O Supremo Tribunal Federal (STF) apura a destinação de emenda parlamentar para a produtora do filme sobre Bolsonaro, uma obra biográfica intitulada Dark Horse. Há mais de um mês, oficiais de justiça empenham-se em cumprir uma determinação do ministro Flávio Dino, que busca intimar o deputado federal Mário Frias (PL-SP) para que preste os devidos esclarecimentos acerca de supostas irregularidades no direcionamento de recursos a empresas ligadas à produção cinematográfica.
A investigação teve início após a denúncia apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) em 21 de março. Segundo a parlamentar, Frias teria destinado ao menos R$ 2 milhões à Academia Nacional de Cultura (ANC), uma Organização Não Governamental (ONG) presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama. O ministro Flávio Dino concedeu um prazo de cinco dias para que o deputado se manifestasse sobre as acusações.
STF Apura Emenda Parlamentar para Filme de Bolsonaro
Karina Ferreira da Gama, figura central neste cenário, além de liderar a ANC, também está à frente de outras entidades e empresas, incluindo o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Go Up Entertainment. Esta última é a responsável pela produção do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja estreia nos cinemas brasileiros está prevista para meados de setembro, poucas semanas antes do primeiro turno das próximas eleições, o que adiciona uma camada de sensibilidade ao caso.
Conforme detalhado nos autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 854, a tentativa de intimar o deputado Mário Frias tem enfrentado obstáculos. A oficial de Justiça Federal designada para a tarefa compareceu ao gabinete do parlamentar na Câmara dos Deputados, em Brasília, em pelo menos três ocasiões distintas entre março e abril. Em todas as tentativas, foi informada por assessores que Frias estaria em São Paulo, cumprindo compromissos de campanha, e não houve demonstração de interesse em divulgar a agenda do deputado.
A denúncia de Tabata Amaral foi motivada por uma reportagem divulgada em dezembro de 2025 pelo site The Intercept Brasil. A matéria revelou que a Academia Nacional de Cultura foi beneficiada com R$ 2,6 milhões provenientes de emendas parlamentares, destinadas por deputados federais filiados ao Partido Liberal (PL), a mesma sigla do ex-presidente Bolsonaro. Além de Mário Frias, a publicação mencionou os deputados Bia Kicis e Marcos Pollon como destinatários de tais emendas.
Com base nos fatos expostos na reportagem, Tabata Amaral levanta a hipótese da existência de um grupo econômico, composto por diversas empresas e entidades, operando sob uma gestão unificada. A deputada argumenta que tal arranjo poderia dificultar o rastreamento da execução de verbas públicas, levantando a suspeita de um possível financiamento indireto de produções cinematográficas com cunho ideológico, um ponto crucial para a investigação do STF.
Também intimados pelo ministro Flávio Dino, os deputados Bia Kicis e Marcos Pollon apresentaram seus esclarecimentos dentro do prazo estabelecido. Marcos Pollon admitiu ter direcionado R$ 1 milhão para a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O objetivo era viabilizar, por meio da Go Up Entertainment, a produção de uma série documental intitulada “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”.
Entretanto, Pollon informou que, devido à inabilidade da entidade beneficiária em atender a um requisito técnico essencial, o projeto não foi adiante. Consequentemente, os recursos foram redirecionados para a área da saúde, beneficiando especificamente o Hospital de Amor de Barretos (SP). O deputado enfatizou que a ausência de execução do projeto afasta, por completo, qualquer possibilidade de desvio de finalidade ou irregularidade material na aplicação de recursos públicos, conforme sua defesa.
Bia Kicis, por sua vez, também confirmou ter destinado R$ 150 mil em recursos públicos para a série “Heróis Nacionais”, mencionada por Pollon. Assim como seu colega, a deputada ponderou que a indicação da verba não foi executada. Ela classificou a petição de Tabata Amaral como “maldosa”, por associar, de forma que considera indevida, sua emenda a supostas irregularidades e desvios de finalidade, afirmando que não há “qualquer conexão entre a emenda [parlamentar] e a obra cinematográfica Dark Horse”. A tramitação da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 854 pode ser acompanhada diretamente no portal oficial do STF para mais detalhes sobre os autos.
A deputada argumentou que “a tentativa de realizar uma amálgama entre projetos distintos, apenas por envolverem a mesma produtora ou temas de espectro conservador, constitui um erro metodológico e jurídico grave”. Bia Kicis refutou veementemente a “leviana alegação de que ajudou a custear, com dinheiro público, um filme sobre Jair Bolsonaro”. Ela defendeu que, apesar da tentativa de criminalizar sua indicação orçamentária, o STF deveria analisar o mérito social e econômico do projeto beneficiado, que, segundo ela, reflete o compromisso de seu mandato com a promoção da cultura e da história nacional brasileira. Kicis reconheceu que, com sua emenda, além de fomentar o setor audiovisual, tomou uma decisão política pautada pela potencialidade de geração de valor para a sociedade, especialmente nos campos da educação e da economia criativa.
Em um desdobramento relevante, a Advocacia da Câmara dos Deputados, instigada pelo ministro Flávio Dino, atestou que, sob o ponto de vista processual, não foram identificadas irregularidades nas duas emendas de Mário Frias – as únicas que Tabata Amaral havia elencado em sua representação inicial.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
No entanto, o cenário ganhou novos contornos nesta quarta-feira (13), quando uma reportagem do site The Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria solicitado ao banqueiro Daniel Vorcaro a destinação de cerca de R$ 134 milhões para custear o filme Dark Horse. Desse montante, Vorcaro teria liberado pelo menos R$ 61 milhões, conforme a publicação.
Áudios divulgados pela reportagem indicam que o senador e o banqueiro trocaram mensagens sobre a necessidade de aporte financeiro para a produção cinematográfica. Essas conversas teriam ocorrido às vésperas da primeira prisão de Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025. A operação aprofunda investigações sobre supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e fraudes em negociações entre os bancos Master e de Brasília (BRB).
Em um dos trechos dos áudios, Flávio Bolsonaro menciona a importância do filme e a urgência do envio de recursos para quitar “parcelas para trás”. Ele expressa preocupação: “Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme”, disse o senador na gravação.
Diante das novas informações, o deputado Mário Frias, que é roteirista e produtor executivo do filme, manifestou-se nesta quarta-feira (13). Ele afirmou categoricamente que o senador Flávio Bolsonaro não possui qualquer participação societária na obra cinematográfica ou na produtora Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama. Frias também garantiu que o filme “não recebeu nem um único centavo do Banco Master ou de Vorcaro”.
Ainda em sua defesa, Frias argumentou que, mesmo que houvesse recebido recursos, “não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada, entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido. E, na época, não havia qualquer suspeita a ele e seu banco”, sustentou. O deputado foi secretário especial de cultura entre 2020 e 2022, durante a gestão de Jair Bolsonaro. Frias também buscou justificar os elevados custos de produção do filme, que, segundo ele, são superiores a valores de produções premiadas, como “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, que totalizou R$ 45 milhões.
“Dark Horse é uma superprodução em padrão hollywoodiano, com 100% de capital privado, ator de primeira linha, além de diretor e roteirista de renome internacional — com qualidade inédita para retratar o maior líder político brasileiro do século XXI. O projeto é real, será lançado nos próximos meses e, para quem investiu, será um negócio bem-sucedido”, acrescentou Mário Frias, reafirmando a natureza e a envergadura da obra.
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As investigações do STF sobre a destinação de emendas parlamentares para a produtora do filme sobre Bolsonaro continuam a se desenrolar, revelando camadas complexas de denúncias, defesas e novas evidências. O caso envolve figuras políticas proeminentes e levanta questões importantes sobre a transparência no uso de recursos públicos e o financiamento de projetos culturais. Para aprofundar a compreensão sobre os bastidores da política nacional e os desdobramentos deste e de outros casos, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil







