A programação Transe – Ato I no Sesc Santo André transcende a mera apresentação teatral, propondo uma imersão profunda nos processos criativos e nos debates inerentes à obra. A iniciativa convida o público a uma jornada singular, explorando os bastidores da criação artística, desde a concepção dramatúrgica até a materialização no palco. Não se trata apenas de testemunhar um espetáculo, mas de vivenciar o percurso de uma obra em constante movimento, revelando as camadas que constroem a experiência teatral em sua totalidade.
A dramaturgia de “Transe”, peça central dessa experiência, foi originalmente desenvolvida e aprimorada durante a ocupação “Cenas Centrífugas”, realizada no próprio Sesc Santo André em 2019. Naquele período, a unidade se transformou em um efervescente ateliê de criação, onde diferentes grupos experimentaram e colaboraram. Essa dinâmica permitiu que as obras se libertassem de estruturas rígidas, assumindo a forma de dispositivos coletivos permeados pela improvisação, intercâmbio de ideias e experimentação contínua. O resultado que agora chega ao palco é intrinsecamente moldado por esse trajeto, um teatro que se ergue a partir da interação entre artistas, técnicos, o público e o próprio espaço cênico.
A proposta de vivenciar o teatro em suas diversas fases se inicia com a oficina “O Cotidiano em TRANSE”, que serve como porta de entrada para um universo usualmente oculto. O público é convidado a acompanhar as engrenagens da construção de uma peça, desde a reconfiguração do espaço do teatro até os ajustes minuciosos de luz, as definições sonoras e as decisões de direção artística. Dessa forma, a montagem deixa de ser percebida como um produto final acabado e se revela como um processo vivo e contínuo. Cada escolha técnica ou artística expõe decisões coletivas, e cada ajuste evidencia o trajeto complexo entre a concepção inicial e a realização prática. Ao final da oficina, um ensaio técnico integra participantes e equipe, tornando tangível a complexa engrenagem que sustenta a cena.
Transe Ato I: Sesc Santo André Revela Bastidores e Debate
O Cotidiano em TRANSE: Uma Imersão nos Processos Criativos
A oficina “O Cotidiano em TRANSE”, conduzida pelo elenco e equipe do espetáculo, desvenda as etapas do processo de criação, partindo da escrita dramatúrgica até a circulação da peça. A atividade destaca a metodologia colaborativa que uniu artistas e técnicos em cena, demonstrando como as escolhas e experimentações dos ensaios moldam a forma final do trabalho. Os participantes observam a adaptação da montagem ao ambiente do teatro, acompanhando a construção cenográfica, o design de luz, a sonorização e as projeções. A experiência culmina em uma passagem técnica comentada, seguida por uma sessão de diálogo e esclarecimentos sobre o complexo trabalho artístico.
O Espetáculo Transe – Ato I: Memória, Política e Delírio
No cerne da programação está o espetáculo “Transe – Ato I”, estrelado por Salloma Salomão. A trama acompanha Ricardo, um morador do bairro Jardim, em Santo André, herdeiro de uma família com fortes laços com a indústria local. Após ser atingido por um tiro nos anos 90, Ricardo é levado a revisitar sua própria trajetória em um fluxo ininterrupto de memórias. O ponto de partida da narrativa é palpável e situado: um homem, um sobrado, uma cidade. Contudo, a história rapidamente se desloca para um território de instabilidade, onde as fronteiras entre memória, política e imaginação se dissolvem. A obra estabelece um diálogo com o filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, que permeia o pensamento do personagem, mesclando suas experiências pessoais com imagens e reflexões históricas.
Encenação Inovadora e a Ruptura da Ilusão
A encenação de “Transe – Ato I” é construída a partir dessa fricção entre o real e o onírico, o individual e o coletivo. O público observa Ricardo através da janela de sua casa, que faz parte de uma estrutura cenográfica móvel. Essa estrutura gira, alterando ângulos de visão e produzindo diferentes níveis de distanciamento e aproximação com o personagem. A presença explícita de um diretor-narrador e de contrarregras em cena quebra a quarta parede e explicita o dispositivo teatral, ao mesmo tempo em que insere outras vozes e perspectivas na narrativa. Esses operadores, simbolicamente associados a “operários fantasmas”, tensionam a origem social do protagonista e ressaltam o trabalho como um pilar fundamental da dramaturgia. O figurino, concebido a partir da reconstrução de uniformes de operários do ABC paulista, reforça a profunda conexão entre corpo, história e o território industrial da região. Dessa forma, o espetáculo não se organiza em uma linearidade temporal, mas em contínuos deslocamentos entre diferentes épocas, imagens e discursos. A trajetória de Ricardo ultrapassa a esfera biográfica, remetendo a uma memória social vasta, marcada pela industrialização, militância política, desigualdades e apagamentos históricos. Ao situar a ação em Santo André, a peça não apenas nomeia um local, mas ativa uma geografia afetiva e política, profundamente reconhecível para os habitantes da cidade e instigante para observadores externos.

Imagem: André Okuma via abcreporter.com.br
Velhices, Memórias e Sensibilidades: Diálogos Intergeracionais
Expandindo o debate proposto pelo espetáculo, a programação inclui a oficina “Velhices, Memórias e Sensibilidades”, também conduzida por Salloma Salomão. Este encontro convida à reflexão sobre o tempo e as marcas que ele imprime na vida das pessoas. Através da análise de imagens, textos e relatos pessoais, a atividade aborda temas cruciais como envelhecimento, etarismo, racismo, sexualidade e direitos das populações mais velhas. A oficina propicia um espaço rico de troca entre diferentes gerações, explorando a memória e a experiência na contemporaneidade. Enquanto o espetáculo focaliza um personagem em confronto com sua jornada individual, a oficina amplia essa discussão para o campo coletivo, fomentando um debate essencial sobre as condições e perspectivas do envelhecer na sociedade brasileira atual.
Cronograma Completo e Informações para Participação
A articulação entre criação, apresentação e reflexão caracteriza esta programação do Sesc Santo André, que convida o público a uma experiência teatral completa, sem hierarquizar o processo e o resultado final.
O Cotidiano em TRANSE
- Com: Elenco e equipe do espetáculo Transe – Ato I
- Datas: 1 e 8 de maio (sextas-feiras)
- Horário: Das 14h às 17h30
- Local: Teatro
- Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos
- Inscrições: Pelo aplicativo Credencial Sesc SP, a partir de 15 de abril
Transe – Ato I
- Com: Salloma Salomão
- Datas: 1, 2 e 9 de maio (sextas e sábados, às 19h); 8 de maio (sexta-feira, às 20h)
- Local: Teatro
- Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos
- Ingressos: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia-entrada) / R$ 15,00 (Credencial Plena)
Velhices, Memórias e Sensibilidades
- Com: Salloma Salomão
- Data: 9 de maio (sábado)
- Horário: Das 15h às 17h
- Local: Teatro
- Público: Idosos
- Inscrições: Gratuitas, no local, com 30 minutos de antecedência
Sesc Santo André
- Endereço: Rua Tamarutaca, 302 – Vila Guiomar, Santo André
- Telefone: (11) 4469-1200
- Estacionamento: R$ 7,00 (primeira hora, Credencial Plena); R$ 2,00 (horas adicionais, Credencial Plena); R$ 14,00 (primeira hora, outros); R$ 3,50 (horas adicionais, outros).
- Mais informações: Para detalhes sobre outras programações, visite o portal oficial do Sesc SP.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
Esta programação inovadora no Sesc Santo André oferece uma oportunidade única de engajamento com a arte teatral em sua completude, desde o processo criativo até a reflexão social. Ao desvendar os bastidores de “Transe – Ato I” e fomentar debates sobre temas cruciais, o Sesc reafirma seu papel como polo cultural e de fomento ao pensamento crítico. Continue explorando as tendências e análises do cenário cultural e social em nossa editoria de Cidades, e mantenha-se atualizado sobre os eventos que transformam o cotidiano.
Foto: André Okuma






