A divisão sexual do trabalho, embora muitas vezes disfarçada, ainda é uma realidade marcante na sociedade brasileira, impactando diretamente a autonomia feminina. Essa é a análise de Jaqueline Pinheiro, conhecida nas redes sociais como Jaque Conserta, uma influenciadora feminista que transformou seu ativismo em empreendedorismo social. Ela percorre o país ministrando oficinas para mulheres e pessoas não binárias, ensinando habilidades de manutenção e reparos residenciais, serviços tradicionalmente delegados a homens ou terceirizados a eles.
Através de suas aulas práticas de manutenção básica, Jaqueline visa promover o empoderamento e a independência de suas alunas. O objetivo é capacitá-las para que não sejam mais vítimas de golpes ou dependências desnecessárias, uma realidade que ela combate com a disseminação de conhecimento e ferramentas. As oficinas, conforme ressalta a influenciadora, são um caminho para a autonomia feminina.
Divisão Sexual do Trabalho Persiste, Alerta Jaque Conserta
A popularidade de Jaque Conserta cresceu exponencialmente em seu perfil no Instagram, onde compartilha anúncios de suas aulas itinerantes e vídeos bem-humorados. Nesses vídeos, ela narra situações cômicas, constrangedoras ou irracionais protagonizadas por homens, utilizando o termo “machulência” – neologismo que ouviu em Pernambuco – para descrever comportamentos machistas e ridículos. A estratégia de unir humor e ativismo mostrou-se eficaz, conquistando mais de 111 mil seguidores. Em entrevista à Agência Brasil, a influenciadora destacou que, nas redes sociais, o humor e o ódio são capazes de romper bolhas, e ela opta por trabalhar com o primeiro.
Com formação em cinema pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o trabalho de Jaque Conserta vai além do ensino técnico, provocando discussões profundas sobre as relações de gênero e os problemas sociais existentes no Brasil. Sua trajetória e perspectiva oferecem um panorama valioso sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na busca por igualdade e autonomia.
A Origem da Paixão por Reparos e a Formação da Ativista
A paixão de Jaqueline Pinheiro por consertar coisas tem raízes em sua infância. Ela passou grande parte de suas férias na loja de materiais de construção de sua avó, onde os equipamentos e ferramentas se tornaram parte de seu universo. No entanto, a decisão de se dedicar profissionalmente a essa área veio mais tarde, há cerca de nove ou dez anos, quando já tinha 32 anos. Foi nesse momento que ela encontrou na figura de Jaque Conserta a forma ideal de conciliar sua militância feminista com a geração de renda, focando em ajudar mulheres a trilharem caminhos de autonomia.
Dinâmicas Sociais e a Exclusão Feminina do Universo Técnico
A influenciadora aponta que existe uma clara dinâmica social que historicamente afasta as mulheres de tudo o que é percebido como técnico ou mecânico. Para Jaque Conserta, a divisão sexual do trabalho não apenas não desapareceu, como se tornou mais “elegante” e “disfarçada”. Ela observa que, desde a infância, meninos são presenteados com ferramentas e incentivados a desmontar objetos, enquanto meninas recebem panelinhas e são estimuladas a manter a limpeza. Essa disparidade na criação leva a uma crença estrutural de que certas habilidades “não são coisa de mulher”, resultando na maioria das meninas crescendo com a convicção de que são incapazes de realizar reparos e que dependem de um homem para isso. Tal situação, segundo ela, não é acidental, mas sim uma consequência da estrutura patriarcal.
Vulnerabilidade e Violência Geradas pela Dependência
A falta de domínio em habilidades básicas de reparo e manutenção expõe as mulheres a uma série de vulnerabilidades, que podem se converter em golpes, abusos e diferentes formas de violência, tanto em relacionamentos pessoais quanto com prestadores de serviço. A dependência, frisa Jaque Conserta, cria brechas para manipulação e controle em diversos níveis: financeiro, psicológico, relacional, físico e sexual. Relatos comuns incluem profissionais que desrespeitam limites, assediam, intimidam ou cobram valores abusivos, aproveitando-se do desconhecimento da mulher. A capacidade de lidar com ferramentas básicas e reparos vai além da técnica; é um ato de romper com um dispositivo social de dependência. A autonomia, conforme Jaque, foi o primeiro elemento que o patriarcado subtraiu das mulheres para se consolidar.
Experiências Negativas e a Misoginia Estrutural
Os relatos de mulheres que procuram Jaque Conserta sobre suas experiências negativas com homens prestadores de serviço são constantes e, muitas vezes, gravíssimos. Eles incluem profissionais que tentam intimidar, elevam a voz, adotam uma postura infantilizante, cobram valores exorbitantes, inventam defeitos ou quebram peças propositalmente. Além disso, são frequentes os casos de assédio, comentários inapropriados sobre o corpo, insinuações, tentativas de flerte, invasão de privacidade e perguntas sobre a mulher morar sozinha. Há também a violência simbólica, com profissionais que zombam das perguntas ou duvidam da capacidade das mulheres de entenderem seus próprios orçamentos. Jaque Conserta enfatiza que essas situações não são exceções isoladas, mas sim sintomas de uma estrutura social profundamente misógina. Para aprofundar a compreensão sobre a igualdade de gênero no contexto brasileiro, vale consultar informações adicionais sobre o tema em fontes confiáveis como a Agência Brasil.
Humor e “Machulência” no Instagram
Sobre a fonte de suas imagens e vídeos de homens em situações “ridículas” para o Instagram, Jaque Conserta revela que não precisa procurá-los ativamente; o próprio algoritmo da plataforma já entendeu seu interesse e os apresenta. Ela brinca que deveria começar a curtir receitas ou vídeos de animais para diversificar seu feed. Embora a maioria de seus seguidores seja feminina, a influenciadora percebeu um crescimento no número de seguidores homens no último ano. Ela relata que muitos deles curtem o conteúdo e, para sua surpresa e satisfação, oferecem feedback positivo, dizendo que passaram a identificar mais a “machulência” e a evitar reproduzi-la. Um aspecto que a emociona particularmente são os relatos de mães que afirmam que o conteúdo de sua página tem sido de grande ajuda na educação de seus filhos, mostrando a relevância do seu trabalho na conscientização.
O Conceito de “Machulência” e suas Implicações nas Relações de Gênero
Jaque Conserta esclarece que não inventou a palavra “machulência”, mas sim desenvolveu o conceito a partir de uma expressão que ouviu em Pernambuco: “olha lá o machulento”. Ela considera a palavra “incrível” por sua capacidade de definir com facilidade aspectos da masculinidade padrão, que exalta a força e a violência acima de tudo. Esse padrão de comportamento é associado ao “macho alfa”, um homem que, em sua visão, não desenvolve inteligência emocional e canaliza qualquer sentimento em agressividade. A “machulência” também engloba a tendência masculina de presumir que sabem mais, são mais sensatos ou mais competentes que as mulheres, a ponto de, como ela exemplifica, “o mais inapto dos homens” que encontrou se achar mais apto a usar o equipamento dela.
Machulência como Base para a Violência
Para a influenciadora, a “machulência” é um conceito fundamental para explicar a violência de modo geral e, principalmente, a violência contra as mulheres. Ela descreve o “macho adulto” como aquele que, consciente ou inconscientemente, acredita que precisa dominar para se sentir seguro, e essa segurança só é alcançada ao subalternizar as pessoas com quem se relaciona. Essa dinâmica da “lei do mais forte”, uma lógica intrinsecamente patriarcal, leva o homem a estar constantemente demonstrando força e, ao mesmo tempo, sentindo-se ameaçado. A necessidade de se defender, ser agressivo e manter uma posição de poder pode facilmente se converter em atos de violência contra as mulheres.
A Formação dos Meninos e a Necessidade de Abrir Mão do Poder
Jaque Conserta argumenta que a sociedade, de modo geral, está falhando na forma como educa os meninos em relação aos trabalhos de cuidado. Ela defende que os cuidados são responsabilidades de todos e que os meninos também precisam aprender a cuidar de si mesmos, dos outros e das áreas comuns da casa, estabelecendo uma nova relação com seu entorno e comunidade. Ela questiona, em tom de brincadeira, por que apenas as meninas recebem bonecas, sugerindo que estimular o cuidado desde cedo nos meninos seria benéfico, já que eles também se tornarão pais. Contudo, para uma mudança cultural mais profunda e o desmantelamento da cultura patriarcal, ela enfatiza a necessidade de ensinar os meninos a “largarem o poder”, a “dar um passo para trás” e a “abrir mão do poder” em situações onde a posição de domínio lhes é automaticamente atribuída. Isso envolve lidar com o desconforto e a frustração, emoções que, em nossa cultura, muitas vezes são ensinadas aos homens a serem respondidas com agressividade e violência. Ela lembra que, não muito tempo atrás, a “defesa da honra” era um atenuante legal para crimes, permitindo que homens ficassem impunes após assassinar mulheres. Essa cultura machista, ela conclui, impõe sofrimento a todos, independentemente do gênero.
Mulheres na Política: Rompendo a Hegemonia “Machulenta”
Ao se manifestar com a frase “chega de machulento no poder”, Jaque Conserta aborda a questão da representatividade feminina na política. Apesar de as mulheres constituírem a maioria do eleitorado brasileiro, são uma minoria nos espaços de poder. Ela destaca que, dos 513 deputados federais, apenas 91 são mulheres, e nem todas estão efetivamente engajadas na luta por mudanças e equidade. A influencer salienta a urgência de formar mais lideranças femininas comprometidas para, de fato, alcançar uma transformação política e social significativa.
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A discussão promovida por Jaque Conserta sobre a persistência da divisão sexual do trabalho e a importância da autonomia feminina ressalta a relevância do debate sobre gênero e equidade. Suas oficinas e sua presença nas redes sociais não apenas ensinam habilidades práticas, mas também provocam reflexões cruciais sobre as estruturas sociais que ainda limitam as mulheres. Para continuar explorando temas de análise social, política e as dinâmicas de gênero na sociedade, visite nossa editoria de Análises e mantenha-se informado.
Crédito da Imagem: Jaque Conserta/Arquivo pessoal






