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Ilha de Gorée: Turismo e a Memória Viva da Escravidão

Internacional

A Ilha de Gorée, um Patrimônio Mundial da Humanidade, representa um símbolo pungente da memória da escravidão e, paradoxalmente, depende vitalmente do turismo para a subsistência de seus habitantes. Localizada a poucos quilômetros da costa de Dacar, capital do Senegal, este pequeno enclave africano atrai dezenas de milhares de visitantes anualmente, transformando sua profunda carga histórica em uma fonte crucial de renda para a comunidade local.

Acessível por uma curta travessia de balsa a partir do Porto de Dacar, a Ilha de Gorée emerge como o destino turístico mais procurado em todo o Senegal. Com uma extensão territorial de apenas 17 hectares, área comparável a menos de 25 campos de futebol, a ilha foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) desde 1978. Esse prestigiado título não só amplifica sua visibilidade global, mas também sublinha sua importância inestimável para a história da humanidade.

A distinção da UNESCO serve como uma das explicações primárias para o status de Gorée como epicentro turístico do Senegal, ancorada em uma narrativa histórica profunda. A ilha se estabeleceu como uma memória viva do período da escravidão de africanos, funcionando como um entreposto crucial para o tráfico de pessoas. A localização estratégica de Gorée, voltada para o vasto Oceano Atlântico, a transformou em um ponto de partida forçado para milhões de africanos escravizados, embarcados compulsoriamente rumo às Américas por colonizadores europeus — portugueses, holandeses, ingleses e franceses — entre os séculos XV e XIX. Aqueles que sobreviviam à traumática travessia transoceânica eram destinados a uma vida de servidão em diversas regiões, incluindo Brasil, Estados Unidos, Cuba, Haiti e o Caribe.

Ilha de Gorée: Turismo e a Memória Viva da Escravidão

No coração de Gorée, ergue-se a emblemática Casa dos Escravos, uma construção de dois andares que serviu como local de aprisionamento para os africanos antes de sua passagem irreversível pela famosa Porta do Não Retorno. Este local, hoje transformado no centro mais pulsante da ilha, cumpre a função vital de preservar e evocar a memória da escravidão, convidando visitantes à profunda reflexão sobre as atrocidades ali cometidas. Em 2023, a Agência Brasil já havia documentado detalhadamente a experiência de visitar este Patrimônio da Humanidade, reforçando a relevância contínua da ilha como um marco histórico mundial.

A Realidade Demográfica e a Economia Local de Gorée

Atualmente, a população da Ilha de Gorée, conforme o censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD), equivalente ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de aproximadamente 1,7 mil moradores. Para esses menos de 2 mil habitantes, o considerável fluxo anual de dezenas de milhares de turistas representa a principal oportunidade de geração de emprego e renda. No final de abril, um mês após a Organização das Nações Unidas ter declarado a escravidão de africanos como o mais grave crime já cometido contra a humanidade, a dinâmica econômica da ilha foi novamente observada, confirmando a dependência vital do setor turístico.

Vozes de Gorée: Histórias de Vida e Empreendedorismo

Fama Sylla, uma vendedora senegalesa que aborda visitantes ainda no porto de Dacar, exemplifica essa dependência. Já na ilha, ela reitera a importância crucial desse setor: “O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso, vivemos do turismo”, afirma. Fama explica que seu ponto de venda, similar às baias de artesanato comuns em galerias no Brasil, é uma tradição familiar, herdada de sua avó e, subsequentemente, de sua mãe, perpetuando o legado comercial na ilha.

Perto do cais de desembarque, Chaua Sall, vestindo um boubou, túnica tradicional da África Ocidental, comercializa esculturas de madeira que representam animais típicos africanos, como girafas e hipopótamos. “Quero vender coisas bonitas para as pessoas”, diz ele, destacando a diversidade dos visitantes. “Aqui você recebe turistas de vários lugares: França, Espanha, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Itália – pessoas do mundo todo vêm para a Ilha de Gorée.” A subsistência de seu filho e irmão também advém diretamente da atividade turística na ilha.

Aminata Fall adota uma abordagem cativante para atrair a atenção dos turistas internacionais. Com saudações em diversos idiomas, incluindo “Bom dia” em português, ela estabelece uma conexão inicial com os visitantes. No Senegal, o francês é o idioma oficial, herança da colonização europeia, enquanto o wolof, de origem africana, é amplamente falado nas ruas. Aminata salienta que as únicas atividades econômicas da ilha são a pesca e o turismo. “As mulheres têm lojas, e os homens pescam ou trabalham como guias turísticos. É assim que trabalhamos aqui nessa pequena Ilha de Gorée. Não temos fábricas, nada além de turismo e pesca”, ela constata.

A vendedora enfatiza a notável hospitalidade dos goréeanos. “Somos muito gentis e acolhedores com pessoas do mundo todo que vêm visitar a Casa dos Escravos. E, depois da visita, se tiverem tempo, não as obrigamos a ir ao mercado, mas, se quiserem, podem passar lá para ver o que fazemos”, descreve. Essa característica, aliás, não se restringe à ilha, mas permeia todo o Senegal, a ponto de a seleção de futebol do país ser apelidada de “Leões de Teranga”, um termo wolof que encapsula a hospitalidade e o carisma senegaleses.

Ilha de Gorée: Turismo e a Memória Viva da Escravidão - Imagem do artigo original

Imagem: Bruno de Freitas Moura via agenciabrasil.ebc.com.br

Um dos percursos guiados por Gorée invariavelmente inclui uma parada no ateliê de Cheikh Sow. O artista emprega uma técnica peculiar que combina cola e diferentes tonalidades de serragem para criar quadros que retratam paisagens e elementos culturais africanos. Sua demonstração ao vivo é uma estratégia para persuadir os turistas a adquirir suas obras. “Eu sou artista e deixei tudo para viver da pintura, para ganhar a vida com quadros, porque meus pais não tinham condições suficientes para nos sustentar”, relata Sow à Agência Brasil. Ele prossegue: “Por isso, preferi estudar na escola de belas-artes e, assim, consigo ganhar a vida.” O artista também menciona o impacto de seu trabalho na vida familiar: “Também temos mulheres, temos filhos, e, com essas pinturas, até tentamos construir casas para viver melhor. A ilha é realmente calma e tranquila, não há grandes problemas, como a poluição”, completa ele, que compartilha o ateliê com outros profissionais. Sobre o legado da escravidão, Cheikh Sow pondera: “Em relação à escravidão, procuramos deixar isso no passado. O essencial, para nós, jovens da ilha, é tentar todos os dias ganhar a vida da melhor maneira possível, sempre pelo caminho certo. É assim que vivemos hoje”, conclui.

Gorée como Santuário de Memória e Educação

Mamadou Bailo Diallo, um guia de turismo local, também depende do fluxo de visitantes, realizando entre um e dois tours diários pela ilha. Durante as visitas à Casa dos Escravos, ele narra a história da passagem do líder sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), que esteve encarcerado por 27 anos sob o regime do apartheid. Bailo Diallo recorda aos visitantes que Mandela passou alguns instantes em uma cela de punição utilizada para escravizados, emergindo do cubículo em prantos. Lágrimas semelhantes, ele observa, frequentemente surgem nos rostos dos turistas. “Eu percebo que algumas pessoas brancas choram. A escravidão é vergonhosa para elas. É uma questão de humanidade, não de cor”, afirma o guia de turismo à Agência Brasil. Em Gorée, um monumento homenageia Mandela, que se tornou presidente da África do Sul anos após sua visita, com a inscrição: “Ao fazermos a nossa luz brilhar, oferecemos aos outros a oportunidade de fazer o mesmo.”

O engenheiro civil Daouda Ndiaye, residente em Dacar, descreve sua visita à ilha como de “grande importância, não só para o Senegal, mas para todo o continente africano.” Ele enfatiza que o local “representa uma memória viva, um capítulo doloroso da história que é essencial preservar para que nunca seja esquecido.” Ndiaye complementa que Gorée “permite-nos homenagear os milhões de pessoas que sofreram e transmitir esta história às gerações futuras, para que possam aprender com ela.” Para o visitante, a ilha é inegavelmente um espaço de memória, reflexão e aprendizado, convidando a “uma profunda consciência das consequências humanas da escravatura e da importância de defender a dignidade humana em todo o mundo.”

Além de sua função como memória viva, Gorée funciona como uma autêntica sala de aula a céu aberto. Diariamente, a ilha é desbravada por excursões de centenas de estudantes de escolas de Dacar, que, entre sons de animação e alegria, transformam o turismo em uma poderosa ferramenta educacional, conforme sugerido por Daouda Ndiaye. Esses grupos de crianças e adolescentes enchem a ilha com uma trilha sonora de vivacidade, que hoje substitui o eco do sofrimento que ressoava em Gorée séculos atrás.

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A Ilha de Gorée permanece um testemunho vívido de um passado doloroso, mas também um exemplo inspirador de resiliência e adaptação. Por meio do turismo, seus habitantes não apenas garantem seu sustento, mas também perpetuam a crucial missão de educar o mundo sobre a memória da escravidão e a importância da dignidade humana. Para aprofundar-se em outros temas que moldam a sociedade e a economia, explore mais conteúdos em nossa editoria de Cidades. Continue acompanhando nossas notícias e análises para se manter informado.

Crédito da imagem: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil

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