Um estudo inovador sugere que o Carnaval pode influenciar eleitor, especialmente em contextos políticos sensíveis. A pesquisa, que analisa a correlação entre temas abordados em sambas-enredo e o comportamento eleitoral em áreas próximas às escolas de samba, revelou uma associação significativa entre letras com pautas de negritude e resistência ao escravagismo e um aumento nos votos para candidatos de oposição durante o período da ditadura militar no Brasil.
A discussão é um dos pontos altos do episódio mais recente do podcast “A Hora”, do UOL, apresentado pelos renomados jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo. Toledo destacou a complexidade e a relevância da análise, que desafia a visão de que o Carnaval seria meramente um “ópio do povo”, desvinculado das questões sociais e políticas.
Carnaval pode influenciar eleitor, revela estudo inédito
Para o desenvolvimento do estudo, os pesquisadores Caio Andrade de Sousa Gonçalves, Cesar Zucco e Fábio Caldeirar realizaram uma extensa análise de 1.874 letras de sambas-enredo do Rio de Janeiro. A metodologia envolveu o cruzamento dos temas líricos com o padrão de voto em zonas eleitorais adjacentes às quadras das agremiações carnavalescas. Essa abordagem visou compreender a intrínseca relação entre manifestações culturais e a dinâmica política em nível local.
A investigação utilizou técnicas de inteligência artificial, sob supervisão humana rigorosa, para categorizar o conteúdo das letras. O foco principal estava em discernir enredos que abordavam pautas raciais, culturais afro-brasileiras e a luta contra a escravidão. A grande descoberta, conforme ressaltou José Roberto de Toledo, foi a forte associação entre a predileção por esses temas nas composições das escolas de samba e uma maior proporção de votos de oposição nos colégios eleitorais vizinhos.
Análise Inédita de Sambas-Enredo e Voto
Embora a pesquisa não estabeleça uma relação de causa e efeito direta, a associação observada é robusta. Escolas de samba que frequentemente apresentavam enredos ligados à negritude, ao movimento anti-escravagista e a questões raciais demonstravam um entorno eleitoral com maior inclinação a votar em candidatos de oposição. Esse padrão contrastava acentuadamente com as agremiações cujas letras exaltavam a ditadura ou promoviam a ideia da democracia racial brasileira de forma predominante.
Um exemplo elucidativo, conforme apontado por Toledo e pelos autores do estudo, é o da G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro, escola da Zona Norte do Rio de Janeiro. Ao longo de décadas, o Salgueiro levou para a Marquês de Sapucaí enredos que consistentemente enalteciam a cultura africana, a resistência dos povos negros e a crítica ao regime escravocrata. Em 1957, a escola desfilou com “Navio Negreiro”; em 1960, com “Quilombo dos Palmares”. Mesmo durante a ditadura militar, o Salgueiro manteve sua linha, apresentando “Festa para um Rei Negro” em 1971 e “Do Yorubá, a luz, a aurora dos deuses” em 1978. Tais sambas-enredo não apenas celebravam a herança cultural africana, mas também veiculavam uma poderosa mensagem de resistência.
O Papel da Cultura na Formação Política
A interpretação dos achados sugere que essa produção cultural intensa por parte de escolas como o Salgueiro contribuiu para forjar um ambiente social e político mais propenso à oposição. Esse fenômeno ocorria de maneira sutil, sem a necessidade de propaganda partidária explícita ou a defesa ostensiva de bandeiras políticas, o que, vale ressaltar, também minimizava o risco de censura em um período de repressão. A conclusão do artigo, ainda em revisão por pares, reforça que mesmo sob as restrições de uma ditadura, a cultura pode atuar como um vetor de influência política, moldando a visão de uma comunidade contra os interesses do poder estabelecido.
O impacto do Salgueiro, em particular, foi quantificado no estudo, mostrando uma diferença de até 10 pontos percentuais a favor do MDB, o partido de oposição permitido durante o regime militar, quando comparado a outras áreas analisadas na pesquisa.

Imagem: noticias.uol.com.br
É importante contextualizar o período da Ditadura Militar no Brasil, que se estendeu de 1964 a 1985, caracterizado pela supressão de direitos políticos, censura e perseguição a opositores. Entender esse contexto histórico é crucial para apreciar a relevância da influência cultural discutida no estudo. Para saber mais sobre esse período, você pode consultar informações detalhadas sobre a Ditadura Militar no Brasil.
O Contrário do Futebol: Efeito Nulo das Copas
Em contraste com a influência sutil, porém significativa, do Carnaval, a pesquisa também abordou o impacto de eventos esportivos de grande porte, como a Copa do Mundo, nas eleições. José Roberto de Toledo apontou que, desde 1994, a coincidência de Copas do Mundo com eleições presidenciais não demonstrou qualquer impacto consistente nos resultados das urnas. “Historicamente, o efeito é nulo”, afirmou o jornalista, citando casos de vitórias tanto de candidatos governistas quanto oposicionistas em anos em que a seleção brasileira obteve títulos ou sofreu derrotas. Isso solidifica a percepção de que, enquanto a cultura do samba parece ter o poder de engajar e influenciar o eleitorado, o futebol, apesar de sua paixão nacional, não se traduz em um fator determinante na escolha política.
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Este estudo ressalta a importância de olhar para além das manifestações políticas explícitas ao analisar o comportamento eleitoral. A cultura, em suas diversas formas, possui um poder transformador e influenciador que muitas vezes é subestimado. Para aprofundar-se em análises políticas e outros temas relevantes, continue acompanhando nossa editoria de Política.
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