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Registros Visuais de São Paulo: Primeiras Imagens da Metrópole

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Os registros visuais de São Paulo, a metrópole que hoje se destaca pela intensa produção de imagens, nem sempre foram abundantes. Em contraste com a atualidade, onde a cidade pulsa com conteúdos ‘instagramáveis’ e uma infinidade de cliques, seus primeiros séculos foram marcados pela escassez de representações visuais, tornando-a uma “musa difícil” para artistas e cartógrafos.

A carência de ilustrações, mapas detalhados e referências iconográficas da antiga São Paulo, se comparada a outras importantes cidades brasileiras como o Rio de Janeiro, pode ser explicada por seu contexto histórico. Durante boa parte de seus quase cinco séculos de existência, a então vila não desfrutava de prestígio significativo, não configurava um polo de riqueza e estava distante de exercer qualquer papel de protagonismo no projeto de colonização do país.

Registros Visuais de São Paulo: Primeiras Imagens da Metrópole

Essa realidade começou a mudar de forma mais consistente apenas a partir do século 19, quando a cidade passou a acumular um acervo mais robusto de representações. O pesquisador e biógrafo Paulo Rezzutti, conhecido por sua divulgação histórica, salienta que a cidade não possuía a mesma relevância econômica de outros centros. “O Rio, a partir de 1530, já começou a ter iconografia. São Paulo, não. São Paulo era uma cidade no meio do sertão. Tinha mais importância estratégica do que econômica”, detalha Rezzutti, contextualizando a disparidade inicial.

Os Primeiros Mapas e a Cartografia Pioneira

O que se considera como um dos primeiros mapas relevantes a incluir São Paulo foi elaborado pelo cartógrafo português João Teixeira Albernaz (1602-1662) em 1631. Este documento, na verdade, focava em delinear a capitania de São Vicente, com a vila de São Paulo aparecendo discretamente ao fundo, à direita. Marcelo Pliger, arquiteto e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, sugere que Albernaz provavelmente criou o mapa com base em relatos de viajantes.

“[São Paulo] é uma silhueta pequena, já que a imagem principal trata do contorno do litoral”, observa Pliger, descrevendo o desenho como uma fusão de mapa e panorama aéreo. O historiador Paulo César Garcez Marins, professor do Museu Paulista da USP, complementa que essas representações iniciais, algumas dos séculos 16 e 17, careciam de precisão. “Eram sem rigor”, afirma Marins, indicando que as primeiras que buscaram um grau de fidedignidade, inclusive métrica, surgiram no século 18.

Marins aponta a “Planta da Restauração”, desenvolvida entre 1765 e 1774 e hoje sob a guarda do Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro, como o primeiro mapa paulistano “feito a partir de princípios geométricos”. Essa planta é notável por indicar as ruas da cidade, representar rios como o Tamanduateí, delimitar corredores de casas e posicionar com exatidão todas as igrejas do centro histórico. No início do século 19, o engenheiro militar Rufino José Felizardo e Costa (1784-1824) também empreendeu esforços para desenhar São Paulo com maior precisão.

Gravuras e Pinturas: Novos Panoramas da Cidade

Enquanto os mapas serviam para indicar e localizar a crescente aglomeração urbana, outros recursos visuais, anteriores à fotografia, eram utilizados para ilustrar e registrar a paisagem paulistana: as gravuras e as pinturas. O marco histórico neste campo remonta à segunda metade do século 18, com o “Dezenho Por Idea da Cidade de São Paulo”, um panorama aquarelado de autoria desconhecida, atualmente preservado na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Esta aquarela apresenta a cidade desde a Igreja de São Bento até a de São Gonçalo, com as igrejas do Rosário, do Carmo e da Sé de São Francisco ocupando o centro da imagem. “Essa perspectiva já é uma representação interessante da cidade. Aparece a Penha ao fundo, tem a disposição das igrejas de forma bastante fiel ao que seria, tem bastante rigor. Com esta imagem a gente consegue reconhecer a visão da cidade”, explica Paulo César Garcez Marins. Para mais informações sobre documentos históricos, você pode consultar o acervo da Biblioteca Nacional do Brasil.

Nas décadas subsequentes a esta aquarela, viajantes estrangeiros desempenharam um papel crucial na produção de imagens de São Paulo. Dentre eles, destaca-se o austríaco Thomas Ender (1793-1875), que produziu mais de 600 obras, muitas no Rio e em São Paulo. Sua pintura do Palácio do Governo de São Paulo, onde hoje se localiza o Pateo do Collegio, em 1817, é um exemplo notável.

Outro trabalho de perspectiva icônico é o do francês Arnaud Julien Pallière (1784-1862). Sua obra “Panorama da Cidade de São Paulo”, de 1821, é um marco do período. Essa peça, que já pertenceu ao acervo do banco Itaú, encontra-se em exposição permanente no Itaú Cultural, em São Paulo. Edson Cruz, coordenador de Artes Visuais e Acervos da instituição, descreve a pintura como um “olhar raro sobre a pequena vila de São Paulo antes de se tornar uma metrópole”, elaborada a partir da várzea do Carmo, atual região da baixada do Glicério, com o observador posicionado em um plano elevado para visualizar a cidade entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú.

A Revolução da Fotografia e Militão Augusto de Azevedo

O século 19 trouxe um novo e poderoso meio para o registro visual de São Paulo: a fotografia. Embora a primeira fotografia feita na cidade não possa ser identificada com certeza, há um consenso sobre a figura de Militão Augusto de Azevedo (1837-1905), um carioca que se tornou o maior fotógrafo pioneiro de São Paulo nesse período. Rubens Fernandes Junior, crítico de fotografia, menciona em um ensaio que São Paulo era uma “acanhada cidadezinha” na metade do século 19, o que não atraía a atenção dos primeiros fotógrafos.

Apesar de não haver registros confirmados de sua passagem por São Paulo por volta de 1851, o pastor presbiteriano James Cooley Fletcher (1823-1901) pode ter feito algum registro com seu daguerreótipo, embora suas imagens conhecidas sejam de outros locais do Brasil. Na década de 1850, a cidade contava com estúdios fotográficos, mas seus profissionais não se dedicavam à paisagem urbana. Foi na década seguinte que Militão Augusto de Azevedo se estabeleceu na cidade, inserindo-se em um movimento de fotógrafos que começavam a se instalar em São Paulo.

O historiador Afonso dEscragnolle Taunay (1876-1958) chegou a afirmar que “até 1860, data que nos aparece a providencial série de fotografias, aliás, ótimas, de Militão Augusto de Azevedo, os arrolamentos de peças de iconografia paulistana mantém-se insignificantes”. A importância histórica do trabalho de Azevedo reside em sua disposição para registrar a paisagem urbana em dois conjuntos fotográficos distintos: um por volta de 1862 e outro em 1877. Ele não apenas documentou a São Paulo de sua época, mas também as transformações do local de forma comparativa.

Paulo César Garcez Marins ressalta que Militão Augusto de Azevedo se tornou uma fonte indispensável para pesquisadores da cidade na segunda metade do século 19. “Esse registro comparativo é único no país”, comenta Marins. “Nenhum fotógrafo daquela época teve a preocupação em registrar os ambientes no mesmo ângulo em espaços de tempo diferentes.”

O Olhar Seletivo dos Registros Visuais

Contudo, o trabalho de Azevedo, assim como o de desenhistas e pintores, deve ser interpretado como uma narrativa, construída a partir de escolhas, inclusões e exclusões. Como toda representação, a imagem não é a realidade em si, mas uma interpretação. Marins exemplifica essa seletividade: não existe nenhum registro visual do Largo do Pelourinho, atual Largo Sete de Setembro, em São Paulo, nem mesmo fotografado por Militão de Azevedo.

“Ele também tinha um olhar seletivo. Escolheu algumas áreas para fotografar. Santa Ifigênia, não fotografou. Ruas da Liberdade, quase nada. Seu olhar era seletivo porque ele fazia as fotografias para vender. E as pessoas queriam as partes consideradas mais belas”, detalha Marins, traçando um paralelo com a busca por “likes” nas redes sociais da atualidade. Essa perspectiva nos lembra que, mesmo os registros históricos, refletem os valores e interesses de seu tempo.

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Em suma, a iconografia de São Paulo é um testemunho da sua evolução, desde uma vila modesta no sertão até a metrópole cosmopolita de hoje. Os mapas, gravuras, pinturas e fotografias pioneiras oferecem um vislumbre valioso do passado da cidade, mostrando como cada época buscou representar sua própria São Paulo. Continue explorando as nuances da nossa história e desenvolvimento urbano em nossa editoria de Cidades, acessando https://horadecomecar.com.br/cidades/ para mais artigos.

Crédito da imagem: João Teixeira Albernaz/Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores

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