Polícia Civil expressa insatisfação com Ricardo Nunes após operação

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A insatisfação da Polícia Civil com Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, tornou-se evidente após manifestações da cúpula da corporação. A reação veio na esteira de declarações do chefe do executivo municipal, que classificou como “perseguição política” uma operação que investiga supostas fraudes em um contrato milionário. Esse acordo foi firmado entre a administração municipal e uma Organização Não Governamental (ONG) que possui laços com a produtora do filme “Dark Horse”, gerando um embate público entre as instituições.

Integrantes de alto escalão da Secretaria da Segurança Pública vieram a público para reiterar e defender a plena autonomia da Polícia Civil. O objetivo foi assegurar a continuidade das investigações relacionadas à Operação Wi-Fi. Esta ação policial concentra-se na apuração de um contrato vultoso, avaliado em R$ 108 milhões, selado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). A presidência do ICB está a cargo de Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção do filme “Dark Horse”, uma obra cinematográfica que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Polícia Civil expressa insatisfação com Ricardo Nunes após operação

Ricardo Nunes, ao ser questionado sobre a operação, levantou dúvidas e contestações sobre a pertinência e o timing da investigação. Ele argumentou que “não faz sentido ir atrás de um contrato da prefeitura de 2024”, visto que o processo de filmagem do longa-metragem ocorreu em um período posterior. Em suas falas na manhã de segunda-feira, dia em que a operação foi deflagrada, o prefeito questionou: “Por que só agora veio essa questão?”. Nunes ainda detalhou que “esse processo foi feito em junho de 2024”, enquanto a “comunicação à Spcine [empresa pública de cinema e audiovisual da Prefeitura de São Paulo] de que teria a gravação do filme do Bolsonaro foi em outubro de 2025, mais de um ano depois”. Com base nesses dados cronológicos, o prefeito concluiu enfaticamente que “não existe relação” entre o contrato investigado e a produção cinematográfica.

Em contrapartida, três policiais civis, que preferiram manter o anonimato ao serem ouvidos pela reportagem, refutaram as afirmações do prefeito Ricardo Nunes. Para eles, as declarações de Nunes sobre a operação não passam de ilações sem fundamento factual. Delegados que integram a cúpula da Polícia Civil, em entrevista ao UOL, esclareceram que a ação policial não possui qualquer cunho político. Pelo contrário, destacaram que a operação representou o cumprimento rigoroso de uma requisição formal expedida tanto pelo Ministério Público Federal (MPF) quanto pelo Ministério Público Estadual (MPE). Uma fonte próxima à Secretaria da Segurança Pública reforçou a posição, enfatizando que a função da polícia é estritamente cumprir seu dever de ofício, sem fazer avaliações de cunho político ou pessoal sobre as investigações em curso.

Diante do cenário de atrito, um delegado da cúpula da Polícia Civil sugeriu que, caso o prefeito tenha reclamações formais a fazer, o caminho adequado seria recorrer ao Ministério Público. Outro membro da corporação aventou a possibilidade de Nunes procurar a Corregedoria, instância responsável por fiscalizar a conduta dos agentes públicos. A possibilidade de se entrar com uma ação judicial contra o prefeito por suas declarações foi cogitada por alguns delegados como um caminho viável. No entanto, outros membros da instituição ponderaram que o foco principal e mais produtivo para a corporação deve permanecer na apuração minuciosa dos indícios de fraude no contrato em questão. Até o momento da publicação, o UOL tentou obter um posicionamento oficial da Secretaria da Segurança Pública, mas não obteve retorno.

A discussão ganhou um novo capítulo com a manifestação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Na terça-feira (2), Tarcísio reafirmou a autonomia da Polícia Civil paulista para conduzir suas investigações de forma independente. Em declaração feita em Rio Claro, interior de São Paulo, o governador afirmou categoricamente: “A operação da polícia é uma coisa em que a gente não interfere”. Ele prosseguiu, destacando que “a polícia tem autonomia para fazer suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado”. Tarcísio de Freitas sublinhou que “havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. E sempre vai ser assim: a polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado, está a serviço do Estado”, reiterando a natureza técnica e apartidária das ações policiais.

Autonomia Policial e o Combate à Corrupção

O delegado André Santos Pereira, presidente da Adpesp (Associação de Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), enfatizou a importância da independência policial e a seriedade das investigações. “Ninguém está acima da lei”, declarou Pereira, reforçando um princípio fundamental da justiça. Ele pontuou que a Polícia Civil “não tem aliados políticos, trabalha com base em materialidade, buscando a autoria de crimes”. O presidente da Adpesp também trouxe à tona a existência de indícios de fraudes e manifestações do Tribunal de Contas do Município (TCM) que apontam irregularidades nos contratos, solidificando a base para a atuação policial. “A polícia está realizando seu papel amparada por decisões judiciais”, asseverou, rechaçando qualquer insinuação de partidarismo na condução dos trabalhos.

André Santos Pereira criticou o direcionamento da discussão para o âmbito político. “A manifestação do prefeito e de outros atores conduz a discussão para o campo político”, afirmou. Para ele, é crucial “colocar as coisas nos lugares adequados” para evitar confundir a população. O presidente da Adpesp reiterou que “pessoas não são maiores do que instituições” e que “político nenhum pode ser maior do que a polícia”. Reconhecendo que “interferências políticas podem acontecer dado o histórico do país”, Pereira frisou que a “obrigação [da polícia] é trabalhar para isso não acontecer”. Ele citou exemplos históricos de casos de grande repercussão, como o Mensalão, a Operação Lava Jato, e prisões de ex-presidentes, como Lula e Jair Bolsonaro, para ilustrar a recorrência de tentativas de interferência. O delegado defendeu uma vigilância constante para garantir o ordenamento, alertando que “a política é terra de ninguém, não podemos correr o risco de enfraquecer a instituição” da Polícia Civil. Encerrou seu raciocínio com uma reflexão: “Não falo em nome dos delegados de polícia, mas como cidadão acredito que as relações políticas são públicas e estão expostas e conduzidas de acordo com interesses momentâneos. A política muda o tempo todo, está em constante transformação. O que a gente tem que fazer é trazer o debate para o centro racional”.

A defesa da autonomia das forças de segurança foi ecoada por outras entidades representativas. Jacqueline Valadares, presidente do Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), também se manifestou em defesa irrestrita da autonomia policial. A delegada enfatizou que “as polícias civis, dirigidas por delegados de carreira, devem deter autonomia para promover investigações”. Essa prerrogativa abrange um leque de atividades essenciais, como a coleta e análise de provas, a requisição de perícias técnicas, a busca por informações e documentos cruciais, além do indiciamento de suspeitos, a abertura de inquéritos e a condução de todos os demais procedimentos técnico-jurídicos inerentes à função policial. A independência nesse processo é vista como um pilar fundamental para a garantia da justiça.

Os procedimentos adotados na Operação Wi-Fi, conforme ressaltou o Sindpesp, estão em estrita conformidade com os ditames previstos em lei e sob o devido controle judicial. O sindicato esclareceu que o cumprimento dos sete mandados de busca e apreensão, executados na segunda-feira, resultou de uma determinação judicial expressa da 1ª Vara Regional de Garantias (1ª RAJ). Essa decisão foi proferida no âmbito de um inquérito que havia sido instaurado pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), parte integrante do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). A instauração desse inquérito, por sua vez, ocorreu após uma requisição formal do Ministério Público de São Paulo (MPSP). Este processo evidencia a cadeia de legalidade e a atuação coordenada entre as instituições para garantir a apuração de supostas irregularidades e a manutenção da ordem jurídica.

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A reação da cúpula da Polícia Civil de São Paulo, aliada às declarações do governador Tarcísio de Freitas e das associações de delegados, reforça a importância da autonomia das instituições de segurança e justiça em face de possíveis interferências políticas. O episódio em torno da Operação Wi-Fi e as declarações do prefeito Ricardo Nunes continuam a pautar o debate sobre a independência dos órgãos de investigação. Para acompanhar os desdobramentos deste caso e outras notícias relevantes sobre política e segurança pública em São Paulo, continue navegando pela nossa editoria de Política.

Imagem: Gabriel Silva – 27.out.2024/Ato Press/Estadão Conteúdo

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