A cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim marcou um momento decisivo nas relações internacionais, com a agenda dos líderes dos Estados Unidos e da China dominada por cinco grandes temas. O encontro, aguardado com expectativa, abordou desde delicadas questões geopolíticas até intrincadas dinâmicas comerciais e tecnológicas, buscando estabelecer o tom para a cooperação e a concorrência entre as duas maiores potências globais. A visita de um presidente americano à China, a primeira em quase uma década, prometia não apenas o tradicional aparato cerimonial, mas também intensas discussões sobre o futuro da ordem mundial.
A programação reservou um tempo considerável para o diálogo substancial, visando alinhar expectativas e, quando possível, conciliar interesses divergentes antes da partida de Trump. Observadores internacionais e analistas políticos acompanharam de perto cada detalhe, cientes de que os resultados dessas conversas teriam implicações de longo alcance para a economia global, a segurança regional e a política internacional como um todo.
Dentre os tópicos mais relevantes, a dinâmica com o Irã, o volume de comércio e investimento bilateral, a sensível questão de Taiwan, o avanço da Inteligência Artificial e da tecnologia, além da durabilidade de uma trégua comercial preexistente, foram os pilares centrais. A seguir, exploramos os contextos e desafios que envolveram a
Cúpula Trump-Xi em Pequim: 5 Temas-Chave Definem Relação EUA-China
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O Fator Irã na Cúpula China-EUA
Um dos pontos mais sensíveis na pauta da cúpula foi a posição sobre o Irã. Donald Trump havia rejeitado a proposta iraniana sobre concessões nucleares, classificando-a como “completamente inaceitável”. A busca por um acordo abrangente que encerrasse o conflito na região do Golfo Pérsico tornou-se um dos focos de discussão em Pequim, conforme destacado por Hiroshi Nakanishi, professor da Universidade de Kyoto especializado em política internacional.
Para a China, os incentivos eram complexos. Como um dos maiores compradores de petróleo do Oriente Médio e uma economia fortemente dependente de exportações, Pequim tinha interesse em estabilizar a região e garantir a reabertura de rotas marítimas vitais. Além disso, desejava projetar uma imagem de promotora da paz global. Contudo, do ponto de vista estratégico, a manutenção dos Estados Unidos empenhados na região do Golfo era vista por Nakanishi como uma situação geopoliticamente favorável para a China.
Fontes americanas expressaram a expectativa de que o presidente Trump pressionaria a China a exercer sua influência sobre o Irã. Analistas do Eurasia Group anteciparam que a cúpula poderia resultar em uma coordenação limitada, focando em declarações conjuntas que sublinhassem a importância da reabertura do Estreito de Hormuz e da estabilização do fornecimento global de energia. No entanto, as tensões eram visíveis, especialmente após sanções impostas pelo Departamento do Tesouro dos EUA a entidades chinesas e de Hong Kong acusadas de apoiar programas iranianos de drones e mísseis, bem como refinarias supostamente ligadas ao petróleo bruto iraniano.
A resposta chinesa foi instrutiva: as empresas foram orientadas a não cumprir as sanções americanas, embora os bancos tivessem sido instruídos a suspender empréstimos para as refinarias afetadas. Essa situação adicionou pressão à trégua entre as superpotências. Segundo David Zhang, analista da Trivium China, a China não poderia demonstrar passividade se as ações americanas fossem interpretadas como uma ameaça direta à sua segurança energética ou uma humilhação a seus atores comerciais. Paralelamente, os EUA enfrentariam pressão por contramedidas adicionais caso entidades chinesas fossem consideradas sustentáculos do esforço de guerra iraniano.
Comércio e Investimento Bilateral
Um dos resultados mais esperados da visita de Donald Trump à capital chinesa era o anúncio de acordos comerciais significativos. As expectativas incluíam grandes encomendas de aeronaves da Boeing e um aumento na compra de soja americana. Para os EUA, a cúpula representava uma chance de exibir acordos concretos, enquanto para a China, era uma oportunidade de sinalizar uma possível redefinição das relações, conforme observou Larry Hu, chefe de economia da China no Macquarie.
Hu resumiu a essência do encontro: “Em resumo, esta reunião é mais sobre imagem e definição de tom do que sobre avanços concretos.” Líderes empresariais de destaque, como Elon Musk (Tesla) e o então presidente da Apple, Tim Cook, viajaram com a comitiva americana. Jensen Huang, CEO da Nvidia Corp., contrariando relatos iniciais, também esteve presente para apoiar os objetivos da administração, segundo porta-vozes da empresa.
A lista de convidados incluía ainda Larry Fink, CEO da BlackRock, cujo plano de adquirir portos globais de um conglomerado de Hong Kong havia gerado oposição de Pequim no ano anterior. Dina Powell McCormick, presidente da Meta, também participou, semanas após a China bloquear a aquisição da Manus, uma empresa de IA fundada na China, pela gigante tecnológica. Em um contexto mais amplo, Trump e Xi discutiram a criação de conselhos de comércio e investimento para gerenciar os laços econômicos e monitorar compromissos. Emily Kilcrease, pesquisadora sênior do Center for a New American Security, enfatizou a importância de detalhes e planos claros para setores mutuamente benéficos, caso esses conselhos fossem anunciados.
Apesar das expectativas de empresas chinesas por maior abertura dos EUA a investimentos, um alto funcionário americano indicou que não havia discussões sobre um programa de investimento chinês de grande escala. Hu, do Macquarie, explicou que o investimento se mostrava mais complexo devido à competição nacional e às crescentes preocupações com a segurança.
A Delicada Questão de Taiwan
A questão de Taiwan, uma das “linhas vermelhas” da China, foi outro ponto de grande atenção. Observadores especulavam se Trump se afastaria da ambiguidade diplomática tradicional sobre Taiwan, talvez expressando oposição à sua independência em vez de simplesmente não apoiá-la. Analistas do Eurasia Group consideraram essa mudança verbal improvável, mas, se ocorresse, seria um precedente significativo, aumentando a ansiedade em Taiwan sobre a credibilidade americana. Em Pequim, o premiê chinês, Li Qiang, reiterou a senadores americanos que Taiwan representa a “primeira e inviolável linha vermelha” nas relações sino-americanas.

Imagem: REUTERS via valor.globo.com
A venda de armas americanas a Taiwan também emergiu como um tema sensível. Trump mencionou ter essa discussão com Xi, o que contradizia uma garantia dada a Taipé nos anos 1980 de que os EUA não consultariam Pequim sobre tais vendas. Tóquio, envolvida em uma disputa com Pequim após a declaração da primeira-ministra Sanae Takaichi de que uma crise em Taiwan poderia ameaçar a sobrevivência do Japão, acompanharia atentamente. Mira Rapp-Hooper, ex-funcionária do governo Joe Biden, alertou que a falta de apoio público dos EUA a Takaichi ilustrava como Xi poderia usar Taiwan para criar divisões entre Washington e seus aliados. Apesar disso, Pequim poderia hesitar em exercer pressão excessiva, pois, segundo Craig Singleton, da Fundação para a Defesa de Democracias, “há valor em preservar a aparência de estabilidade”.
Inteligência Artificial e Tecnologia
Os planos para discussões sobre inteligência artificial (IA) foram limitados em detalhes, mas um alto funcionário americano indicou que a cúpula seria uma oportunidade para estabelecer um canal de desconflito. O objetivo seria que os dois países buscassem mecanismos de proteção para gerenciar os riscos da IA. Pequim via essa iniciativa como uma chance de demonstrar liderança na governança global de IA, conforme Kyle Chan, pesquisador do John L. Thornton China Center da Brookings. A colaboração de duas superpotências em IA seria vista como uma vitória para Xi.
No entanto, essa cooperação não eliminaria as tensões tecnológicas subjacentes. Meses antes, o governo Trump havia acusado Pequim de roubar modelos americanos de IA em escala industrial. Os EUA mantinham restrições à exportação de chips para a China, uma política que Xi poderia tentar flexibilizar, usando o domínio chinês sobre minerais de terras raras como alavanca. Mesmo que Trump concordasse em aliviar os controles de chips, o Congresso americano apresentara diversos projetos de lei para limitar a exportação de tecnologias críticas.
Por ora, Chan, da Brookings, previu que o governo chinês provavelmente reduziria o tom da competição em IA. Pequim necessitava de tempo para desenvolver suas próprias tecnologias e uma cadeia doméstica de suprimentos de chips, visando diminuir sua dependência de fontes estrangeiras.
Durabilidade da Trégua Comercial
A trégua para evitar tarifas retaliatórias e outras restrições comerciais, que impactava as economias de ambos os países, estava programada para expirar em 10 de novembro. Se as conversas na cúpula transcorressem de forma positiva, era esperado que não houvesse grandes alterações e que a trégua pudesse ser prorrogada. Contudo, os pontos de atrito permaneciam latentes.
As políticas tarifárias de Trump enfrentaram reveses judiciais, mas sua administração preparava o terreno para impor tarifas sob diferentes leis, incluindo taxas específicas por país para punir práticas comerciais consideradas desleais, com base na Seção 301 da legislação comercial americana. Embora as ameaças tarifárias pudessem não ter o mesmo impacto de antes, novas imposições ainda poderiam irritar Pequim. Os EUA também iniciavam um esforço para reduzir sua dependência de minerais críticos chineses.
Pequim, por sua vez, fortaleceu seu arcabouço regulatório com novas regras que puniriam empresas e governos estrangeiros acusados de discriminar as cadeias de suprimentos chinesas. As autoridades poderiam expulsar, negar entrada e confiscar ativos de infratores. A cúpula foi, portanto, observada de perto em busca de qualquer sinal de desacordo que pudesse desestabilizar a trégua e definir o tom para futuras discussões globais. Em seguida à cúpula, ministros de comércio do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) se reuniriam, e até mais três encontros presenciais entre Xi e Trump poderiam ocorrer naquele ano, com a China sediando a cúpula de líderes da APEC e os EUA, a cúpula do G20.
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A cúpula entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping em Pequim foi um evento de grande relevância, consolidando a discussão sobre as principais questões que permeiam a relação entre Estados Unidos e China. Os desdobramentos em torno do Irã, comércio, Taiwan, tecnologia e a trégua comercial continuam a moldar a geopolítica e a economia mundial. Para aprofundar suas análises sobre política internacional e economia global, continue acompanhando nossas editorias especializadas.
Crédito da imagem: Meysam Mirzadeh/Tasnim/WANA/REUTERS







