro do apetite por risco em cenários de alta volatilidade, reagindo mais rapidamente que o mercado geral.
Conexões com o Mercado de Ações e a Bolha da IA
Nesta semana, o Bitcoin foi diretamente influenciado pela volatilidade das ações de tecnologia. A oscilação da moeda digital tem sido apontada tanto como causa quanto como efeito da turbulência no mercado acionário. Na quinta-feira, por exemplo, o índice S&P 500 registrou um avanço inicial, impulsionado pelos resultados robustos da Nvidia Corp., mas posteriormente sofreu sua maior reversão intradiária desde a instabilidade das tarifas em abril. Analistas da Nomura atribuíram parte da responsabilidade às criptomoedas, entre outras causas. Bill Ackman, por sua vez, sugeriu uma ligação incomum, propondo que as participações da Fannie Mae e Freddie Mac estavam se comportando como um indicador indireto dos movimentos das criptomoedas.
O futuro das criptomoedas está agora intimamente ligado ao otimismo do mercado, especialmente aquele impulsionado pela inteligência artificial. Com os sinais de uma potencial bolha crescendo, qualquer pequeno fator pode assustar os investidores e levá-los a vender. Além disso, inúmeros riscos permanecem latentes no ecossistema cripto. Empresas que imitaram o modelo da Saylor, construídas na premissa de que uma empresa de capital aberto que apenas detém criptomoedas pode valer mais do que o valor dos tokens que possui, continuam sob escrutínio. A pressão para converter empresas públicas em tesourarias de criptomoedas persistiu até este ponto da crise, ecoando a situação dos credores excessivamente alavancados de 2022. Caso a confiança seja abalada, vendas forçadas podem ocorrer, já que muitos investidores já registram prejuízos em suas reservas de tokens.
Para Adam Morgan McCarthy, analista sênior de pesquisa da empresa de dados blockchain Kaiko, “quando uma empresa de dispositivos médicos ou uma empresa de pesquisa sobre câncer se renomeia como uma tesouraria de criptomoedas, é um sinal de em que ponto do ciclo ela se encontra”. De maneira geral, qualquer vestígio de otimismo que ainda pudesse existir no setor parece estar em declínio acentuado. O Índice de Medo e Ganância, uma ferramenta que mede o sentimento nos mercados de criptomoedas, registrou 11 de 100 na sexta-feira, de acordo com o CoinMarketCap. Esse patamar indica um nível extremamente baixo, classificado como ‘medo extremo’.
Chris Newhouse, diretor de pesquisa da Ergonia, empresa especializada em finanças descentralizadas, complementa: “O sentimento de medo atingiu níveis relativamente altos, enquanto a demanda estrutural por mercado à vista permanece notavelmente ausente, deixando o mercado sem os compradores naturais que normalmente estão presentes durante correções significativas”.
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Em resumo, a atual **queda das criptomoedas** representa mais do que uma mera correção de mercado; é um reflexo da crescente integração dos ativos digitais com o sistema financeiro tradicional e um teste rigoroso para a resiliência de Wall Street. Os investidores, tanto de varejo quanto institucionais, são forçados a reavaliar estratégias diante da volatilidade e da complexidade de um cenário que conecta tecnologia, sentimento de mercado e macroeconomia. Para continuar acompanhando as tendências e análises que impactam o cenário financeiro, convidamos você a explorar mais conteúdos em nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: Dado Ruvic/REUTERS






