A Rota dos Milagres, um renomado roteiro turístico do litoral de Alagoas que abrange as cidades de São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, registrou um alarmante número de 14 desaparecimentos de pessoas entre os anos de 2024 e 2026. A situação se agrava em meio à expansão de facções criminosas na área, que também fica próxima a Maragogi. O governo alagoano assegura que investigações estão em curso para localizar as vítimas e identificar os responsáveis por esses atos.
De acordo com informações da polícia, os desaparecimentos forçados estão intrinsecamente ligados à crescente atuação de organizações criminosas na região. Especialistas apontam que essa tática é empregada por grupos criminosos como um método para consolidar o domínio territorial. A estratégia visa evitar a maior atenção e mobilização policial que os homicídios de rivais ou membros poderiam provocar, optando por uma forma de eliminação que gere menos repercussão imediata.
Rota dos Milagres: 14 Desaparecimentos em 2 Anos por Facções
A problemática da segurança pública na Rota Ecológica dos Milagres transcende os 14 casos registrados nos últimos dois anos. O governo de Alagoas admite um total de 19 pessoas desaparecidas em um período mais abrangente, entre 2022 e 2026, embora não detalhe as ocorrências anuais. Além dos desaparecidos, sete corpos foram descobertos na área durante o mesmo período. Destes, três foram identificados como vítimas previamente dadas como desaparecidas, enquanto a identificação de outros dois aguarda exames de DNA e dois permanecem sem identificação e sem reclamação por parte de familiares. Esse panorama eleva o cômputo geral da violência que assola a região.
No ano anterior, o jornal Folha já havia noticiado o problema, quando a contagem indicava quatro desaparecimentos. Nesta semana, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado divulgou o dado atualizado, enfatizando que todos os desaparecidos teriam alguma conexão, direta ou indireta, com o tráfico de drogas e o crime organizado. Contudo, essa versão da SSP é contestada por familiares das vítimas. A associação de seus filhos a facções trouxe profundo desespero às mães. Um grupo de cinco mães, que preferiu manter o anonimato ao conversar com a reportagem, afirmou que três de seus filhos eram usuários de maconha, um utilizava crack, e uma delas negou qualquer envolvimento do filho com substâncias ilícitas.
As mães entrevistadas reforçaram que seus filhos não possuíam ligação com o crime organizado e não tinham antecedentes criminais. Muitos dos jovens, que exerciam atividades profissionais, apresentaram certidões de “nada consta” aos seus empregadores. Elas também manifestaram queixas sobre a ausência de suporte institucional, declarando nunca terem sido contatadas pelo poder público para discutir os desaparecimentos. Sem apoio jurídico ou psicológico, elas compartilham suas angústias e mágoas mutuamente. A pressão e as ameaças recebidas, frequentemente por meio de perfis anônimos nas redes sociais, quando falavam publicamente sobre seus filhos, levaram parte dessas mães a deixar as cidades da Rota dos Milagres. Para elas, o ciclo de sofrimento não se encerra, pois a falta de oportunidade de reencontrar seus entes queridos ou de sepultá-los dignamente revive a dor diariamente.
Entre os 14 indivíduos que permanecem desaparecidos, 13 são homens. A única mulher, Maria Vitória Chaves da Silva, de 22 anos, sumiu em 8 de dezembro do ano passado em São Miguel dos Milagres. A maioria das vítimas é jovem, com apenas um deles, Cristiano Henrique Pinto dos Santos, de 38 anos, tendo mais de 30 anos. Oito dos casos foram registrados em 2025, entre fevereiro e dezembro, e um deles ocorreu em 22 de janeiro de 2026, quando Bruno Viana de Souza, de 23 anos, desapareceu em São Miguel.
Um dos casos detalhados é o de Pedro William dos Santos Silva, 26 anos, que desapareceu em 8 de março de 2025. Após retornar do trabalho com o pai, ele informou à família que iria cortar o cabelo e foi visto pela última vez na região da praia de Porto da Rua, em São Miguel. Pedro William é pai de um filho de 5 anos e alimenta o sonho de ser cozinheiro, mantendo páginas nas redes sociais onde compartilha suas receitas. A lista dos 14 desaparecidos entre 2024 e 2026 é extensa:
Desaparecimentos em São Miguel dos Milagres:
- Ronilson Santos da Silva, 23 anos, desapareceu em 29 de maio de 2024.
- Carlos Gabriel Rodrigues dos Santos, 19 anos, desapareceu em 24 de julho de 2024.
- Guilherme Santos de Almeida Lima, 21 anos, desapareceu em 2 de fevereiro de 2025.
- Pedro William dos Santos Silva, 26 anos, desapareceu em 8 de março de 2025.
- Eduardo dos Santos, 20 anos, desapareceu em 13 de maio de 2025.
- Alefi José Lima Santos, 22 anos, desapareceu em 9 de outubro de 2025.
- Maria Vitória Chaves da Silva, 22 anos, desapareceu em 8 de dezembro de 2025.
- Bruno Viana de Souza, 23 anos, desapareceu em 22 de janeiro de 2026.
Desaparecimentos em Porto de Pedras:
- Cristiano Henrique Pinto dos Santos, 38 anos, desapareceu em 14 de setembro de 2024.
- Diego Lucas Ferreira da Silva, 29 anos, desapareceu em 16 de novembro de 2024.
- Laudevanio Silva dos Santos, 27 anos, desapareceu em 26 de novembro de 2024.
- Marcondes Alves da Silva, 22 anos, desapareceu em 11 de julho de 2025.
- Diego Lourenço da Silva (Pé de Pato), 29 anos, desapareceu em 18 de outubro de 2025.
- Jó Mario da Silva, 21 anos, desapareceu em 18 de outubro de 2025.
A Secretaria de Segurança Pública informou que a região da Rota dos Milagres é palco da atuação de quatro grupos criminosos vinculados a duas grandes facções. A “Tropa do Kebinho” e o “Trem Bala do CV” estão associados ao Comando Vermelho, que predomina na área. Já o PCC e a “Tropa dos Crias” teriam ligações com a facção de origem paulista e estariam baseados em São José da Coroa Grande (PE), na divisa de Alagoas com Pernambuco. As motivações para os desaparecimentos, segundo a SSP, incluem dívidas relacionadas ao tráfico, rivalidades entre as facções, possíveis delações e traição aos códigos internos dessas organizações.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Luiz Fábio Paiva, professor de sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e estudioso das dinâmicas de violência entre facções, explica que os desaparecimentos configuram uma estratégia de domínio territorial. O objetivo é eliminar um indivíduo sem atrair a mesma repercussão que um homicídio geraria. “É preciso que o poder público faça um investimento muito pesado em sua área de investigação, inteligência, para não possibilitar que isso aconteça de maneira recorrente e consequentemente se torne um evento crítico que vai de certa maneira perdurar e ser uma estratégia recorrente, causando uma enorme dor e sofrimento a toda a sociedade”, alertou o especialista sobre a urgência de uma resposta eficaz. Para uma compreensão mais aprofundada sobre as dinâmicas do crime organizado no país, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública oferece dados e análises relevantes.
Os corpos encontrados na região apresentavam sinais de violência e estavam localizados em áreas de difícil acesso, como matas, sendo descobertos muitas vezes a partir de informações repassadas por familiares à polícia. Alguns estavam enterrados, enquanto ao menos um foi encontrado a céu aberto. A complexidade do terreno e o fato de ser uma área pouco habitada dificultam as operações de busca. O caso mais recente de localização de um corpo foi o de Nicolas Jhonathan Santos Cunha, de 17 anos. Ele havia desaparecido em 27 de março a caminho de uma escola em São Miguel, e seu corpo foi encontrado em uma estrada vicinal na Fazenda Salema, zona rural do município, em 4 de abril. Outro corpo, ainda sem identificação, também foi descoberto na mesma fazenda.
O coronel Patrick Madeiro, secretário-executivo de Políticas de Segurança Pública, garantiu que o poder público está agindo para solucionar os casos de desaparecimento. “É de interesse da segurança pública encontrar essas pessoas. Por mais que seja doloroso para a família, são pessoas que têm um vínculo com a criminalidade, ou através de traficantes ou usuários de drogas”, afirmou. Ele acrescentou: “Nós montamos uma equipe de inteligência para aquela região e temos outras medidas que ainda não foram divulgadas, mas que já existe um inquérito de crime organizado voltado ao enfrentamento a essa modalidade criminosa de facções criminosas, do Comando Vermelho e do PCC.”
Ronilson Medeiros, coordenador do setor de desaparecidos em Alagoas, ressaltou a importância de uma rede de apoio aos familiares, incluindo suporte assistencial, psicológico e jurídico. “Nós conduzimos uma investigação sem julgamentos, cujo objetivo é encontrar pessoas”, destacou. O Ministério Público do estado informou ter requisitado os boletins de ocorrência e informações sobre os inquéritos policiais instaurados relacionados aos desaparecimentos, com o propósito de assegurar a devida apuração dos fatos.
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A situação dos desaparecimentos na Rota Ecológica dos Milagres, em Alagoas, revela um cenário complexo de violência e atuação de facções, impactando diretamente a segurança e o bem-estar da população local e de seus visitantes. As autoridades seguem empenhadas na elucidação dos casos e na busca por respostas para as famílias. Para acompanhar mais notícias sobre segurança pública e o cenário das cidades brasileiras, continue navegando em nossa editoria de Cidades.
Crédito da imagem: Divulgação SSP-AL







