A icônica obra de Vincent van Gogh, A Noite Estrelada, continua a cativar o público e, mais recentemente, a provocar um acalorado debate no meio científico. Seus redemoinhos e espirais, que hipnotizam observadores há gerações, levantaram uma questão complexa: essas representações artísticas espelham, de fato, o fenômeno físico da turbulência? A polêmica em torno da conexão entre a arte do mestre holandês e a mecânica dos fluidos, que governa desde a fumaça de uma chaminé até os redemoinhos em rios, está longe de ser resolvida.
Em 2024, um estudo conduzido por pesquisadores da China e da França reacendeu a discussão. O artigo, publicado na renomada revista Physics of Fluids e assinado por seis cientistas, alegava ter identificado a turbulência – um fenômeno físico intrincado e de difícil compreensão – na escala das pinceladas de Van Gogh. Essa pesquisa adicionou uma nova camada a um diálogo que se desenrolava por anos nas páginas de periódicos científicos dedicados à física.
Turbulência em ‘A Noite Estrelada’ Gera Debate entre Cientistas
A repercussão do estudo não tardou a chegar a James Riley, professor emérito de engenharia mecânica na Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Ao receber a notícia do artigo por sua filha, Riley expressou surpresa. “Parecia meio estranho”, afirmou. Com uma sólida formação em mecânica dos fluidos, tendo sido aluno de pós-graduação de Stanley Corrsin – uma figura que fez contribuições significativas para o entendimento da turbulência –, Riley decidiu analisar o trabalho. Sua conclusão foi incisiva: “Baixei o artigo, li e percebi que era um absurdo, simplesmente um absurdo.”
Desde essa primeira avaliação, Riley e outros cientistas têm se empenhado em refutar as conclusões do estudo de 2024. Publicaram, até o momento, três artigos que contestam veementemente os argumentos iniciais, utilizando um tom que raramente se vê em publicações científicas. Em um artigo de 2025, veiculado no Journal of Turbulence, Riley e Mohamed Gad-el-Hak, também especialista em mecânica de fluidos da Universidade Commonwealth da Virgínia, declararam que “As alegações dos autores normalmente seriam rejeitadas imediatamente por pesquisadores de fluxos turbulentos.”
Esta intensa disputa sublinha a natureza dinâmica da ciência. Longe de ser um conjunto estático de fatos apresentados por especialistas imparciais, a ciência é um processo humano, marcado por descobertas, conclusões e, frequentemente, desacordos. O conhecimento é construído e refinado progressivamente, sujeito às limitações das metodologias empregadas. François Schmitt, físico do Centro Nacional Francês para Pesquisa Científica e um dos autores do artigo de 2024, manifestou surpresa com a agressividade da contestação. “Publiquei diversos artigos nos últimos 30 anos, mas nunca encontrei tanta animosidade de colegas”, escreveu ele em um e-mail, questionando o porquê de tamanha acrimônia em um campo onde os desacordos deveriam ser debatidos de forma argumentativa, sem agressão.
A Complexidade da Turbulência e as Pinceladas de Van Gogh
O fluxo turbulento é um dos problemas mais desafiadores da física. Caracterizado por seu comportamento caótico, ele está presente em inúmeros fenômenos naturais e conecta o movimento dos fluidos em uma vasta gama de escalas, desde os maiores redemoinhos até as menores manifestações. Para tentar identificar a turbulência em “A Noite Estrelada”, Schmitt e sua equipe examinaram minuciosamente as pinceladas de cada um dos 14 vórtices que compõem o céu noturno da pintura. Eles afirmaram ter encontrado nessas pinceladas um padrão que se alinhava à lei de escala proposta na década de 1940 pelo matemático soviético Andrei N. Kolmogorov, posteriormente expandida por outros cientistas, incluindo Stanley Corrsin, orientador de Riley.
A ampla cobertura midiática do artigo de 2024, segundo Riley, tornou crucial o esforço para corrigir o que ele considerava um equívoco científico. Uma das análises subsequentes, publicada em agosto de 2025 no Bulletin of the American Meteorological Society, empregou técnicas similares para examinar uma obra de arte distinta: “Uma Mulher Sentada ao Lado de um Vaso de Flores”, de Edgar Degas (1834-1917). Surpreendentemente, os cientistas descobriram os mesmos padrões matemáticos na pintura de Degas, embora poucos a descreveriam como turbulenta, emocionalmente carregada ou cientificamente representativa de tal fenômeno.
Os autores desse artigo argumentaram que o simples fato de uma pintura satisfazer um critério matemático para turbulência não é suficiente para declará-la como tal. Um revisor anônimo de “A Noite Estrelada” observou que “A pintura não se parece com qualquer processo atmosférico que ocorre naturalmente, muito menos um turbulento”. Em resposta a essas críticas, Yongxiang Huang, da Universidade de Xiamen, na China, e um dos autores da pesquisa de 2024, destacou uma distinção fundamental: “Devemos apontar uma distinção crítica em relação ao tema: flores não são nuvens. Encontrar um resultado espectral específico em uma imagem pintada de flores não tem relação com nosso estudo de padrões de fluxo atmosférico turbulento em nuvens.”

Imagem: www1.folha.uol.com.br
A Aplicação da Teoria da Mecânica dos Fluidos
James Riley manteve sua postura, argumentando no Journal of Turbulence que toda a análise original configurava uma aplicação incorreta da teoria da turbulência. Em entrevista, ele defendeu abertamente a retratação do artigo de 2024. Em um terceiro texto crítico, um comentário publicado em dezembro de 2025 na Physics of Fluids, Riley e mais três cientistas uniram forças para reiterar que as conclusões do artigo original careciam de fundamentação sólida. Para entender melhor os princípios que regem essa área da física, é útil consultar fontes confiáveis sobre mecânica dos fluidos.
Em um artigo de resposta que ainda aguarda publicação, Huang e sua equipe defenderam seu trabalho, escrevendo: “Reconhecemos plenamente que a pintura é uma obra de arte, não um experimento científico. Nossa intenção nunca foi diminuir seu valor artístico, mas sim demonstrar que, por meio de uma análise rigorosa e contrariamente às afirmações anteriores na literatura acadêmica, a lei de escala de Kolmogorov-Obukhov-Corrsin pode de fato ser observada, mesmo que apenas em uma faixa restrita de escalas.”
Para a maioria das pessoas que admiram “A Noite Estrelada”, essa controvérsia acadêmica pode parecer secundária. Van Gogh era um artista que buscava expressar emoções e visões, não um matemático que antecipava teorias estatísticas que surgiriam meio século após sua morte. No entanto, a questão permanece em aberto para alguns pesquisadores. O físico José Luis Aragón, da Universidade Nacional Autônoma do México, que em um artigo anterior havia encontrado evidências de turbulência na obra, foi persuadido pelas críticas ao estudo de 2024. Segundo ele, o trabalho original apresentava um erro conceitual fundamental ao “tratar uma pintura como se possuísse a realidade física de um fluxo fluido”. Para Aragón, identificar e analisar “redemoinhos” em uma imagem estática pressupõe implicitamente a existência de um sistema físico onde nenhum existe.
Contudo, Aragón ressaltou que sua própria análise anterior encontrou “assinaturas estatísticas reminiscentes de turbulência” ao examinar o brilho das pinceladas, usando-o como uma analogia para a velocidade. Seu estudo investigou flutuações nas mudanças de brilho entre os pixels, concluindo que “A luminância contém assinaturas estatísticas reminiscentes de turbulência”, transmitindo assim “a essência do movimento turbulento com um realismo impressionante”.
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A controvérsia sobre a presença de turbulência em “A Noite Estrelada” de Van Gogh demonstra a complexidade da interpretação em campos tão distintos como a arte e a ciência. Enquanto pesquisadores debatem a aplicabilidade de leis físicas à genialidade artística, a obra continua a inspirar novas perspectivas e análises. Para aprofundar-se em outras discussões e análises intrigantes que permeiam diversas áreas do conhecimento, continue explorando nossa seção de Análises e mantenha-se informado sobre os temas que moldam o mundo contemporâneo.
Crédito da imagem: MoMA Nova York/Reprodução; Edgar Degas/The MET







