O governo do presidente ultraliberal Javier Milei enfrenta uma fase de intensa turbulência na Argentina. A gestão da Casa Rosada tem sido desafiada por uma conjunção de fatores que incluem escândalos de corrupção, uma notável desaceleração econômica e industrial, além de uma queda nos índices de popularidade. Essa série de eventos marca o período mais crítico desde que Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023.
A inflação, que havia sido um dos pilares da narrativa política do governo, registrou uma indesejável aceleração. Após um período de sucesso na redução dos índices mensais de dois dígitos, observados no final de 2023, para cerca de 2% ao mês ao longo de 2025, os preços voltaram a subir de forma preocupante. Entre o final do ano passado e o início de 2026, a taxa de inflação mensal atingiu 3,4% em março deste ano, um revés significativo para as metas econômicas da administração.
Desafios de Milei na Argentina: Crise, Corrupção e Economia
A recente escalada inflacionária forçou o próprio presidente Javier Milei a reconhecer publicamente as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país. Em uma de suas plataformas de comunicação, o líder argentino admitiu a gravidade do cenário ao declarar que “o dado é ruim”. Paralelamente, a atividade econômica da Argentina registrou uma retração de 2,6% em fevereiro em comparação com o mês anterior, janeiro, culminando em uma queda acumulada de 2,1% nos últimos 12 meses. Essa performance negativa no setor produtivo acende um alerta sobre a saúde da economia nacional.
Um dos aspectos mais alarmantes do atual panorama é a acentuada redução na produção industrial. Em fevereiro, o setor registrou uma baixa de 4%, contribuindo para uma queda acumulada de 8,7% nos últimos 12 meses. Essa diminuição na capacidade manufatureira representa um desafio crucial para o desenvolvimento e a estabilidade econômica de longo prazo da Argentina, impactando diretamente o emprego e a competitividade do país no mercado global.
Análise do Plano Econômico e Suas Implicações
O plano econômico proposto pelo governo de Javier Milei, focado na redução do tamanho do Estado, corte de gastos e austeridade fiscal como mecanismos para conter a inflação e revitalizar a economia, tem sido alvo de análises críticas. O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Paulo Gala, descreveu a abordagem como “simplista”, argumentando que ela não tem sido suficiente para reverter completamente a complexa situação econômica herdada pela atual gestão.
Segundo Gala, a confiança na moeda argentina, o peso, está seriamente abalada, levando a população e as empresas a “dolarizar” contratos, um fenômeno reminiscente do Brasil antes da implementação do Plano Real. “Com isso, com qualquer coisa a inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”, afirmou o especialista. Para ele, o plano de Milei apresenta limitações e dificilmente terá sucesso em longo prazo sem medidas mais robustas, como a possível instituição de uma nova moeda para restaurar a estabilidade monetária.
O economista também ressaltou que o peso argentino encontra-se sobrevalorizado, uma condição que, em sua análise, tem um efeito “fatal” na indústria nacional. “Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim”, explicou Gala. Ele criticou a “abertura comercial violenta” promovida pelo governo, que, segundo ele, “destrói o pouco que restou de indústria na Argentina”, impulsionando uma crescente desindustrialização e focando a economia quase exclusivamente no setor agroexportador de matérias-primas.
Nesse contexto, Paulo Gala não descarta a possibilidade de a Argentina enfrentar um cenário de recessão, com o agravante de uma potencial nova crise cambial, intensificada pela enorme dívida em dólares do país. Atualmente, a Argentina tem recorrido a novos empréstimos junto a bancos internacionais, denominados em dólares, na tentativa de sustentar o valor do peso e evitar um colapso financeiro ainda maior.
Queda na Popularidade e Casos de Corrupção
Além das adversidades econômicas, a administração de Milei tem enfrentado uma significativa queda em seus índices de popularidade, parcialmente atribuída a recentes casos de corrupção. Um dos exemplos mais notórios envolve a investigação sobre suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni. Ele tem sido questionado sobre viagens de luxo e a compra e reforma de imóveis, cujos valores seriam incompatíveis com sua renda declarada.
Pesquisas de opinião revelam uma desaprovação superior a 60% da população, os piores números desde que Milei assumiu o poder em dezembro de 2023. Um levantamento da Atlas Intel, divulgado no final de abril, indicou uma reprovação de 63% da imagem de Milei, com apenas 35% de aprovação. A corrupção e o desempenho econômico surgem como os fatores mais decisivos para essa baixa popularidade, superando até mesmo o desemprego e a própria inflação na percepção pública.
De acordo com a consultoria Zentrix, 66,6% da população argentina considera que a promessa “anticasta” de combate à corrupção, um dos pilares da campanha de Milei, foi quebrada. A corrupção desponta como o principal desafio do país, inclusive entre aqueles que votaram no partido governista em 2025, evidenciando uma profunda desilusão popular.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
O cientista político argentino Leandro Gabiati, em entrevista à Agência Brasil, explicou que a eleição de Milei foi fortemente impulsionada por um discurso de combate à corrupção, que tem sido desconstruído ao longo do seu mandato. “Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”, analisou Gabiati. Ele reconhece que a população percebe a redução da inflação, mas pondera que os preços ainda sobem consideravelmente, algo entre 30% a 40% ao ano, exigindo maior esforço tanto da sociedade quanto do governo.
Apesar dos desafios, um fator que tem favorecido o governo Milei é a desorganização e a baixa aprovação da oposição. Gabiati observa que, embora o governo enfrente problemas urgentes, a oposição “ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção política clara para o eleitor argentino”, o que adia a preocupação com as eleições presidenciais de 2027.
Em uma notícia mais favorável, a consultoria de riscos Fitch Rating elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B-, com perspectiva de estabilidade. O reconhecimento das melhorias na situação fiscal e na balança externa do país resultou em uma alta na bolsa de Buenos Aires na quarta-feira (6). No entanto, o economista Paulo Gala mantém sua posição cética, afirmando que essa melhora pontual não altera o quadro geral de fragilidade da economia argentina.
Apesar das complexidades internas, o cenário econômico argentino é objeto de constante análise por especialistas e veículos de comunicação de peso, que buscam compreender a fundo as implicações das políticas implementadas. Um exemplo de tal cobertura pode ser encontrado em análises recentes que abordam os desafios econômicos enfrentados pelo país e as perspectivas futuras, como a reportagem do Valor Econômico que detalha a comemoração de superávit zero por Milei e os alertas de economistas.
Tensão com a Imprensa e Liberdade de Informação
Em meio a este contexto de desafios políticos e econômicos, o governo Milei também tem direcionado sua atenção à imprensa. No final de abril, foi imposta uma proibição de entrada de jornalistas na Casa Rosada, afetando aproximadamente 60 profissionais que cobriam o Poder Executivo em Buenos Aires. A medida foi justificada com acusações de que algumas emissoras teriam filmado áreas restritas do edifício sem autorização, alegações que foram negadas pelas empresas de mídia envolvidas.
A decisão gerou fortes críticas, sendo apontada como uma violação à liberdade de imprensa na Argentina. Em resposta à repercussão negativa, o governo reabriu a Casa Rosada para a imprensa na segunda-feira (3) seguinte. Contudo, restrições à circulação e ao acesso de jornalistas dentro da sede do poder continuam em vigor, mantendo um clima de tensão entre a administração e os veículos de comunicação, fato que foi acompanhado de perto pela imprensa, inclusive por edições como a de Fernando Fraga.
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Em suma, a administração de Javier Milei atravessa um período de intensos desafios, com a conjugação de escândalos de corrupção, uma inflação que teima em se manter em patamares elevados e um cenário de desaceleração econômica e industrial. A forma como o governo argentino lidará com essas questões cruciais determinará não apenas o futuro da Argentina, mas também a percepção de sua gestão no cenário internacional. Para aprofundar a compreensão sobre os cenários políticos e econômicos que moldam as nações latino-americanas, convidamos você a explorar mais conteúdos em nossa seção de política e a se manter atualizado com as análises de nossos especialistas.
Crédito da Imagem: Reuters/Matías Baglietto/Proibida reprodução







